Ricardo Araújo Pereira: “Lembrar as pessoas que elas fazem cocó é um serviço inestimável que prestamos”

Esta é uma conversa sobre livros. Mas também sobre cocó. Ou não fossem os intervenientes dois dos principais humoristas do nosso país. De um lado Ricardo Araújo Pereira, acabado de publicar Estar Vivo Aleija, uma coleção de crónicas escritas para o jornal brasileiro Folha de S. Paulo. Do outro Nuno Markl, desafiado pela Estante a entrevistar o colega e amigo de há tantos anos. O resultado não é para estólidos.

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ESTAR VIVO ALEIJA
Ricardo Araújo Pereira
Acho que o que as gentis pessoas da FNAC querem é, no fundo, uma espécie de vislumbre sobre o tipo de conversa que nós temos quando ninguém nos diz “conversem!” ou “gravem!”. O que é muito bizarro, porque geralmente fazemos coisas como recensões a puns…

Exatamente.

E coisas que se calhar não têm muito interesse para a FNAC.

Sim, nada disso pode ser publicado.

Tinha planeado começar esta entrevista a citar – repara bem – o arranque da tua crónica “Htide Fiap é o Meu Nome”, que está na página 29. Era uma boa citação porque não só tem conteúdo como indicava que pelo menos eu tinha lido o livro até à página 29. Mas depois descobri que está na badana.
É o momento em que tu dizes: “Edith Piaf declarou, famosamente, que não se arrependia de nada. Que sorte. Eu sou o seu rigoroso inverso, arrependo-me de tudo. Isto que vou fazendo não é exatamente viver, é o rascunho de uma vida. Eu precisava de outra para passar tudo a limpo e comportar-me como deve ser. O meu epitáfio será, provavelmente, ‘aqui jaz Ricardo Araújo Pereira com uma mão na testa’. É isso que vou fazer, parece-me. Mesmo antes de morrer vou levar a mão à testa e dizer, desconsolado, ‘ah, então era assim que devia ter vivido. Devia ter feito muitas coisas que não fiz e não devia ter feito a maior parte das coisas que fiz’.”
Isto angustia-te ou é só uma constatação de facto e, na realidade, de certa maneira, neste capítulo da tua vida, está tudo bem?

Mas que excelente questão, Nuno.

Há muita coisa que te angustia, mas não sei se isto te angustia na realidade.

De um certo ponto de vista sim. Por outro lado, serve-me para escrever coisas. E, por isso, o facto de ser matéria que eu vendo e depois as minhas filhas têm o que comer por causa disso…

É uma visão giríssima da tua arte. Mas faz todo o sentido.

É uma espécie de salsicharia em que a gente põe esse tipo de inquietação meio mariconça e tal.

O que não quer dizer que não tenhas inquietação genuína a borbulhar dentro de ti. Que é uma coisa que eu tenho também.

O meu problema quando estou a escrever para o Brasil é que não conheço suficientemente a realidade brasileira. E eles não conhecem a portuguesa – e ainda bem para eles. Portanto, tenho de escrever sobre coisas que qualquer pessoa entenderia, seja brasileira ou chinesa.

A sensação que tenho – e se calhar estou a presumir mal – é que, como sinto que isso é verdade para mim, aquela coisa de que a vida parece sempre uma espécie de rascunho, uma espécie de pré-vida…

Uma espécie de um ensaio geral.

Sim. Em certa medida, se calhar isto é assim para toda a gente e por isso as pessoas vão identificar-se com o que eu digo. Se não se identificarem e pensarem “não, não, isso é mesmo só uma inquietação tua”, então pode ser que valha pela bizarria.

É que eu estava a pensar que tu, apesar destas inquietações, és uma pessoa que, muitas vezes, manifesta a sua felicidade com o simples objetivo de estar em casa a coçá-los.

Exato! Ou seja: sou fácil de satisfazer. Estar em casa a coçar-me é um dos grandes prazeres da minha vida. É uma delícia.

Tendo um bom sofá…

Exato! Com os cães a olharem. Aninham-se lá à volta, às vezes olham: “Ah, lá está ele. Está parado, também.” Na verdade, é uma vida de cão.

