Cultura em 2015:
Hitler, Ébola, Estado Islâmico

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Uma bandeira na mão, um livro na outra

2014 foi um ano explosivo. Um autoproclamado Estado Islâmico, tão radical que até a Al-Qaeda condena, fez ressurgir em força o extremismo religioso no Médio Oriente, com repercussões em todo o mundo. O enésimo capítulo da crise financeira deu força à extrema-direita e reinventou aspirações nacionalistas na união europeia. um relatório do FMI que declara que os EUA já não são a maior economia do mundo fechou um ano de nacionalismos, fundamentalismos e aforismos, numa barafunda que se arrastou para 2015. O que esperar do mundo neste novo ano?

QUEM QUER LER ADOLF HITLER?

O garrote de Mein Kampf tem os dias contados. Os direitos de autor sobre o projeto literário-ideológico de Adolf Hitler, exclusivos do estado da Baviera desde a Segunda Guerra Mundial, caducam a 31 de dezembro. Ditame da Europa: 70 anos depois de um autor morrer, a sua obra passa a poder ser usada e distribuída livremente.

Enquanto políticos alemães querem novas leis federais para controlar o acesso ao livro, o Instituto de História Contemporânea de Munique (IfZ) tem estado a preparar o exorcismo de um dos maiores tabus da era moderna. À Estante, Magnus Brechtken, subdiretor do IfZ, diz que o projeto pretende “desconstruir mitos e narrativas enganadoras, que é o que o trabalho académico oferece às sociedades civis”. O investigador não critica quem tem medo de passar a cruzar-se com neonazis a distribuírem cópias da “luta” (kampf) de Hitler nas ruas. Mas a isso contrapõe: “O texto já está disponível na Internet, em alfarrabistas e em bibliotecas.” O que estão a preparar “não é uma mera reedição mas uma versão comentada do original, com as variações desse texto entre 1925 e 1945, enquadrando a obra na História e dando-lhe um contexto esclarecido e esclarecedor”. Um argumento forte no momento errado: a extrema-direita está a ganhar força na União Europeia.

OS GANHOS DA EXTREMA-DIREITA

Marine Le Pen e a sua Frente Nacional fecharam o ano a liderar as intenções de voto para as presidenciais francesas de 2017. E pelo menos dois livros terão influenciado essa viragem da sociedade ao mais extremo da direita. Merci pour ce moment, que Valérie Trierweiler lançou em setembro, poderá ter sido a primeira ajuda inadvertida ao partido. O “livro-vingança” da jornalista, traída por François Hollande com a atriz Julie Gayet, tornou-se recorde do ano. Um êxito que acabou ao final de um mês, com a entrada em cena de Le Suicide Français. No primeiro mês vendeu cinco mil exemplares a cada 24 horas. E nem Trierweiler nem o novo Nobel da Literatura, Patrick Modiano, conseguiram destronar o livro de Éric Zemmour, que atribui o declínio de França à imigração, aos avanços do islamismo, à tecnocracia da União Europeia, ao Maio de 68 e à fragilidade das elites políticas.


Setenta anos depois de Hitler morrer, a sua obra passa a poder ser usada e distribuída livremente.


Claro sinal dos tempos, não apenas com sotaque francês. As alterações à Constituição da Hungria pelo governo de Viktor Órban, que põem em causa direitos fundamentais e a cartilha da UE, foram um dos primeiros sinais. Mas mais atenção acolheram os sucessos de Le Pen e de Nigel Farage. O líder do Partido da Independência do Reino Unido (Ukip) fez de 2014 o ano para capitalizar a insatisfação alheia e o seu apelo antieuropeísta recebeu uma resposta estrondosa. Com uma certa ironia, uma maioria votou Farage nas eleições para o Parlamento Europeu e uma mão-cheia de deputados e dadores do partido conservador de David Cameron trocou o primeiro-ministro pelo Ukip. As deserções lançaram debates internos sobre a crise do conservadorismo e puseram a direita a medir forças para ver quem apresenta o projeto mais protecionista e anti-imigração de todos. Em maio testam-se os políticos e a política em eleições gerais, a dois anos do referendo à permanência na União.


