Nicholas Sparks: “Há pedaços de mim em todos os romances”

Vinte e um anos depois de lançar O Diário da Nossa Paixão, Nicholas Sparks passou por Portugal e sentou-se à conversa com a Estante. Falou sobre um pouco de tudo: os seus livros mais icónicos, o mais recente, Hollywood e a paixão por atletismo.

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Já passaram quase 10 anos desde a última vez que o tivemos em Portugal. Estamos a recebê-lo como deve ser?

Claro! Estou a divertir-me imenso desde que cá cheguei. Ontem [sábado] tivemos um evento maravilhoso [no Museu dos Coches] e tem sido fantástico.

Publicou O Diário da Nossa Paixão há 21 anos. Essa obra ainda é a menina dos seus olhos?

Terei sempre um lugar muito especial no meu coração para O Diário da Nossa Paixão. Foi o romance que lançou a minha carreira e estou bem ciente disso. Mas ao mesmo tempo gosto de pensar que cresci enquanto escritor e, por isso, estou muito orgulhoso do meu livro mais recente, Só Nós Dois, e do romance em que estou a trabalhar agora. 

Ainda se lembra de como foi escrever O Diário da Nossa Paixão? Porque tinha 28 anos, foi o seu primeiro romance, portanto calculo que tenha sido difícil.

Lembro-me muito bem. Trabalhava durante o dia a vender produtos farmacêuticos, estava sempre a ligar a médicos para lhes falar dos medicamentos que a minha empresa oferecia. E na altura tinha dois filhos – o mais novo tinha oito meses e o mais velho 2 anos. O meu segundo filho não dormia muito bem, acordava três ou quatro vezes por noite, por isso a Cathy [ex-mulher] deitava-se por volta das 20h00 ou 21h00. E eu tinha uma escolha: podia ficar a ver televisão, a ler ou a perseguir um sonho. Então decidi escrever O Diário da Nossa Paixão.

Trabalhava das 21h00 à meia-noite, três ou quatro dias por semana, sem pressão, e ao fim de cerca de seis meses completei o livro. Lembro-me que escrevi a última secção do livro em primeiro lugar.

Porquê? Já tinha decidido como é que a história acabaria?

Não, sabia simplesmente que esse livro seria bom ou mau consoante aquilo que fizesse com a última parte. Então disse para mim mesmo: “Se não conseguir escrever a última secção bem, mais vale nem escrever os primeiros três quartos do livro.”

Então trabalhei arduamente nessa última parte – que é quando o Noah e a Allie são idosos e vivem num lar – e, quando estava satisfeito com o resultado, escrevi o que restava do livro – menos as primeiras oito páginas. Escrevi como eles se conheceram, como se reencontraram, como ela voltou depois de se ter casado com outra pessoa.

Sabia que as primeiras cinco a dez páginas de um romance são aquelas que os agentes vão ler: se eles não gostarem das primeiras cinco páginas, não vão representar-te. Por isso guardei-as para último e trabalhei nelas até achar que estavam perfeitas.


Qualquer autor quer que cada romance seu seja lembrado muito depois de serem viradas as últimas páginas. Acredito que assim seja comigo.


As-Palavras-Que-Nunca-te-Direi

Amor e relações familiares sempre foram o âmago dos seus livros. Já disse anteriormente que encontra inspirações para as suas histórias na vida real, por isso qual foi a história que inspirou O Diário da Nossa Paixão?

Foi a história dos avós da Cathy. Eles conheceram-se durante um verão, ela foi embora, ficou noiva de outra pessoa, depois voltou, casou com ele e, perto do final da sua vida, desenvolveu demência. Foi essa a história que escrevi.

Livros como As Palavras Que Nunca Te Direi e Um Momento Inesquecível também são das suas primeiras publicações, no entanto ainda estão muito presentes. Os seus fãs passam-lhe esta ideia, de que carregam todas estas histórias consigo ao longo dos anos?

Sim. Acho que qualquer autor quer que cada romance seu seja apreciado, primeiro, e lembrado muito depois de serem viradas as últimas páginas. Acredito que assim seja comigo, mas suponho que isso dependa de cada leitor.

Só Nós Dois, o seu mais recente romance, acompanha um pai que tenta tomar conta da filha e organizar a sua própria vida depois de se ver sem mulher e sem emprego. Diria que é uma dinâmica muito diferente daquelas que apresentou em livros anteriores?

