Ficção científica: o futuro é agora!

revista-estante-ficcao-cientifica-e-livros-sobre-o-espaco

Com a chegada de um novo episódio de Guerra das Estrelas em dezembro, o entusiasmo deverá chegar também aos escaparates das livrarias. A saga foi uma das responsáveis pelo despertar de toda uma geração para o fantástico e para 
a ficção científica. De Júlio Verne a Ann Leckie, este género acompanhou a evolução do mundo, imaginando-lhe novos futuros. Hoje a ficção científica está diferente mas continua a dar cartas, sobretudo no estrangeiro.

Por: Susana Torrão
Ilustração: Afonso Cruz

Retrato robô

UM FÃ DE FICÇÃO CIENTÍFICA

quem-le-ficcao-cientifica-retrato-robo

Sexo masculino
Idade superior a 20 anos
Interesse em ciência
Inteligência acima da média
(para poder acompanhar as extrapolações científicas)


Star Wars: O Despertar da Força tem estreia marcada para 18
 de dezembro. Mas, mais de seis meses antes da chegada às salas de cinema, já o lançamento de cada novo trailer na Internet deixava os fãs em polvorosa. A saga, cujo novo episódio traz de regresso Mark Hamill, Harrison Ford e Carrie Fisher, cabe essencialmente dentro do género fantástico mas é uma das principais responsáveis pelo despertar para a ficção científica (FC) de toda uma geração de espetadores e leitores.

É caso para dizer que descobriram o género através do lado negro da Força…

“De ficção científica, Guerra das Estrelas tem pouco”, admite João Seixas, acérrimo defensor de FC em Portugal. Ao longo de mais de uma década tem assinado textos de análise no jornal Público e nas revistas Bang!, Paradoxo e Megalon, centrando a quase totalidade da sua leitura em FC e fantástico. Foi através do cinema e da televisão que descobriu este tipo de literatura. “Na adolescência via Galactica, Espaço: 1999, O Caminho das Estrelas e Guerra das Estrelas, mas só a partir de 1992, já na faculdade, é que comecei a ler FC”, conta. Luís Filipe Silva, um dos poucos autores do género em Portugal, recorda as mesmas séries e ainda programas documentais como O Mundo Misterioso, de Arthur C. Clarke, que criavam o ambiente certo para as leituras da coleção Argonauta, uma das principais divulgadoras de FC em Portugal durante décadas.

De facto, antes de chegar ao grande ou pequeno ecrã, a FC teve a sua génese em livros, revistas e contos hoje clássicos. A nível internacional a publicação de novas obras continua a bom ritmo, mas a FC nacional vive hoje sobretudo em sites, blogues 
e nos encontros anuais organizados pelos fãs.

Mais de 100 anos a sonhar o futuro

Corria o ano de 1926 e, no editorial do número de abril da revista Amazing Stories, Hugo Gernsback definia como “scientifiction” (qualquer coisa como “cientificção”) “o tipo de história escrita por Júlio Verne, H. G. Wells e Edgar Allan Poe – um romance encantador misturado com factos científicos e uma visão profética”. De acordo com Gernsback, além do prazer da leitura, tais obras proporcionavam a divulgação do conhecimento de forma prazerosa, naquilo que via como a antecipação do futuro através da ficção. O termo “ficção científica” só surgiria três anos mais tarde, mas isto em termos de nomenclatura, já que a origem do género é bastante anterior. Há quem aponte Micromégas, de Voltaire, com as suas viagens imaginárias à Lua e a outros planetas, como a obra precursora da FC. Mas a versão mais consensual aponta o século XIX como a verdadeira data de nascimento daquela que também é chamada “literatura das ideias”.

A FC terá tido como pais o francês Júlio Verne e o inglês H. G. Wells. Vinte Mil Léguas Submarinas, Da Terra à Lua e Viagem ao Centro da Terra, de Verne, são hoje clássicos do género, tendo no papel central o impacto das invenções científicas sobre a vida humana. Wells, por sua vez, criou o conceito de “romance científico” com obras como A Máquina do Tempo,
 A Ilha do Dr. Moreau, A Guerra dos Mundos e O Primeiro Homem na Lua. Júlio Verne, em particular, seguia uma premissa ainda hoje válida no que se acordou chamar FC Hard: as histórias tinham de ser baseadas na ciência de forma plausível. Uma premissa que acaba por tornar datadas certas obras, uma vez que os autores trabalham sobre o conhecimento científico disponível em cada época.