Estar em casa a coçar-me é um dos grandes prazeres da minha vida.

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Consegues parar? Porque, na verdade, uma coisa que acho que faz falta à humanidade e que invejo nas minhas cadelas é a capacidade que elas têm do nada. Da abstração total. De repente, olho para a minha cadela e ela está só com a cabeça levantada, a olhar. E eu não sei se consigo fazer isso hoje em dia. Consegues estar só a não fazer nada?

Isso é uma ótima pergunta. Sabes que tenho andado a interessar-me por silêncio, por essa coisa de: será que é possível fazer como a gente faz nos computadores? “Deixa-me cá só fazer reset.” Será que isso é possível fazer connosco? No outro dia pus-me a ler umas coisas sobre meditação…

Experimentaste?

Não, porque começo a distrair-me.

É esse o meu problema.

E a pensar: “Que horas são isto?”

É que há pessoas que dizem: “esvaziar a mente”. Mas como se faz? Tenho muita coisa a acontecer aqui dentro que não consigo desligar.

É isso. Eu às vezes até estou a tentar e eles dizem: “Não, não, é normal os pensamentos aparecerem; afasta-os suavemente.” E eu estou a tentar afastá-los suavemente. Mas de repente ponho-me a pensar: “Como é que sei se estou a fazer bem?”

É isso. E esse é mais um pensamento que tens e que se junta aos outros todos. Para mim os pensamentos são como a cena do filme Uma Noite na Ópera, dos Irmãos Marx. Aquele quarto no barco que está cada vez mais cheio de gente, abre-se a porta e cai tudo. Eu não consigo fazer meditação porque é como se fosse a porta desse quarto a abrir e tudo aquilo a cair cá para fora. É muito difícil.

Mas eu gostava muito.

Também eu.

Esses exercícios de controlar a respiração, uma coisa silenciosa, às vezes há umas musiquinhas e uns sons da natureza…

Não tens uma aplicação que é o Calm?

Não!

É ótima porque tens malta como o Stephen Fry a ler textos com uma voz muito suave e a dizer como é que tu tens de estar na cama. É o mais próximo que eu faço de meditação. Mas que, no fundo, não é meditação. É dormir, só.

Entretanto, não sei se conheces um gajo francês que se chama Emmanuel Carrère

Não.

A Bárbara Bulhosa, da Tinta da China, vai editá-lo cá agora. Acho-o um escritor muito interessante. Há um livro dele que é sobre a conversão dele ao Cristianismo, e depois a desconversão. E há um momento em que ele, todos os dias, tira um tempo para comentar um verso do Evangelho Segundo São Mateus. E há ali toda uma vontade da parte dele, igual à nossa, de procurar silêncio. Ele também é interessado por meditação, por estar calmo, por psicanálise…

Uma das coisas interessantes nele – e nós não temos, provavelmente, essa compulsão – é a História da Religião. Eu agora estive no Egito e eles têm uma coisa que é uma espécie de um terço, só que islâmico, e serve para a mesma coisa: para tu passares as contas e ires repetindo uma coisa. A sensação que dá é que repetir uma coisa…

Dá-te uma certa paz interior.

Dá uma certa paz. Acho que é por isso que se reza um terço. O que os islâmicos fazem é repetir várias vezes “Deus é grande”. Depois várias vezes “Deus é bom”, “Deus é maravilhoso”, etc. É capaz de, nessa repetição – e nós já somos um bocado repetitivos…

Sim, nós gostamos muito de repetir coisas.

Essa compulsão para a repetição talvez seja uma busca inconsciente de paz.

E mais! Não sei se tens isto mas eu, não sendo uma pessoa religiosa, sinto-me genuinamente bem dentro de igrejas. Não te sei explicar porquê.

Também eu! Aquele silêncio!

Adoro aquilo.

E é fresco.

Sinto-me bem-vindo. Pode ter a ver com o fresco, no verão, mas há mais qualquer coisa ali que não te sei explicar o que é. E talvez eu tenha uma espécie de… não sei se é inveja das pessoas para quem aquilo tem de facto um significado e que encontram ali paz.

