O que eles dizem do novo livro de Ricardo Araújo Pereira

Desafiámos alguns humoristas a comentar o livro A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar. A conclusão é unânime: Ricardo Araújo Pereira é um dos maiores “filósofos do humor” em Portugal.

O que é o humor? Como escrever textos humorísticos certeiros e arrancar gargalhadas? A resposta de Ricardo Araújo Pereira chegou-nos recentemente através de A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar – “uma espécie de manual de escrita humorística”, como o próprio autor explicita no subtítulo.

Desengane-se quem pensa que este é um manual de instruções, repleto de verdades absolutas. Longe disso. Ricardo Araújo Pereira já alegou várias vezes que pouco percebe do tema e que o livro é uma mera compilação da “escola” que foi acumulando ao longo dos anos na sua profissão.

Esta é, na verdade, a primeira obra do ex-Gato Fedorento escrita com a intenção de chegar às livrarias. Títulos como Boca do Inferno e Mixórdia de Temáticas limitaram-se a agregar textos preparados para imprensa e rádio, respetivamente.

Mas, afinal, se estamos perante “uma espécie de manual de escrita humorística”, o que acham dele outras das figuras do humor português? A revista Estante pediu a opinião de Eduardo Madeira, Guilherme Duarte, João Quadros,  Joaquim Monchique, Nelson Nunes, Rita Camarneiro, Rui Sinel de Cordes e Salvador Martinha. Eis o que têm a dizer.

EDUARDO MADEIRA

Donos Disto Tudo (RTP)

Se há pessoa capaz de escrever sobre humor e sobre comédia é o RAP, pela cultura e pela capacidade analítica única que tem. Há coisas com as quais concordo totalmente, há coisas com as quais discordo e outras em que nem sequer tinha pensado. Mas é um livro muito completo, muito rigoroso e que nos leva a pensar. É, acima de tudo, uma ajuda para o trabalho dos outros humoristas. Conheço muita gente que leu o livro e todos são unânimes:  é um trabalho único nos últimos anos e provavelmente não haverá outro igual.

GUILHERME DUARTE

Por Falar Noutra Coisa

Um bom jogador de futebol também pode ser um bom treinador. O Ricardo é um excelente humorista e criou um excelente livro sobre técnicas do humor. Sou da opinião que o humor dificilmente se ensina, pelo menos a adultos, mas o livro serve para espicaçar a mente e nos deixar mais predispostos ao riso, embora possamos correr o risco de ficar com um dos muitos defeitos de humorista: analisar as piadas em vez de deixarmos que nos façam rir. Um livro que não é para rir à gargalhada, mas que nos pode ensinar a rir melhor. O único reparo que posso fazer é: gostava de ter lido mais opiniões do Ricardo e menos citações e opiniões de outros. Valorizo mais a opinião dele do que a do Platão. Viram esta crítica em forma de elogio?

JOÃO QUADROS

Mata-Bicho (Antena 3) e Irritações (SIC Radical)

Nunca li sobre escrita de humor, porque sou mais ou menos autodidata nesse aspeto. Percebo a necessidade de arranjar regras e de tentar conduzir as pessoas na escrita humorística, mas não acredito muito nisso. Eu e o Ricardo sempre tivemos alguma divisão nessa forma de pensar. Mas ele é, sem dúvida, um dos nossos melhores de sempre, juntamente com o Bruno Nogueira, o Herman… Somos colegas e tenho muito respeito pelo trabalho dele.

JOAQUIM MONCHIQUE

Donos Disto Tudo (RTP)

O sentido de humor é uma qualidade que as pessoas têm ou não. É como ter olhos azuis ou verdes. Mas, embora eu ache que livros, cursos e manuais de humor sejam desnecessários, sou completamente fã dos textos do Ricardo e acho que são de leitura obrigatória. Lembro-me de ter interpretado muitos textos do Ricardo quando ele ainda era só autor e estava connosco na equipa do Herman. Ele é dotado de uma grande inteligência, é muito carismático, sabe falar bem, é maravilhoso no humor escrito e tem uma coisa que poucos humoristas têm, que é uma noção política das coisas.

NELSON NUNES

Com o Humor Não Se Brinca

É absolutamente extraordinário. Li-o de um trago, em pouco mais de duas horas. Quando o entrevistei para o Com o Humor Não Se Brinca, acabei por apelidá-lo de “filósofo do humor”: o trabalho é riquíssimo, tem a densidade de um tratado filosófico, mas ao mesmo tempo sabe segurar o leitor pelos colarinhos e fazê-lo rir a bandeiras despregadas nos momentos certos, com os exemplos certos. Creio que este livro vem preencher uma lacuna grande no que (não) se tem publicado sobre o humor, não apenas em Portugal, mas em todo o mundo.

RITA CAMARNEIRO

Curto Circuito (SIC Radical) e Speaky TV

Ele é uma inspiração, olho para ele como uma referência de inteligência, humor e irreverência. Admiro-o muito. Este livro, segundo me parece, dá-nos a conhecer o lado mais introspetivo do autor. Que bom que é ter o nosso maior humorista a falar-nos de coisas más. Porque torna mais fácil lidar com as emoções. E, por fim, rir com as dores.

RUI SINEL DE CORDES

Very Typical (SIC Radical)

O Ricardo Araújo Pereira é o único humorista em Portugal que pode escrever um livro sobre humor e automaticamente fazer-nos pensar que deve ser bom. É também o único que não confunde nomes de filósofos com os de jogadores jugoslavos que atuaram no futebol português. Recomendo o livro sem ler. Claro que, se fosse o Ricardo, a terminar isto diria “a minha opinião não vale assim tanto”, mas sou eu e vou optar por enviar-lhe um abraço.

SALVADOR MARTINHA

Um Para Um (TSF)

Se existissem olimpíadas da escrita humorística, o Ricardo Araújo Pereira seria claramente o representante português. É um orgulho para toda a classe. Domina a teoria, a técnica e a prática. A maneira como descodifica as coisas faz com que possamos encurtar caminho. Agradeço-lhe todas as vezes que me fez chegar mais rápido.


Por: Carolina Morais
Fotografia: Gonçalo Rosa da Silva/Visão

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