10 novelas gráficas para quem acha que não gosta de banda desenhada

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Se achas que na banda desenhada só cabem super-heróis, fica a saber que o género também é composto por mistérios, guerras, distopias e histórias da vida real. Estas são algumas das novelas gráficas que prometem agradar até a quem ainda não foi conquistado pelo bichinho da BD.

sabrina

SABRINA

Nick Drnaso

Surgiu no Japão, no século XVIII, e popularizou-se nos Estados Unidos, por volta da década de 1930. Desde então, a banda desenhada tem combatido estigmas e, em muitos casos, elevado o nível até se tornar uma legítima candidata a alguns dos principais prémios literários do mundo. Entre as novelas gráficas que extravasaram barreiras e conquistaram distinções improváveis podemos apontar March: Vol. 3 (vencedora do National Book Award) ou Jimmy Corrigan: The Smartest Kid on Earth (vencedora do Prémio Guardian). Mas Sabrina foi a que mais nos impressionou.

Sabrina é a novela gráfica do momento e há uma boa razão para isso: afinal, foi a primeira de sempre a constar nos nomeados do prémio Man Booker. Referindo-se a ela como uma “obra-prima”, a escritora Zadie Smith acrescentou inclusive que se trata do “melhor livro – de qualquer género – que li sobre o nosso momento atual”. É incrível como Nick Drnaso consegue reações tão emotivas através de uma história contada no seu estilo minimalista e visualmente “apático”.

Sabrina parte do desaparecimento de uma mulher (“Juro por Deus, se descobrirem o culpado, mato-o”, diz a certa altura o seu namorado. “E se ele tiver morrido e ela estiver morta, mato-me a mim.”) para refletir sobre o impacto que uma só pessoa pode ter na vida daqueles que a rodeiam, direta e indiretamente, bem como na sociedade em geral, ou não explorasse também o autor o clima de conspirações e notícias falsas que tem vindo a caracterizar o mundo moderno.


Maus

MAUS

Art Spiegelman

É impossível falar de novelas gráficas que conquistaram grandes distinções literárias sem fazer uma vénia a Maus, a obra-prima do americano Art Spiegelman, originalmente publicada entre 1980 e 1991, que se tornou a primeira (e, até ver, a única) novela gráfica a vencer um Prémio Pulitzer.

Maus encontra-se algures entre a biografia e a autobiografia, a ficção e a não ficção. Tudo começa quando o autor decide entrevistar o seu pai, um judeu sobrevivente ao Holocausto, sobre as experiências que este viveu durante a Segunda Guerra Mundial. As conversas entre os dois homens resultam numa obra onde os personagens surgem metaforicamente transvestidos de animais: os judeus são apresentados como ratos, os nazis como gatos, os americanos como cães, e por aí diante. Uma história poderosa que é também uma das mais celebradas novelas gráficas de todos os tempos.


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THE FADE OUT: CREPÚSCULO EM HOLLYWOOD

Ed Brubaker e Sean Phillips

A popularização da banda desenhada nos Estados Unidos coincidiu com a ascensão de um género de cinema americano que hoje conhecemos como film noir. E é curioso como o noir dos livros e o noir dos filmes foram, de tempos a tempos, cruzando caminhos, muitas vezes com fantásticos resultados. Nesta categoria poderíamos pensar em Torso ou Blacksad e ficaríamos bem servidos, mas para os leitores que adoram as narrativas cínicas, violentas e sexuais do noir, não há melhor novela gráfica do que The Fade Out.

A obra que Ed Brubaker situou naquela que apelida de “uma era muito negra em Hollywood” captura na perfeição o melhor dos mistérios noir. E a narração é perfeita: “Eram sempre as pequenas coisas que abriam as portas do apagão. Pormenores. O batom lembra-lhe um sorriso. O sorriso leva-o a uma voz. Depois a um rosto. E foi assim que Charlie percebeu em casa de quem tinha acordado, mesmo antes de a encontrar morta e estendida no chão da sala.”


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MARCHA PARA A MORTE!

Shigeru Mizuki

A guerra é um dos motivos mais habituais da banda desenhada, mas nem sempre é protagonizada por super-heróis: Iron or The War After, de S. M. Vidaurri, apresenta a turbulência da guerra através de coelhos e outros animais antropomórficos; Weapons of Mass Diplomacy, de Abel Lanzac, descreve os eventos que levaram à invasão americana do Iraque; e Indeh, de Ethan Hawke (esse mesmo, o ator) e Greg Ruth, pinta um retrato doloroso da resistência dos índios Apache às mãos do exército americano. Será, contudo, nesta novela gráfica de Shigeru Mizuki que nos deparamos com a mais devastadora reflexão sobre as injustiças da guerra.

Marcha para a Morte! acompanha um grupo de soldados japoneses nas últimas semanas da Segunda Guerra Mundial. A missão que devem cumprir é tão simples quanto perversa: morram em combate, em nome do vosso país, ou percam a honra e sejam executados no retorno. Com um estilo visual tipicamente japonês, Shigeru Mizuki baseou-se nas suas próprias experiências enquanto soldado para construir esta poderosa novela gráfica.