É verdade, é. É isso, há paz, há um silêncio ali dentro, e às vezes até um cheiro – parece que cheira a pó…

Parece que cheira a pó, sim!

Mas há ali uma espécie de suspensão do tempo qualquer que dá vontade de ficar lá.

A nossa compulsão para a repetição talvez seja uma busca inconsciente de paz.

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A INAUDITA GUERRA
DA AVENIDA GAGO COUTINHO
Mário de Carvalho

 

AVENTURAS DE JOÃO SEM MEDO
José Gomes Ferreira
Nós somos pessoas que gostamos de pacatez. Estava a lembrar-me: estivemos há pouco tempo num casamento, o do Vasco Palmeirim. E nós dois somos pessoas que não apreciam ir para a pista de dança…

Acho que éramos as únicas pessoas que não estavam a dançar.

Os únicos, claramente. Há pessoas que já nos conhecem e não nos maçam. Mas nas festas há sempre uma pessoa, geralmente já assim algo alcoolizada, que vem puxar as pessoas que estão sossegadas para dançar. E eu às vezes sinto isso do mundo inteiro. As pessoas parece que estão sempre a querer puxar-me para uma pista de dança. Não sentes isso também?

Talvez. Mas não sei se te lembras – estávamos a apresentar um livro teu e eu disse que, para mim, uma boa imagem de Nuno Markl é: entendendo a vida como um vagalhão que vem e nós estamos todos lá dentro e é difícil porque há chapadões de água e há coisas que vão acontecendo e há pessoas que estão a fazer um esforço enorme para fingir “não, não, não me está a acontecer nada, eu continuo direito, a onda não me atirou contra a duna”, tu estás com um bloco de notas: “Olha um chapadão. Tumba, mesmo na cara, este. Olha, agora uma alga. Entrou-me uma alga para os calções.”

É isso, é.

Estás sempre a tomar notas.

Eu coleciono toda a espécie de coisas inúteis. Mas já vamos falar de mais coisas inúteis! A FNAC, quando nos desafiou para isto, pediu que esta conversa abordasse livros. Não apenas o teu, mas vários.

Que se vendam na FNAC.

Sim, portanto agora pensa bem naquilo que vais responder. Pensa bem se já o viste na prateleira na FNAC: qual foi o primeiro livro que leste que foi, para ti, uma epifania? Nunca falámos disto e estou genuinamente curioso.
No meu caso, lembro-me que teria 15 anos e uma professora de Português passou-me para as mãos Os Contos do Gin-Tonic, do Mário-Henrique Leiria, porque achava que eu tinha um humor parecido, apesar de nunca ter lido aquilo na minha vida. E, de facto, houve ali um coro de anjos.
No teu caso, o que aconteceu?

O que acontecia no colégio de padres franciscanos onde eu andava era isto: tínhamos aulas das 9h00 às 16h00 e depois, das 16h00 às 18h00, alguns miúdos cujos pais não tinham disponibilidade para os ir buscar ficavam numa coisa chamada estudo. Basicamente era para fazer os trabalhos durante duas horas. Eu fazia-os em 15 minutos, ficava despachado, e depois pegava no livro de Português, que tinha muitos excertos de vários autores, e ia ler. E acho que isso aconteceu-me com dois autores: um foi o Mário de Carvalho. Havia um conto dele chamado “A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho”

Que é maravilhoso.

A Deusa da História engana-se, faz um grande nó e, de repente, emerge uma batalha medieval na Avenida Gago Coutinho de hoje. O [Gabriel] García Márquez diz que uma vez abriu A Metamorfose do Kafka, leu a primeira frase que diz “Um dia, depois de uma noite de sonhos agitados, Gregor Samsa acordou transformado numa espécie grotesca de inseto” e pensou: “Eu não sabia que se podia escrever isto!” Isso aconteceu-me com o Mário de Carvalho. Eu também não fazia ideia que era possível imaginar que a Deusa da História se tinha enganado e, de repente, aparecia ali uma batalha medieval.

