Editorial: Nuno Markl

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Uma espécie
de realidade paralela

Nuno Markl

Eu, devoto coleccionador de detalhes, viverei sempre na angústia de não ter registado o dia exacto e a hora da sessão do cinema Império em que a minha vida mudou. Sei que foi em 1981 e que foi extraordinário. Falta-me a informação burocrática e, com muita pena minha, falta-me o bilhete do cinema. Hoje, num bonito encontro de eras, o pequeno pedaço rectangular de papel amarelo estaria arrumado dentro de um box set de cintilantes discos digitais.

De resto, consigo reconstituir tudo o que se passou. O filme O Império Contra-Ataca estava prestes a estrear em Portugal, e o primeiro volume da saga – na altura não lhe chamávamos Episódio IV, não lhe chamávamos Uma Nova Esperança. A bem dizer, nem lhe chamávamos Star Wars; chamávamos-lhe um bem português Guerra das Estrelas – estava em reposição, para o país ganhar balanço para o novo tomo. Para mim, as aventuras no espaço aconteciam em casa, dentro da televisão – o Star Trek clássico (na altura, O Caminho das Estrelas!) e a primeira temporada de Galactica eram o nosso portal para outros universos.

Até esse ponto, o cinema, na minha vida, era o lugar onde ia ver grandes prodígios da animação dos estúdios Disney e, ocasionalmente, algum filme que as avós, minhas fiéis companheiras de sessões no Tivoli, queriam ver (foi assim que Música no Coração e Grease se tornaram os primeiros filmes “com pessoas” que vi no grande ecrã). Mas ainda não fora o palco de uma saga intergaláctica… até porque não havia assim tantas, naquela altura.

Naquela tarde de 81 fui com os meus colegas Pedro e André ver Guerra das Estrelas. Sentámo-nos no balcão do Império, uma varanda gigante para o espaço sideral. Numa era anterior ao IMAX e ao 3D sofisticado, com os filmes a serem projectados em boa velha película, recordo a experiência como tendo sido totalmente imersiva – nós combatemos o Mal e rebentámos com a Estrela da Morte todos juntos, o Pedro, o André, eu, o Luke, a Leia, o Han, o Chewbacca, o C-3PO e o R2-D2. É claro que uma experiência dessas marca-nos e define-nos. A razão por que ainda hoje nos apaixona e não permaneceu arrumado na catacumba das “coisas-que-achávamos-giras-quando-éramos-garotos” é o melhor testemunho da qualidade intemporal da obra de mestre Lucas.

Aquela tarde de 81 foi uma epifania. E quem considera a obra de George Lucas uma manifestação artística menor deverá pensar duas vezes sobre o verdadeiro poder da Força: Guerra das Estrelas não me deixou só apaixonado pelo seu universo muito particular; deixou-me apaixonado para a vida pelo Cinema. Foi uma porta gigante de entrada para o meu amor por todos os mundos dessa galáxia – desde os blockbusters ao cinema independente e de autor. Começou ali, a ver o western espacial de todos os westerns espaciais no balcão do Império.

A saga cresce connosco. À medida que vamos refinando a sensibilidade e o gosto e coleccionando referências, vamos percebendo o milagre que é aquela fusão de William Shakespeare com Flash Gordon. E, conforme o nosso grau de geek (quando é que inventam uma palavra portuguesa para isto?), vamos admirando o trabalho incansável de ourives que está por trás da criação de um mundo que não se esgota nos filmes. Se tivermos a paciência de mergulhar nos livros, comics e nas duas séries televisivas de animação do cânone Star Wars (The Clone Wars e Star Wars Rebels), verificamos que, mais do que uma saga de ficção científica, Star Wars é uma espécie de realidade paralela – um universo com história, sociedades, civilizações; coerente e minucioso desde o macro até ao micro. Sério o suficiente para acreditarmos que existe e respira numa galáxia longe daqui; divertido e despretensioso quanto baste para manter entretida a criança interior, como numa brincadeira do recreio da escola.

E é verdade que as prequelas não chegam aos calcanhares da trilogia original. Mas ainda assim, mesmo com Jar Jar Binks e com longas dissertações burocráticas sobre rotas de comércio, é admirável como expandem e esmiúçam uma galáxia de heróis, tiranos, robôs e monstros. Um simulador de vida que passamos aos nossos filhos, na esperança que mantenham a chama viva. Hão-de manter, nem que seja porque as lojas de brinquedos – e a Fnac! – estão outra vez repletas de naves, andróides e criaturas fascinantes.

Nas imortais palavras do heróico malandro contrabandista Han Solo, no novo filme O Despertar da Força

…“Chewie, estamos em casa.”


*Nuno Markl escreve de acordo com a antiga ortografia.

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