Embora o nascimento da FC tenha sido europeu, em poucas décadas o género atravessou o Atlântico e passaram a ser os Estados Unidos a dar cartas. Tudo graças a um tipo de publicação muito particular: as revistas pulp. Nas bancas desde o início do século XX, eram assim chamadas por serem impressas em papel barato e destinavam-se, em geral, à divulgação de romances noir. Surgiram, no entanto, diversos títulos dedicados à FC, como Amazing Stories ou Astounding Science Fiction (mais tarde Analog Science Fact & Fiction), que iniciaria a chamada “idade de ouro” do género. Até John W. Campbell se tornar editor desta última, em 1937, a FC não era sequer vista como literatura. No entanto, sob a sua direção, a revista passou a publicar histórias de nomes como Robert A. Heinlein (O Dia depois de Amanhã, O Planeta Vermelho, Nave Galileu), Isaac Asimov (Eu, Robot e a saga Fundação) e Arthur C. Clarke (A Sentinela, adaptado ao cinema como 2001: Odisseia no Espaço). Isto, em conjunto com a aproximação de autores estabelecidos como Aldous Huxley ao género, fez com que a FC começasse 
a ganhar alguma respeitabilidade.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial apareceram novos editores, autores e obras. O género ganhou uma maior sofisticação e as histórias passaram a dar mais importância aos aspetos sociológicos e psicológicos da narrativa.

Um género para todas as idades


Se a fantasia tem imperado nos últimos anos entre o público infanto-juvenil, também é possível encontrar autores de ficção científica especialmente dedicados a um público mais jovem.

livros-ficcao-cientifica

Malorie Blackman

Depois de Not So Stupid!, o primeiro livro de FC para adolescentes que escreveu, ganhou notoriedade com a série distópica Noughts & Crosses.

livros-sobre-extra-terrestres

Orson Scott Card

O Jogo Final tem como protagonista um brilhante rapaz de 6 anos que se vê encarregue de derrotar um exército extraterrestre.

livros-sobre-robos

Lois Lowry

Na saga juvenil The Giver, esta autora americana explora uma sociedade em que todas as pessoas têm de ser iguais e um adolescente que se recusa a aceitá-lo.

 

Ficção científica com rosto humano

Foram os anos 70 que assistiram à maior transformação da FC. Surgiu o termo FC Soft para designar obras em que a primazia era dada às relações humanas
 e não tanto à ciência – casos de 1984 de George Orwell, Crónicas Marcianas de Ray Bradbury e A Mão Esquerda das Trevas de Ursula K. Le Guin –, estilo também designado por FC New Wave. Ao mesmo tempo assistia-se ao aparecimento de subgéneros como a ópera espacial, de que Duna de Frank Herbert ou Solaris de Stanislaw Lem são exemplos.

Apesar de todas as diferenças, a exploração de um possível futuro permanecia constante, o que não se pode dizer que continue a existir. “Hoje, autores e público parecem voltar-se para o passado. Mesmo nos anos 70, com a FC Soft e a ópera espacial, havia uma ideia de futuro, de expansão. A partir do cancelamento do programa espacial norte-americano, desapareceu da FC a ideia de colonização espacial. Atualmente, a ação das novas obras decorre sempre na Terra, num futuro próximo, e tem como tema o impacto da tecnologia, sobretudo das tecnologias da informação, na vida social do próprio ser humano”, afirma João Seixas, para quem nas obras mais recentes a ideia de transcendência passou a estar associada às inteligências artificiais e à ligação humana à matriz tecnológica. Contudo, João Seixas recusa-se a acreditar que o ultrapassar das datas míticas associadas ao género (1984, 1999, 2001, 2010) tenha ditado a morte da FC ou pelo menos da FC Hard. “A partir do momento em que, em 1969, o Homem pousou na Lua, passámos a viver nos cenários de ficção científica dos anos 30. A FC sempre ofereceu futuro que nós não conseguimos alcançar. Atualmente vê-se alguma FC que abdicou do futuro e, para mim, isso é nocivo para o género”, diz.

Um artigo publicado em agosto no diário britânico The Guardian (“Science Fiction as a Fact: How Desires Drive Discoveries”) dava vários exemplos desta constante antecipação do futuro que sempre definiu a literatura de ficção científica. O primeiro foguetão de combustível líquido foi inspirado em Guerra dos Mundos, de Wells; em 2001: Odisseia no Espaço surge pela primeira vez um tablet; e em O Caminho das Estrelas o capitão Kirk usa um “comunicador” que pode ser visto como equivalente do telemóvel.

À velocidade da luz

Há, contudo, subgéneros que mantêm grande vitalidade.“O steampunk continua a ter muita ação. Talvez porque é uma tendência que extravasa a literatura e passa também para a moda, para uma vertente mais estética”, afirma João Seixas, que destaca também a boa saúde vivida pela ópera espacial na vertente do gótico britânico, subgénero que surgiu no final dos anos 
90. Dá como exemplos a obra de estreia 
da norte-americana Ann Leckie, Ancillary Justice, de 2013, que teve reconhecimento internacional – e consequente passagem à televisão –, e os autores britânicos Richard K. Morgan e Neal Asher. Outra das áreas que resiste à crise é a banda desenhada, com editoras como a Dark Horse, a DC e a IDW a publicarem FC com regularidade.