HÁ NACIONALISMOS E NACIONALISMOS, HÁ IR E VOLTAR

É um ciclo que a História conhece bem: quando as dificuldades surgem, as divisões aumentam. O ano de 2014 quase entrou para a História como aquele em que o Reino Unido se desintegrou. Em setembro, 4,3 milhões de pessoas foram às urnas escolher entre o divórcio de Inglaterra ou a manutenção do casamento de 307 anos. Quando uma sondagem chegou a prever a vitória da independência, uma oficial da administração Obama ficou admirada com o facto de a Escócia estar em plena onda secessionista. Derradeira prova de que o governo britânico e o mundo tinham optado pela ignorância voluntária. A duas semanas do referendo, Cameron viu-se forçado a promessas de mais autonomia para convencer os escoceses a ficarem no reino. E os escoceses ficaram.

Em Espanha não houve final feliz. Fernando Pessoa já ressaltava em 1918, no seu Iberia, que “entre os problemas que agitam a indisciplinada vida da Europa, o separatismo catalão é talvez o que mais flagrantemente foca o conflito fundamental que se trava hoje no mundo e, portanto, aquele que mais ensinamentos contém”. Em 2014 a lição foi de perseverança: se os escoceses votaram pelo status quo, os catalães levaram o braço-de-ferro com o governo central até ao fim. As lutas entre a generalitat de Artur Mas e o executivo de Mariano Rajoy estiveram em crescendo até ao fim. O Tribunal Constitucional alinhou com o líder espanhol e suspendeu o referendo de novembro. Artur Mas reagiu com a convocatória de um processo participativo não-vinculativo e a promessa de eleições antecipadas.

“Se Espanha fosse o Reino Unido não estaríamos assim”, defendia, à Estante, Roger Albinyana, a poucas semanas da consulta. Para o responsável pelos negócios estrangeiros do governo de Mas, “a raiz do problema catalão, ao contrário do escocês, é que Espanha nunca soube aceitar pluralidade e diversidade, construiu-se sob uma matriz castelhana e golpeou as outras realidades nacionais”. Rajoy manteve a tradição ao aprovar a Lei Wert, que impõe o castelhano como língua principal de ensino. Mas o seu mandato pode chegar ao fim nas legislativas de dezembro. O novo líder do PSOE, Pedro Sánchez, já deu a entender que os socialistas, ao contrário dos conservadores, estão disponíveis para conversar.

UNIÃO EUROPEIA: MORTE OU RESSURREIÇÃO?

O alento veio na fórmula do feitiço contra o feiticeiro: apesar do aparente apoio a Farage, no final do ano 56% dos britânicos diziam querer ficar no bloco dos 28. O apoio, recorde desde 1991, foi atribuído à polarização que o Ukip provocou. Mas não anula a insatisfação generalizada com as instituições europeias. O luxemburguês Jean-Claude Juncker, que sucedeu a Durão Barroso à frente da Comissão, enfrenta agora os primeiros desafios – que para Eduardo Paz Ferreira, autor do livro Da Europa de Schuman à não Europa de Merkel e “europeísta convicto que não gosta de ver a Europa naufragar”, passarão por assegurar a moeda única, impedir que o Reino Unido “acelere o processo de desagregação da União” e “inverta as prioridades da política económica europeia, pondo um fim progressivo à austeridade”.


Juncker, sucessor de Durão Barroso à frente da Comissão Europeia, enfrenta agora os primeiros desafios: assegurar a moeda única é um deles.