Nesses meus livros também encontrei textos de um autor chamado José Gomes Ferreira. Tu andaste na Escola José Gomes Ferreira…

Andei, numa altura em que ainda não se chamava José Gomes Ferreira. Apenas Escola Secundária de Benfica.

Havia textos dele no livro da escola, não só os das Aventuras de João Sem Medo

Também estavam nos meus livros da escola.

Mas havia outros. Havia textos de um livro que ele tinha chamado O Mundo dos Outros, que é um livro de contos, e de um livro chamado Gaveta de Nuvens. E havia um texto, em especial, que consistia num bêbado a queixar-se de que algumas palavras já não eram usadas. O bêbado tinha muita pena disso e começava a chamar, por exemplo: “Você é um estólido!”

O que é giro, porque parece um pré-sketch do Gato Fedorento. Consigo imaginar essa ideia a surgir de ti. Num episódio da Mixórdia de Temáticas.

Exato, é possível!

Gabriel García Márquez diz que abriu A Metamorfose, leu a primeira frase e pensou: ‘Eu não sabia que se podia escrever isto!’ Isso aconteceu-me com o Mário de Carvalho.

ULISSES
James Joyce

 

COMO UM ROMANCE
Daniel Pennac

 

POKING A DEAD FROG
Mike Sacks
No meu caso, a minha cultura sempre foi mais cinéfila do que literária. Tu preferias objetivamente livros a filmes?

Acho que sim. Também gosto de filmes, evidentemente, mas gosto mais de ouvir uma pessoa a contar-me uma história do que de ver uma história a desenrolar-se. Quase todas as minhas personagens estão a contar uma história, não estão a viver uma história. Também porque, às vezes, a história é difícil de viver: “Aparece-me um urso e começa-me a violar…”

Claro, mas o Leonardo DiCaprio…

O Leonardo DiCaprio fez isso.

Sempre achei que o Revenant era uma adaptação desse sketch. O Iñárritu claramente via O Perfeito Anormal e foi buscar isso.

Mas alguns dos filmes que eu achava mais giros não eram apenas uma história a desenrolar-se, era um tipo a contar a história que se estava a desenrolar. Por exemplo, A Princesa Prometida

O Peter Falk a contar a história ao neto.

O miúdo está doente e o avô conta-lhe a história e faz apartes. Mesmo A História Interminável parte de um livro que está a ser lido.

Toda a gente que gosta de ler tem livros que são Everestes. Aqueles muito difíceis de escalar. Gostava de saber se tens algum desses. Eu, por exemplo, queria muito ler – e já fiz várias tentativas – A Piada Infinita, do David Foster Wallace. E é muito difícil porque tem mil e tal páginas, notas de rodapé dentro de notas de rodapé, e fico muito cansado. Apesar de não ter desistido, porque acho que é muito bom.

Também lá tenho esse livro e ainda não lhe peguei. Às vezes compro livros e tenho a consciência de que é muito improvável que os vá ler. Mas quero tê-los lá na prateleira, não vá acontecer.

Dá-me um exemplo.

Às vezes há livros que fazem parte da obra de um autor de quem gosto, mas que são assim mais marginais, e penso: já agora, também quero ter isto. Mas sobre esses Everestes, por exemplo, ainda não consegui ler decentemente o Ulisses do James Joyce.

É o maior Evereste não só para ti, mas para muita gente.

Mas vou conseguir! Há uns anos frequentei um seminário…

Um workshop para ler o Ulisses?!

Era quase isso, sim! Líamos um capítulo por semana. Só que me apareceu uma coisa qualquer de trabalho e não consegui concluir o seminário. Mas comprei uma edição anotada que espero que me vá ajudar. Conheço o monólogo final da Molly Bloom, conheço vários episódios do livro, mas é aquela leitura de galinha que está a picar o chão. Ainda não consegui dizer: é hoje que isto vai de uma ponta à outra.

Isso é uma coisa que te fica a moer?