Não, nem por isso. É uma história de amor e passa-se na Carolina do Norte. Mas este livro explora o conceito de amor nas suas várias facetas: não apenas o amor romântico, quando o Russell [protagonista] conhece alguém novo, mas o amor entre pai e filha, entre irmãos e entre ele e os pais.

Explorei muito a ideia de que em tempos difíceis não devemos passar pela vida sozinhos. Esses tempos tornam-se um pouco mais fáceis se tivermos alguém ao nosso lado. Por isso, este romance acompanha o Russell enquanto ele luta para recuperar a sua vida, e às vezes são os pais que o ajudam, outras vezes é a irmã dele, outras vezes a filha e outras vezes ainda o novo amor da sua vida.

Quanto de si, enquanto pai, está nesta personagem?

Existem muitos pedaços autobiográficos. O início do livro sou eu quando tive o primeiro filho: entrei no duche e, de repente, a Cathy entrou em trabalho de parto e começou a gritar comigo. E a parte das Barbies também sou eu: quando brincava com a minha filha, ficava aborrecido e dava por mim a pensar se seria um mau pai por estar aborrecido, por não conseguir simplesmente estar naquele momento e gostar de despir a Barbie e colocar-lhe uma nova roupa vezes e vezes sem conta [risos].

Então há sempre um pouco de Nicholas Sparks em todos os romances.

Sim, há sempre pedaços de mim em todos eles. Sem dúvida.


É muito difícil criar um personagem original, interessante e universal.


Um-Momento-Inesquecivel

O que é mais desafiante para si quando escreve um romance?

Criar a voz do personagem. É que há um limite muito ténue: queremos criar um personagem original, interessante e, ao mesmo tempo, universal. Por um lado, queremos que os leitores sintam que conhecem alguém assim, mas por outro queremos deixá-los interessados pela leitura e queremos criar algo original para que pareça inovador comparativamente aos meus outros livros.

É muito fácil conseguir duas dessas coisas. É muito fácil ser original e interessante, e assim criamos Hannibal Lecter [personagem de O Silêncio dos Inocentes]. Mas ele não é muito universal. A maioria das pessoas não conhece serial killers que arrancam a pele do rosto das pessoas. O que é muito difícil é criar um personagem original, interessante e universal. 

É um dos contadores de histórias mais admirados em todo o mundo. Acha que é precisamente por combinar esses três fatores nas suas histórias que milhões de pessoas querem ler os seus livros? Por criar personagens reais com problemas reais?

Sim, e gosto de pensar que não são só as minhas personagens que são universais, interessantes e originais, mas também os enredos. Gosto de pensar que também tem a ver com as surpresas que os meus livros têm para oferecer. Quando pegas num livro meu não sabes como vai acabar, não sabes se alguém vai morrer ou ficar doente, não sabes se o casal vai conseguir ficar junto ou não, como em Dear John. E acho que isso também contribui.

Os seus romances têm vários elementos em comum, como a Carolina do Norte, cartas, o mar ou tempestades. Porquê?

Porque são todos muito diferentes. Por exemplo: se os únicos livros que alguém lesse fossem O Diário da Nossa Paixão, o primeiro, e Só Nós Dois, o mais recente, não pensaria que foi a mesma pessoa a escrevê-los. E o mesmo se pode dizer de Um Momento Inesquecível e No Teu Olhar. Ou de Um Refúgio Para a Vida e Dear John. Então acho que esses elementos mantêm os romances interligados.


Não achava que fosse possível viver da escrita.


Um-Refugio-Para-a-Vida

Lançou 20 livros em 20 anos. Os leitores esperam que mantenha esse ritmo?

Sim [risos]. Diria que sim, o que me coloca alguma pressão.

Então quer dizer que em 2018 teremos um novo livro.

Sim, e é maravilhoso.

O que nos pode contar sobre ele?

Bem, é uma história de amor, passa-se na Carolina do Norte… Ah, e tem cartas lá pelo meio [risos]. Por isso é diferente de qualquer coisa que já tenha feito [risos].

Mas que tipo de dinâmica vai explorar? Por exemplo, Só Nós Dois focava-se essencialmente numa relação de pai e filha.

Vai ser um pouco como O Diário da Nossa Paixão, O Sorriso das Estrelas ou Uma Escolha Por Amor.

Já passou por tantas experiências emocionais com as suas personagens. O que é que o autor, Nicholas Sparks, aprendeu com elas?

Às vezes criamos personagens com quem queremos ser mais parecidos, outras vezes criamos personagens com as quais não queremos ter nada a ver, e por vezes as minhas personagens fazem coisas que não deveriam ter feito. Acho que com elas é possível aprender o que não devemos fazer em determinadas situações, com determinadas pessoas, e temos também o potencial de aprender o que fazer.