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V FOR VENDETTA

Alan Moore

A distopia está presente com alguma frequência na banda desenhada, podendo assumir um formato mais tradicional, onde se atribui maior ênfase ao totalitarismo e à corrupção dos sistemas políticos, ou uma natureza mais pós-apocalíptica. No campo da distopia pura temos novelas gráficas tão interessantes como Days of Hate ou Calexit, mas convenhamos que não há distopia mais emblemática na BD do que V for Vendetta.

É bem provável que já te seja familiar a máscara de Guy Fawkes com que V, o revolucionário que protagoniza a história, esconde o rosto. E é possível que até já tenhas visto o filme baseado neste livro, com Hugo Weaving e Natalie Portman nos principais papéis. Mas fica a saber que nada disto dispensa a leitura da obra original, um ensaio sobre fascismo, intolerância e resistência que só poderia ter sido pensado por Alan Moore. Recomendamos particularmente esta edição especial de capa dura, lançada a propósito do 30.º aniversário da história.


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UZUMAKI

Junji Ito

Fazemos neste momento uma pausa nas guerras e revoluções para nos concentrarmos no surreal como forma de chegar aos pontos mais profundos da nossa personalidade. Por se tratar de um meio predominantemente visual, a banda desenhada é um género perfeito para abraçar o bizarro e existem autores que se tornam verdadeiros especialistas nisto: lê o Cages, de Dave McKean, ou o Ed the Happy Clown, de Chester Brown, e diz-nos se não temos razão. Mas se existe, na banda desenhada, um mestre do surreal, não precisamos de ir mais longe do que Junji Ito.

É impressionante a sobriedade e até a melancolia com que este autor japonês nos conta as mais inacreditáveis histórias, quer nos fale de uma horda de peixes mortos-vivos com pernas de metal ou nos apresente a sua própria versão de Frankenstein. Uzumaki será porventura a sua narrativa mais conhecida, sobre uma comunidade inteira que se vê assombrada não por uma pessoa nem por um evento, mas por misteriosas espirais.


A-Leoa

A LEOA

Anne-Caroline Pandolfo e Terkel Risberj

Retornemos às histórias reais, mas sem abandonar por inteiro o surreal. É que há muitas biografias em formato de novela gráfica, mas serão raras aquelas com a liberdade criativa deste A Leoa.

Para perceber isto basta passar pela primeira cena, onde acompanhamos Karen Chistenze Dinesen ainda no berço, rodeada por sete entidades, entre as quais uma cegonha, o Diabo, William Shakespeare e, em maior destaque, Friedrich Nietzsche.

A bebé haverá de se tornar Karen Blixen, mais conhecida como a autora de África Minha, e é a sua história que é contada nas páginas desta novela gráfica, embora a realidade se misture consecutivamente com a ficção.


Persepolis

PERSÉPOLIS

Marjane Satrapi

A autobiografia é outro dos géneros mais explorados no mundo das novelas gráficas. Alguns exemplos de qualidade são o enternecedor Fun Home ou o kafkiano Stitches. Até em Portugal temos o etéreo O Amor Infinito que te Tenho. Mas a autobiografia gráfica mais popular de todas será provavelmente a que Marjane Satrapi escreveu, ilustrou e posteriormente adaptou ao cinema em Persépolis.

Persépolis é a história desta autora, da infância à idade adulta, mas é também, por arrasto, a história recente do Irão, o seu país de origem, e da tenebrosa forma como a revolução de 1979 o transformou numa república fundamentalista. É uma realidade que nos é mostrada na primeira pessoa, permitindo-nos um vislumbre privilegiado do que é ser mulher no Irão moderno.


Blankets

BLANKETS

Craig Thompson

Se Persépolis é uma autobiografia gráfica sobre uma mulher afetada pela política, Blankets é uma autobiografia gráfica sobre um homem afetado pela religião, ou não tivesse sido criado numa família evangélica.

Também aqui acompanhamos a vida do autor, da infância à juventude, no entanto o foco desta história encontra-se na relação amorosa que Craig Thompson estabelece com uma mulher que conhece numa colónia religiosa.

Esta relação desempenhará um importante papel na definição da identidade espiritual do autor que chega à idade adulta com uma nova certeza de quem realmente é.


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UM CONTRATO COM DEUS

Will Eisner

Haverá melhor forma de encerrar esta listagem de novelas gráficas do que com a novela gráfica original? Will Eisner passou grande parte da vida a ser rebaixado por críticos que encaravam a sua área de eleição, a banda desenhada, como uma arte menor, mas não deixou de ambicionar criar banda desenhada literária. Foi o que fez em 1978, com a publicação de Um Contrato com Deus, uma coleção de quatro histórias entrelaçadas que troca os super-heróis habituais da altura pelo realismo muitas vezes soturno associado à experiência dos judeus em Nova Iorque.

Com receio de desvalorizar a obra, a editora original do livro vendeu-o como novela gráfica e não como banda desenhada. Embora a denominação já existisse na altura, este foi o livro responsável por a popularizar, bem como por inspirar as novas gerações a encarar a banda desenhada de forma mais séria.

Por: Tiago Matos

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