A proclamada reta final da crise não resolverá os problemas num ano. Mas este ano a UE vai ser forçada a encarar a crise humanitária à sua porta. A estagnação das economias, que leva os mais populistas a culparem a imigração, tem contribuído para o número de clandestinos e refugiados mortos em alto mar ao tentarem alcançar o sonho europeu. Só entre junho e setembro, 2200 pessoas perderam a vida. Quatro vezes mais que em 2013. O Reino Unido já avisou que não vai financiar operações de resgate no Mediterrâneo e outros Estados-membros quererão segui-lo, mas é uma realidade que não vão poder continuar a ignorar.

DA GUERRA NA UNCRÂNIA À GUERRA CONTRA O DÓLAR

Se as eleições numa Ucrânia em crise deram a vitória aos partidos pró-Europa, no final de 2014 a guerra em Donetsk e Luhansk, na fronteira com a Rússia, continuava a adensar-se apesar do cessar-fogo e de duas idas às urnas.  Em A Mística de Putin, a jornalista Anna Arutunyan faz uma das primeiras e mais completas análises destes eventos, num livro que ajuda a compreender o conflito. Fazê-lo é entender a renovada influência de uma Rússia chutada para canto com a queda da União Soviética.

As comparações da atualidade com a Guerra Fria não são por acaso. O Oeste da Ucrânia entrou descontente em 2014, com o facto de o presidente Viktor Yanukovitch ter recusado assinar um acordo comercial com a UE em troca de laços mais estreitos com Moscovo. Se o primeiro abria a porta do clube europeu, o segundo firmava a entrada da antiga república soviética na união aduaneira da Rússia com o Cazaquistão e a Bielorrússia. Em fevereiro, Yanukovitch cedeu à pressão nas ruas e fugiu. E Vladimir Putin aproveitou o embalo para seduzir os russos étnicos do Leste do país vizinho, anexar a Crimeia e usar o gás natural, do qual a UE depende em 30%, para manobrar grandes potências.

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Foi com o gás que o presidente russo marcou mais pontos, sobretudo com um acordo de 30 anos com a China, de 316 mil milhões de euros, com trocas nas moedas nacionais para contrariar a hegemonia do dólar. E enquanto na Europa se continuou a alimentar a crónica de uma doença instalada, o FMI declarou que os Estados Unidos já não são a maior economia do mundo. O PIB da China já ultrapassa o dos norte-americanos e a Rússia, Índia e Brasil estão agora entre as economias mais fortes do mundo que, em tempos emergentes, vieram à tona e navegam com relativa tranquilidade. A ajudá-las estará agora o Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas, concorrente direto do Banco Mundial e do Banco de Desenvolvimento Asiático lançado em 2014, liderado pela China e que integra 21 países da região. Entre os grandes acionistas está a Índia, que há oito meses elegeu um primeiro-ministro comparado a Milosevic.

Membro do partido nacionalista hindu Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), em 2002 Narendra Modi ordenou a matança de quase mil muçulmanos enquanto governador de Gujarat, sob as ideologias do “culto masculino, secretista e militarista” que é o RSS, explicava em maio à NewStatesman Chetan Bhatt, que dirige o Centro para o Estudo dos Direitos Humanos da London School of Economics. Os fundadores do movimento admiravam Hitler e Mussolini e, no estado que Modi governou nos últimos 13 anos – onde vive a maioria dos 14% de muçulmanos da Índia –, o autor de Mein Kampf ainda é glorificado nos manuais do secundário. Augura-se um futuro sombrio no país de 814 milhões de habitantes, até agora a maior democracia do mundo.


O MOSAICO QUE PROPICIOU O ESTADO ISLÂMICO

Honra feita à Tunísia, o único país que parece ter saído fortalecido da Primavera Árabe tornada inverno rigoroso. Quatro anos depois do início das revoltas contra o autoritarismo, parte da região está mergulhada no caos às mãos de um estado islâmico (EI) a que Dias Farinha, professor catedrático, em conversa com a Estante, chama sempre “Exército Islâmico”. O grupo de sunitas extremistas declarou no Iraque e na Síria a instalação de um califado islâmico, a alegada sucessão política do profeta Maomé. Para o diretor do Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos da Universidade de Lisboa, primeiro é preciso entender a “divisão de regra e esquadro do Médio Oriente por Inglaterra e França após a I Guerra Mundial, que definiram fronteiras sem ter em conta a diferença de culturas, mentalidades, etnias e religiões”.