Sempre sonhou, quando era criança, tornar-se escritor?

Não. Eu adorava atletismo, era muito bom aluno e não sabia o que queria fazer. Mas adorava boas histórias, sempre fui um leitor voraz enquanto cresci, adorava televisão e filmes. Escrevi o meu primeiro romance aos 19 anos, mas não achava que fosse possível viver da escrita. Então segui um caminho mais convencional. Escrevi outro romance aos 22 anos, mas continuava a trabalhar, a vender produtor farmacêuticos e a fazer outros trabalhos. E eventualmente tudo resultou para mim. 

Enquanto crescia, quem mais admirava?

Billy e Pat Mills. Eram os pais da minha namorada na altura. Ele era atleta olímpico medalhado na corrida dos 10 mil metros. Eu adorava correr e também me lembro do Carlos Lopes, de Portugal, que se não me engano ganhou a medalha de prata nos 10 mil metros. Primeiro a de prata e depois a de ouro na maratona. Lembro-me tão bem dessa corrida! Era mesmo um grande fã de atletismo.

Então essa possibilidade de carreira também pairava na sua mente?

Sim, queria ir aos Jogos Olímpicos, só que não tinha o talento do Carlos Lopes. Há muita coisa que é genética, não é? Consegui tornar-me muito bom, mas aquele salto do muito bom para o fantástico, para o atleta de classe mundial, simplesmente não consegui dar.


Stephen King é a minha principal influência literária.


Uma-Escolha-por-Amor

Quais são as suas influências literárias?

Por mais incrível que pareça, o Stephen King é a principal. Escrevemos géneros muito diferentes, mas se analisarmos o que o Stephen King faz bem… Número um: mantém as suas personagens autênticas – apesar de o seu mundo estar cheio de sobrenatural, as suas personagens são sempre honestas à forma como ele as criou. Número dois: nunca perde de vista o facto de estar a criar uma história cativante que o leitor não consiga largar. E número três: escreve muito bem. Eu também tento implementar essas três regras. E diria que qualquer autor bem-sucedido o faz, seja a J. K. Rowling, o John Grisham, a Gillian Flynn ou o Dan Brown. 

Como é a sua rotina de escrita?

Acordo cedo, leio o jornal, faço exercício, tomo o pequeno-almoço, tomo banho e estou no escritório às 9h30. Geralmente escrevo até por volta das 14h00 e, quando me sento para escrever, tento fazer 2000 palavras por dia. Três dias por semana estou a escrever e um dia a editar – e isso tende a demorar mais tempo, cerca de oito horas. Nos outros dias do ano ou estou a viajar, a fazer coisas com os meus filhos, em digressão ou a fazer um filme.

Por falar em filmes… Onze dos seus livros já foram adaptados ao grande ecrã. Hollywood é um bom mundo para se estar ou prefere o sossego do seu escritório?

Hollywood é um mundo maravilhoso de histórias e de pessoas muito talentosas. É diferente. Quando estou a escrever sou eu que mando, tenho 100% de poder de decisão. Um filme é um processo muito colaborativo porque trabalhamos com o estúdio, com outros produtores, com o realizador, com os atores, e toda a gente tem ideias.

Tem um filme preferido de entre aqueles que foram inspirados em livros seus?

Não [risos]. Mas o que já vi mais vezes foi Um Momento Inesquecível. Aquele que eu acho que está mais destinado a tornar-se um clássico é O Diário da Nossa Paixão.

Qual é a pior parte de ser escritor?

Há duas: descobrir o que escrever e como escrever [risos].

Disse numa entrevista que, na altura de O Diário da Nossa Paixão, lia uma média de 100 livros por ano. Qual é o seu desafio anual do Goodreads atualmente?

É o mesmo, ler cerca de 100 livros por ano. Tenho estado em digressão pela Europa e, nestes últimos 10 ou 12 dias, li oito livros. Também fiz exercício todos os dias, escrevi todos os dias e falei com a imprensa todos os dias. Gosto de me manter ocupado.

Qual foi o último livro que leu?

Foi o Sleeping Beauties, de Stephen King com o filho, Owen King.

Se alguém escrevesse um livro sobre a sua vida, que título gostaria que este tivesse?

Não faço ideia… Suponho que dependia de quem o escrevesse.

E se fosse o Nicholas?

Oh, meu Deus… Talvez I Did My Best.


Por: Carolina Morais
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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