O outro lado da ficção científica em Portugal

A Estante fez o convite e Carlos Silva, da Imaginauta, aceitou o desafio. Na sequência deste artigo, dá a conhecer o que se faz atualmente na ficção científica em Portugal.

Apesar da quase invisibilidade do género em Portugal, a Ficção Científica (FC) made in Portugal resiste e não desiste, apoiando-se, em parte, nas imensas iniciativas em que a comunidade de fãs se desdobra.

E não se pode falar em resistir sem falar da Revista Bang!, editada pela Saída de Emergência e distribuída gratuitamente na Fnac. Esta publicação, além dos artigos relevantes e das traduções dos melhores contos que se fazem além-fronteiras, oferece muitas vezes contos originais (alguns de FC) de autores portugueses.

Ainda dentro desta editora, há que destacar a antologia Lisboa no Ano 2000 (2013), organizada por João Barreiros que, num mundo partilhado entre vários autores portugueses, desenhou uma Lisboa retrofuturista, tão fascinante como assustadora e avassaladora.

Mas a FC não se faz só pela mão das editoras tradicionais. O evento académico Mensageiro das Estrelas vai na 3.ª edição e já produziu uma antologia de contos originais. Já pelas mãos de Rogério Ribeiro, surgiu a organização da Antologia de Ficção Científica do Fantasporto (2012) e o Fórum Fantástico, evento lisboeta que caminha para a 10.ª edição e que todos os anos reúne curiosos, leitores, editoras, autores nacionais e alguns estrangeiros, como Ian McDonald e Félix J. Palma. São diversas as palestras, bancas de livros, projectos e debates que se podem assistir, mas talvez o mais importante seja a reunião de pessoas a partilhar as suas paixões. Em 2014, o Fórum Fantástico começou a atribuir os Prémios Adamastor, para as melhores obras de ficção especulativa publicadas em Portugal, sendo entre elas elegíveis as obras de FC.

Também em Lisboa, e apenas com duas edições, o SciFiLx tem mantido a literatura no cartaz a par com outras actividades, como o cinema e os jogos, atraindo até participantes de actividades tão pouco ortodoxas como o croché, para o mundo das naves espaciais e robôs.

No Porto, a EuroSteamCon já conta com três edições do evento e respectivo almanaque, juntando-se às outras cidades europeias que na mesma data celebram o movimento steampunk, que além da forte componente estética têm já um grande número de obras a povoar o imaginário comum do seus fãs, desde os clássicos de Júlio Verne aos romances de China Miéville.

Existem ainda movimentos independentes/amadores, como a Editorial Divergência e a Imaginauta, que desenvolvem projectos de FC que ninguém deveria perder. Para os leitores, é uma fonte refrescante de literatura; para os autores, é uma oportunidade de participar em projectos únicos e contribuir para o panorama literário alternativo de Portugal. A Imaginauta, em particular, tem um especial gosto em misturar literatura com outras expressões artísticas e de entretenimento, por vezes sob a forma de eventos.

Por isso, não faltam por aí oportunidades para explorar a FC que se faz em Portugal. Dos confins da galáxia às profundezas da psique, das transformações socioculturais às transformações genéticas, dos problemas morais aos paradoxos temporais, a FC (mesmo em terras lusas) é um mundo muito mais rico e vivo do que à primeira vista aparenta.


Por: Carlos Silva

*O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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