É sobretudo entre os títulos com mais ação e maior ligação ao universo dos videojogos, filmes e séries de televisão que surgem os bestsellers contemporâneos. “Caso uma obra não tenha esta faceta multimédia, acaba por não ganhar leitores”, reconhece João Seixas. Entre os títulos mais recentes há também quem opte pelo conceito “mais rápido que a luz”, fortemente atacado pelos defensores da FC clássica. Há, contudo, especialistas que defendem que isto pode ser feito: “De acordo com determinados cânones, o conceito de ‘mais rápido que a luz’ pode ser aceite se todos os outros parâmetros físicos se mantiverem. Uma violação dos parâmetros por obra é admissível. Mais do que isso passa a ser má escrita”, explica João Seixas.

Nas obras de Peter F. Hamilton e Alastair Reynolds continuam a ser feitos cálculos de reação e da força gravítica, mas há a ideia de que a velocidade da luz pode ser ultrapassada. Por oposição, há títulos de FC que exploram ao limite a hipótese de viajar à velocidade da luz. É o caso de A Guerra Eterna, de Joe Haldeman. O livro, publicado em 1974, explora a ideia do que realmente aconteceria se o ser humano conseguisse viajar à velocidade da luz: a personagem principal, um soldado, sente-se cada vez mais alienada no regresso de cada missão espacial. Para ele decorreram apenas alguns segundos, mas a cada regresso é confrontado com as consequências da passagem de milhares de anos na Terra.

Ficção Científica

Para Principiantes


FC Hard vs. FC Soft

A oposição entre estes dois subgéneros de ficção científica tem por base a distinção entre as chamadas ciências “duras” (como Física, Astronomia ou Química) e as ciências “suaves” (como Sociologia, Filosofia e História).
FC Hard dá primazia ao detalhe e à precisão científica. Nos seus enredos a solução passa, na maioria das vezes, pela tecnologia. Os personagens principais são geralmente cientistas, astronautas ou engenheiros. Mais do que as personagens, são explorados os fenómenos científicos.
Notáveis: Carl Sagan, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke
FC Soft também denominada FC New Wave, centra-se mais nas relações entre as personagens e não tanto nos aspetos científicos do enredo. A “ciência” explora situações ou factos hoje considerados impossíveis ou altamente improváveis pelos cientistas.
Notáveis: Ray Bradbury, Ursula K. Le Guin

Cyberpunk

A ação situa-se sempre num futuro dominado pela tecnologia
 e pela cibernética. A trama desenvolve-se da oposição à inteligência artificial e às megacorporações, muitas vezes no ciberespaço, com recurso frequente à realidade virtual.
Notáveis: Bruce Bethke (que oficializou o
termo com o conto “Cyberpunk”, no início dos anos 80), William Gibson, Bruce Sterling

Steampunk

Tem por base as invenções e a estética da Revolução Industrial e da era das máquinas a vapor. As histórias desenvolvidas neste subgénero têm cenários específicos, muitas vezes ligados a uma realidade alternativa passada no século 
XIX ou a um futuro pós-apocalíptico onde 
a tecnologia a vapor continua a ser comummente utilizada.
Notáveis: Michael Moorcock, K. W. Jeter

História alternativa

Remete para as noções de universos paralelos e viagens no tempo, partindo de acontecimentos históricos verídicos e alterando-lhes um ou outro aspeto de forma a explorar as possibilidades. E se os nazis tivessem vencido a Segunda Guerra Mundial? E se os dinossauros não se tivessem extinguido? E se o Homem não tivesse chegado à Lua?
Notáveis: Harry Turtledove

Universos alternativos

São realidades paralelas que coexistem com
 a nossa e que tanto podem cingir-se a uma pequena localidade como abarcar um universo inteiro. O hiperespaço – região alternativa de espaço
– é muitas vezes usado na FC como atalho em viagens interestelares.

Mais rápido que a luz

Refere-se à lógica de utilizar dados supostamente impossíveis (como velocidades superiores à da luz) nas narrativas. Tradicionalmente rejeitado pela FC Hard, este conceito tem, no entanto, sido utilizado em obras mais recentes.

livros-sobre-o-espaco

O caso português

Tal como nos Estados Unidos, Portugal também teve direito à sua quota-parte de pulp fiction durante as primeiras décadas do século XX. Por cá os enredos giravam sobretudo em torno de histórias policiais e intrigas amorosas, devidamente avivadas com alguns elementos fantásticos. Contudo, apesar da inspiração nas suas congéneres francesas e norte-americanas, não houve obras ou autores da época que ficassem para a história da FC em Portugal. Foi necessário esperar por 1968 e pela edição de Terrestres e Estranhos para o público aceder a uma compilação de contos fantásticos que incluía textos assinados por Natália Correia, Dórdio Guimarães, Manuela Montenegro, Luís Campos ou Lima Rodrigues. Durante 
os anos 60 e 70, Natália Correia, a par de Mário Henrique Leiria, Romeu de Melo ou Isabel Meireles, tentaram dinamizar o género, sobretudo através do conto, mas a FC nacional acabou por nunca vingar.