Cem anos depois, os resultados desse desleixo – explicados por Robert Fisk no brilhante A Grande Guerra pela Civilização – continuam a marcar passo e o mosaico iraquiano é o melhor exemplo. A sul, árabes xiitas próximos do Irão. Ao centro e ocidente, árabes sunitas. A norte, o Curdistão autónomo (sunitas não árabes, de origem persa), os cristãos e os yazidis (com crenças anteriores ao islamismo e ao cristianismo).

Quando os xiitas foram transportados para o poder em 2006, durante a última invasão norte-americana do Iraque, os sunitas foram votados ao ostracismo. Apesar de 37% da população seguir esse ramo do Islão, ao qual Saddam Hussein professava a sua fé, passaram a ser ignorados pelo governo de Nouri al-Maliki. E foi com esses descontentes que o fenómeno que Dias Farinha diz ser “resultado da infelicíssima operação de Bush” começou a engrossar fileiras.


Quatro anos depois das revoltas, a Tunísia é o único país que parece ter saído fortalecido da chamada primavera árabe tornada inverno rigoroso


Da coligação entre ocidentais e árabes, liderada pelos Estados Unidos para destronar o grupo por via aérea, ficou de fora uma Turquia “dúplice”, que está a pôr em risco a relação com o padrinho norte-americano e a adesão à UE. “O governo de Erdogan, sunita moderamente fundamentalista, tem receio que o Curdistão iraquiano consiga a independência e atraia os curdos da Turquia”, explica. Por isso escolheu bombardear alvos do PKK, partido dos curdos turcos, em vez de impedir os sunitas extremistas de tomarem Kobane, o enclave curdo da Síria na fronteira com a Turquia.

Inédito na sua proporção tem sido também o poder de atração do grupo sobre jovens ocidentais, que partem de capitais europeias para a região alumiados por “um misto da rejeição das sociedades onde não estão inseridos e a atração pela religião mas sobretudo pela aventura”, nas palavras do investigador. No final do ano alguns começaram a aperceber-se de que são meros peões no xadrez fundamentalista e pediram para regressar. Reino Unido e Áustria foram os primeiros a dizer não.

Este exército ainda terá cartas para dar e, nesta altura, diz Dias Farinha, os rivais também têm algumas na manga: o Irão pode decidir auxiliar o exército xiita do Iraque e a coligação, talvez com a ajuda da Turquia, pode reforçar os curdos, duas das hipóteses para tirar o Iraque do caminho do desmembramento. Tudo parece mais provável do que o presidente americano voltar a enviar tropas para o terreno, embora isso possa mudar em 2016, quando os americanos forem às urnas eleger o seu próximo líder. Obama está excluído da corrida.

A HISTERIA DO ÉBOLA

Os soldados que Obama não enviou para o Médio Oriente decidiu enviá-los para a África Ocidental, numa missão planeada assim que o ébola chegou aos Estados Unidos. O surto começou na Guiné-Conacri em 2013 e alastrou-se rapidamente à Serra Leoa e à Libéria, mas só em meados de 2014 é que o mundo lhe prestou atenção. Casos de mortes e infeções em solo americano e em Espanha, aliados a uma taxa de mortalidade de 70%, geraram o pânico. O cão de uma enfermeira madrilena infetada foi abatido, enquanto entre africanos havia queixas de corpos por recolher nas ruas. A Austrália suspendeu a emissão de vistos para quem viesse dos países inicialmente afetados e amontoaram-se as críticas à Organização Mundial de Saúde. Para este ano é esperada uma vacina para combater a epidemia. Ou várias, considerando que pelo menos a Rússia, a Suíça e os EUA já estão na maratona para encontrar a cura.

Texto de Joana Azevedo Viana
Ilustração de Richard Câmara

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