Sinto alguma culpa. Mas, por outro lado, há um livro de um gajo chamado Daniel Pennac, francês, Como Um Romance, em que ele reivindica imensos direitos para o leitor: direito de abandonar o livro a meio, direito de ler só as partes que quer…

Lembro-me que me introduziste no mundo do cronista Dave Barry, e penso que ele acabou por se tornar uma referência para ti e para mim. Uma das histórias mais famosas de O Homem que Mordeu o Cão foi a notícia da baleia explosiva que me chegou via Dave Barry. Sentes que, no teu lado cronista, foi um autor que te espicaçou

Não tanto na escrita. Eu achava fascinante que um tipo tivesse uma vida que consiste em estar atento a histórias absurdas e depois escrever sobre elas e ganhar dinheiro.

Que é, no fundo, a minha vida hoje!

Exatamente! Tu não fazes ideia da sorte que nós temos. Uma vez entrei no carro e pus um endereço. E o GPS pergunta: “Aceitar destino?” Eu nunca tinha reparado nessa pergunta. De repente senti que estava dentro de uma peça do Sófocles. Dá para escrever 2500 caracteres sobre isso. O facto de podermos dar-nos ao luxo de estarmos em casa a congeminar coisas dessas em vez de “o Dr. Fonseca hoje chegou maldisposto outra vez, lá vamos nós trabalhar pela noite dentro”…

Por isso é que não podemos queixar-nos muito desta vida.

Não podemos, não.

Apesar de nos queixarmos.

Claro.

Às vezes compro livros e tenho a consciência de que é muito improvável que os vá ler. Mas quero tê-los lá na prateleira, não vá acontecer.

A DOENÇA, O SOFRIMENTO E A MORTE
ENTRAM NUM BAR
Ricardo Araújo Pereira

 

 

REACCIONÁRIO COM DOIS CÊS
Ricardo Araújo Pereira
A gente queixa-se muito. No meu caso queixo-me de uma espécie de funcionalismo público de comédia. São muitos anos a apresentar humor a uma hora certa.

Tens razão.

Mas ao mesmo tempo compreendo as pessoas que me mandam aquelas bocas desagradáveis do género: “Deviam era carregar uma saca de cimento, homem!”

Há um certo tipo de pessoas para as quais trabalho só é trabalho se envolver uma enxada ou acartar coisas. Mas há vários tipos de trabalho. Não quero com isto defender que o nosso possa ser considerado trabalho.

Não, não, de forma nenhuma! Já que estamos a falar sobre humor, há uma expectativa que as pessoas têm de nos ver a conversar sobre o assunto… Porque é que se quer tanto falar sobre como se faz humor? Nós recebemos muitos convites para falar e para dar workshops e, na verdade queria desabafar isto contigo –, eu tenho muito poucas teorias sobre o assunto.

Acho que é uma coisa paradoxal. Disseste, e bem, que há muito apetite por “epá, venham cá falar sobre o assunto”. Eu acho que é porque, precisamente, se fala pouco sobre o assunto. Repara no seguinte: a Paris Review, aquela revista literária muito famosa, é famosa especialmente pelas entrevistas a escritores. São escritores a falar do seu ofício. Também encontras pintores a falar de pintura, músicos a falar de música – não é raro veres isso. É, de facto, bastante mais raro ver humoristas a falar de humor.

Talvez porque seja um bocado como não sei se isto vai soar pretensioso ilusionistas a falar de magia. O humor suscita uma reação tão visceral nas pessoas, e às vezes é tão incerto percebermos o que vai funcionar e o que não vai funcionar, que acho que falar sobre humor, às vezes, parece o mesmo de estarmos a fazer amor e a descrever: “Agora, neste momento, estou de facto a efetuar a penetração.” Ou seja: não é muito sexy falar sobre humor. Embora compreenda que as pessoas tenham interesse.

Tu usaste uma metáfora que é a do “vejam agora, vou então efetuar a penetração”. Outros autores, digamos, talvez um pouco mais elegantes, compararam o processo a dissecar uma rã e, no processo, a rã morre – ou seja, a piada morre.

Há um livro de entrevistas a autores de comédia chamado Poking a Dead Frog, que é precisamente por causa dessa metáfora. Se o autor conhecesse esta tua de “estou agora a efetuar a penetração” talvez ele escolhesse outro título para o livro!

Acho que foi uma metáfora vencedora. Nós, quando começámos a escrever e a viver disto, não tínhamos cursos, não havia teses. Simplesmente víamos coisas e depois achávamos que conseguíamos escrever qualquer coisa e tivemos a sorte de conseguir trabalhar. É por isso que às vezes tenho muita dificuldade em explicar a pessoas teoria sobre escrita de humor. Também tens essa dificuldade?

É uma dificuldade, claro. Anualmente tenho dado umas aulas numa pós-graduação que há na Universidade Nova sobre escrita humorística. Adorava saber o que é que as pessoas com quem estou a falar pensam daquilo. Se é “hum, pode ser que esta perspetiva me ajude no futuro, quando me sentar a escrever um texto humorístico” ou se é apenas “ele está a falar de quê? O que é isto?”.

Isso que estavas a dizer era especialmente inquietante para nós. De facto não havia curso, não havia nada. E o certo é que a gente tinha de fazer isto e ganhar a vida. Ou seja, era a nossa profissão.

É uma posição muito periclitante para uma pessoa, ter de fazer um trabalho para o qual não teve nenhuma formação nem sabe exatamente como se faz. Aliás, a gente sabe, mesmo que não saiba que sabe, como se faz. Mas é um trabalho difícil e até penoso começar a tentar mapear esse processo.

Existem três Ricardos: o que analisa política, o que analisa – como em Estar Vivo Aleija – as pequenas coisas da vida…

Como o facto de a palavra “chulé” não se dizer em inglês.

E há também o que trabalha ao nível de pessoas a quem nascem castanheiros no cu. Quais são os processos criativos de cada um destes Ricardos? Ou é tudo um Ricardo?

É tudo um. Só que, lá está, pessoas a quem nascem castanheiros no cu é o tipo de coisa que fazemos na Rádio Comercial. Imagina que vou para lá fazer humor político. O banco de trás não se diverte. Aquilo é ouvido por pessoas que vão a caminho da escola, onde vão levar os putos, a caminho do trabalho. Nós temos essa consciência: há gente no banco de trás e queremos que o carro inteiro se divirta.

E nada diz mais a uma criança do que pessoas a quem nascem castanheiros no cu!

As crianças já têm maturidade suficiente para perceber: “Isto realmente seria um transtorno, um menino a quem nasce um castanheiro no cu.” Na verdade, o que tenho é uma vasta gama de produtos que consigo vender em várias praças.

Há um certo tipo de pessoas para as quais trabalho só é trabalho se envolver uma enxada ou acartar coisas. Mas há vários tipos de trabalho. Não quero com isto defender que o nosso possa ser considerado trabalho.

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Ainda sobre fazer humor: é de facto muito giro. Mas tendo a compreender uma coisa que há uns anos não percebia: a maneira como, a dada altura, pessoas da comédia parece que enveredam pelo drama.
O Jim Carrey, por exemplo. Na altura achava que era a armar: “Olha, agora já se acha bom demais para fazer comédia.” Mas agora, não sei se por causa da idade, começo a perceber a sedução de fugir da piada de vez em quando e, por exemplo, escrever a série 1986, que apesar de ter comédia lá dentro não estava muito dependente de piada-piada-piada.
Sentes isso alguma vez ou consegues imaginar-te a trabalhar só em humor para o resto da tua vida?

Sim, consigo. Embora perceba quando os atores dizem “agora vou experimentar esta outra modalidade” ou aquilo que fizeste com a série. Porque te interessa. Acho isso admirável. Acho menos interessante quando as pessoas dizem: “Não, eu agora vou para isto porque isto é respeitável.”

Essa abordagem é terrível.

Acho que às vezes é culpa dos próprios humoristas que a comédia tenha mau nome. Modéstia à parte, acho que nós temos feito qualquer coisa por isso. Abrimos um livro de O Homem que Mordeu o Cão e percebemos “este tipo não andou na Internet a recolher anedotas e a pô-las aqui”. Lá está, tal como o Dave Barry faz, há um trabalho…

É partires daquilo para falares do resto.

Exato, e isso não é uma coisa básica. Provavelmente há grandes autores que abrem um livro como O Homem que Mordeu o Cão e não têm recursos para fazer o que fazes lá. Meu querido.

Muito obrigado. Também há o caso do Louis CK. Há episódios da série Louie que são quase melancólicos. Percebes que continua a ser comédia, mas há ali uma tristeza. Sentes que tens isso em ti?

O nosso amigo comum José Diogo Quintela costuma referir-se a estas crónicas que escrevo para o Brasil como “as crónicas macambúzias”. “Já acabaste a crónica macambúzia desta semana? Era sobre quê, a crónica macambúzia?” Porque acha que têm um tom que é diferente, talvez mais… acho que a palavra é “dolorido”.

São todas hilariantes, mesmo assim.

Não são, olha que não.

Em algumas há essa melancolia.

É por causa do tal constrangimento do tema. Às vezes é mais a olhar para dentro.

Por exemplo, há uma crónica sobre um momento no oitavo ano em que o Padre Manuel disse à turma: “Vocês têm de certeza perguntas que vos inquietam. Para as conseguirmos fazer com todo o à-vontade e liberdade, escrevem anonimamente num papel, mete-se num chapéu e depois eu tiro e ninguém sabe.” E eram as perguntas do costume: “O que é a masturbação?”, coisas assim. Nisto, ele tira o meu papel. E a minha pergunta era: “O que é que eu estou aqui a fazer?”

Maravilhosa pergunta!

A sala desaba numa gargalhada! Havia várias confusões: parecia que era o padre que dizia “o que é que eu estou aqui a fazer?”; ou, mesmo que fosse o aluno, era “o que é que eu estou aqui a fazer nesta aula?” – quando eu me referia ao planeta!

Ou seja, não quiseste fazer humor aí. Estavas a questionar-te sobre o sentido da vida!

Exatamente. E mesmo assim houve colegas meus a olhar para mim como quem diz: “Só há aqui um idiota capaz de escrever uma coisa destas e é aquele.”

Humoristas e crianças pequenas partilham algumas obsessões e até características de personalidade. Uma delas é achar graça a cocó.

Acho que este teu livro encerra uma coisa que admiro muito na tua obra: a capacidade de misturares filosofia e bandalheira. Há reflexões muito válidas sobre chulé, tens o teu texto sobre Kierkegaard e Candy Crush… Acho que há muita gente que fala com desdém de chulé e puns, esse tipo de coisa. Eu acho que são temas imortais. Temas válidos. Ainda há muito para explorar nessa área, ou não?

É uma área que, às vezes, é mal explorada.

Tem má fama.

Tem má fama injustamente. Aliás, acho que humoristas e crianças pequenas partilham algumas obsessões e até características de personalidade. Uma delas é achar graça a cocó. No outro dia estava a ler uma coisa sobre aquele momento do filme do Mel Brooks em que ele faz um pastiche de Os Pássaros.

Acho que é no Alta Ansiedade, que é uma paródia ao Hitchcock.

Exatamente. Um homem está num parque infantil e nisto olha para trás e os pássaros começam-se a acumular, exatamente como no Hitchcock. Mas o Mel Brooks explora a única forma de ataque dos pássaros ao ser humano que o Hitchcock deixou de fora: cagar-nos em cima.

E o que as pessoas dizem era que a estrutura que eles montaram para esguichar caca de pássaro em cima do Mel Brooks era uma coisa tecnologicamente avançadíssima. Era uma máquina que tinha um contentor com uma mistura de maionese e espinafre, que depois esguichava aquilo.

E não havia ali ninguém que lamentasse: “Olha para isto, está aqui a usar-se tecnologia que podia pôr o Homem na Lua, e está a ser usada para…”

Uma piada de cocó.

Uma piada de cocó. Ninguém. Antes pelo contrário. Porque aquela piada de cocó faz muita falta à Humanidade.

E faz todo o sentido.

Lembrar as pessoas que elas fazem cocó é um serviço inestimável que prestamos e ninguém nos dá crédito por ele.

Por: Nuno Markl
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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