João Barreiros – autor, entre outros,
 de O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias, Se Acordar antes de Morrer e Terrarium, escrito em parceria com Luís Filipe Silva – foi editor de FC durante as décadas de 80 e 90 e crítico do género
 no jornal Público. Aponta a ausência de uma aposta séria por parte das editoras como uma das causas. A outra será a fraca divulgação do género – vítima de más traduções ao longo de décadas – e a falta de qualidade dos textos. Conhecido pelo estilo sarcástico e cortante quer enquanto autor quer enquanto crítico, duvida 
que alguma vez a FC venha a registar
 um grande crescimento em Portugal.

Com o desaparecimento das coleções Argonauta e FC Europa-América, o último esforço sério de promover a FC nacional deu-se com a criação do Prémio Caminho de Ficção Científica, no início dos anos 90. Luís Filipe Silva venceu a edição de 1991 com O Futuro à Janela, assinando depois a série GalxMente. “A Caminho arriscou-se a publicar autores portugueses de forma regular e a seleção de estrangeiros que escolhia era fora da norma, com autores europeus, francófonos, polacos”, recorda o autor que, na época, colaborava regularmente com o suplemento DN Jovem. “Tinha um ritmo bastante certinho porque publicava para o DN Jovem, que me impelia a escrever sempre coisas novas. Juntei o útil ao agradável ou o agradável ao mais agradável ainda e durante o ano de 1990 fui escrevendo contos e escolhendo. Escrevi um pouco de tudo. Decidi fazer a maior palhaçada possível para não me cingir a um único tema e agradar pelo menos a um dos membros do júri.” Resultou. Seguiu-se o convite, algo inesperado, por parte de João Barreiros, para colaborar na conclusão de Terrarium,“o primeiro tijolo da FC nacional, com 600 páginas”, cuja reedição está agendada ainda para este ano, pela Saída de Emergência. Mas Luís Filipe Silva assume que o seu ritmo de produção baixou consideravelmente. “Hoje é difícil publicar FC em Portugal, seja de que forma for. Mesmo nas redes sociais não temos dimensão em termos de mercado. Nos Estados Unidos são publicados anualmente cerca de 250 livros apenas de FC, a que se juntam mais umas centenas de fantasia. Na nossa época áurea publicávamos uns míseros 40 livros por ano, com muita sorte. Se enquanto leitor não tivesse dado o salto para a leitura no original, nunca teria uma visão mais abrangente do género”, afirma Luís Filipe Silva.

Resistir às adversidades

No final dos anos 90 surgiram jovens autores portugueses, mas mais ligados 
ao universo da fantasia, na sequência do boom que o género teve à escala mundial a seguir à passagem de O Senhor dos Anéis ao cinema e ao sucesso da saga Harry Potter. Mas, de acordo com Luís Filipe Silva, mesmo esses autores desapareceram e os que se mantêm hoje ativos publicam sobretudo on-line. “E isso não confere profissionalização. Para fazer uma coisa bem é preciso investir tempo e dinheiro e como os rendimentos da atividade são praticamente nulos cria-se um ciclo vicioso: como tenho de dedicar a minha energia a coisas mais práticas, não tenho tempo para me dedicar à escrita como devia, não publico com regularidade e com visibilidade, isso leva a que os leitores não se apercebam que existo e por isso as editoras não pedem novas coisas. É um ciclo difícil de quebrar.”

Mas se, enquanto autor, Luís Filipe abrandou substancialmente o ritmo,
 como leitor continua um impenitente da FC. “Neste género, mais do que noutros, cada obra acaba por contribuir para uma conversa que se vai mantendo. Obras
 que falam de viagens interplanetárias são discutidas por vários autores – sobre o que é e não é possível cientificamente e sobre as soluções que podem ser encontradas para contar a história. Há um batalhar de ideias que acaba por ser divertido… E não há só máquinas. Também há todo o lado humano: o que somos, como nos relacionamos, como evoluímos como sociedade.” Afinal, temas fraturantes como a vigilância eletrónica e as mães de aluguer, são tratados há décadas por um género literário que, apesar dos maus tratos, teima em resistir.

Gostou? Partilhe este artigo: