Nelson Mandela: uma vida cheia de livros

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O líder da luta contra o apartheid fez do mundo um lugar melhor. Deixou-nos histórias que merecem ser recordadas para que não nos esqueçamos da grandiosidade dos seus feitos. No Dia Internacional de Nelson Mandela, a Estante propõe-te fazer isso mesmo. Através dos livros, claro.

Conhecer a história de alguém é sempre uma viagem. Uma viagem ao seu tempo, aos seus lugares, à sua vida. Por vezes, fica-nos a ânsia de saber mais e de fazer algo tão nobre quanto essa pessoa. Nelson Mandela é exemplo disso. Certo dia, o líder da África do Sul e ativista dos direitos humanos confessou que gostaria de ver no seu epitáfio a frase: “Aqui jaz um homem que cumpriu o seu dever na Terra.” Terá conseguido? Os livros não mentem.

 

 

As-Mais-Belas-Fabulas-Africanas

18 de julho: o dia que mudaria o mundo

O seu nome era, na verdade, Ralihlahla Dalibhunga Mandela e nasceu a 18 de julho de 1918 numa província sul-africana de Cabo Leste, sem saber que se tornaria o primeiro presidente de raça negra da África do Sul e um dos responsáveis pelo fim do regime do apartheid.

Nelson Mandela – assim chamado pela professora quando, em 1925, entrou numa escola primária que tinha o hábito de dar nomes ingleses às crianças que a frequentavam – cresceu no seio de uma família da nobreza tribal e era o 13.º filho da terceira mulher de Nkosi Mandela, um importante chefe do povo Thembu. A vida na sua aldeia era repleta de rituais e são esses mesmo que Nelson Mandela nos transmite através da obra As Mais Belas Fábulas Africanas.

Por ter uma família com grande influência social na sua tribo, esperava-se que Mandela viesse a ocupar um importante cargo de chefia. No entanto, aos 23 anos, recusa este destino e decide traçar o seu: passando do interior para a capital, Joanesburgo, para estudar Direito. É a partir desse momento que Mandela começa a lutar pelas suas causas.

 

 

Nelson-Mandela-Uma-Licao-de-Vida

Apartheid: luta pela igualdade

Contar a história de Mandela exige que percebamos a África do Sul do seu tempo. O apartheid foi o sistema político que vigorou de 1948 a 1994, comandado pela minoria branca, e que se definia, essencialmente, por impedir o relacionamento entre pessoas de raças diferentes – isto significava, por exemplo, que apenas os indivíduos de raça branca podiam votar. Era um movimento com o objetivo de atingir o desenvolvimento através de uma separação política, económica, social e até geográfica das diferentes raças.

E porque o desenvolvimento político, económico e social era o principal foco do regime, o desenvolvimento humanístico ficou de parte. Então, de forma a reordenar essas prioridades, Nelson Mandela sentiu-se na obrigação de intervir.

Em 1939 ingressou no curso de Direito da Universidade de Fort Hare, a primeira a disponibilizar cursos para negros. No primeiro ano tornou-se líder de um movimento estudantil que lutava contra as políticas segregacionistas, algo que o levou a ser expulso e a transferir-se para a Universidade da África do Sul, em Joanesburgo, onde se deparou com a verdadeira opressão dirigida aos indivíduos de raça negra. A única maneira de poderem ser ouvidos politicamente era através do Congresso Nacional Africano (CNA), que tinha entre os seus líderes – adivinhaste – Nelson Mandela.

Durante toda a década de 1950, Mandela foi um dos principais membros do movimento anti-apartheid. Em 1955 participou na divulgação da “Carta da Liberdade” – um instrumento importante na luta contra o regime que defendia a igualdade de direitos para todos os cidadãos sul-africanos, qualquer que fosse a sua etnia.

Uma das principais características de Nelson Mandela era a luta pacifista. No entanto, numa segunda-feira de 1960, tudo mudou. A 21 de março desse ano deu-se o massacre de Sharpeville, onde a polícia atacou com fogo os manifestantes negros, matando 69 pessoas e ferindo cerca de 180. Foi um acontecimento marcante na mudança de abordagem por parte de Nelson Mandela: passou de meios não violentos para uma luta armada. No ano seguinte, tornou-se comandante do CNA, promovendo uma campanha de sabotagem contra alvos militares e governamentais, e durante um ano recebeu treino militar em Marrocos e na Etiópia. Porém, ao regressar ao seu país, foi preso e condenado a cinco anos de prisão, em agosto de 1962.

Fugido da polícia, em 1964, é condenado a prisão perpétua por conspiração contra o regime. Foi então que Nelson Mandela se tornou um herói. Na história contada por Jack Lang, em Nelson Mandela – Uma Lição de Vida, podemos ver, em apenas cinco capítulos, o poder de um homem humilde, mas eloquente nas palavras e ambição, que, apesar de ter passado quase três décadas atrás das grades, nunca inundou os seus discursos com palavras de vingança e ódio.

 

Um-Longo-Caminho-Para-a-Liberdade

 

Invictus

Do número 46664 até à liberdade

É através do livro Um Longo Caminho Para a Liberdade que Nelson Mandela nos transporta para o seu campo de batalha. Lugar onde lutou, foi derrotado e com a arma da esperança conseguiu triunfar e ganhar uma das mais difíceis lutas: aquela em que os homens se põem de costas voltadas. A história biográfica deste livro conta-nos, na primeira pessoa, o combate por um mundo melhor. Um combate que se intensificou num número de prisioneiro com cinco dígitos: 46 664.

Mandela esteve 27 anos encerrado numa cela e foi nela que se tornou um símbolo universal na luta contra o apartheid. A sua pena foi sendo alvo de negociações, sempre recusadas pelo líder político. Várias vezes durante a década de 1970, e na sequência da campanha internacional “Libertem Nelson Mandela”, recusou a revisão da sua pena, tendo até, em 1985, rejeitado a possibilidade de liberdade condicional em troca de não incentivar a luta armada. Mas a luta em prol dos seus valores sempre falou mais alto. Graças à persistência do CNA para libertar Mandela, este conseguiu sair em liberdade no dia 11 de fevereiro de 1990, com 72 anos.

A África do Sul mudou quando Nelson Mandela conquistou a presidência nas primeiras eleições livres, em maio de 1994. Mas, apesar da vitória, o líder sabia que a mudança de paradigma ia ser bem mais complexa. Como poderia unir uma sociedade que durante décadas esteve separada?

A resposta estava na Taça Mundial de Râguebi de 1995. O presidente viu aí a oportunidade ideal para conseguir pôr em prática as suas jogadas enquanto governante, com o objetivo de lutar por uma democracia que pusesse de parte qualquer tipo de exclusão. Assim, Mandela usou o evento de râguebi – que era considerado como uma religião para os brancos – para juntar as duas raças por um mesmo amor: o desporto. Um acontecimento que serve de pano de fundo ao livro de John Carlin, Invictus – O Triunfo de Mandela, que por sua vez deu origem a um premiado filme realizado por Clint Eastwood.

 

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Um legado para a humanidade

Nelson Mandela foi um dos grandes líderes do nosso tempo, mas, apesar do enorme legado que deixou à humanidade, a sua história é composta também pelas pessoas que o acompanharam nas suas lutas. Em Nelson Mandela – Arquivo Íntimo, viajamos pela complexidade do líder, para percebemos o que o torna tão humano. Mandela é também dono de uma fragilidade, como qualquer outro homem, mas, segundo o prefácio escrito por Barack Obama, “são precisamente essas imperfeições que deverão inspirar todos e cada um de nós. (…) Todos nós travamos batalhas grandes e pequenas, pessoais e políticas – para ultrapassar o medo e as dúvidas (…). Uma viagem narrada por si que diminui a distância entre o leitor e o seu ser.”

Em junho de 1999, aos 81 anos, Mandela terminou o seu mandato presidencial e, a partir daí, à semelhança do que sempre fez, focou-se em causas sociais e na defesa dos direitos humanos. Além de uma vida cheia de lutas, ganhou prémios de grande importância como o da Ordem de St. John, atribuído pela rainha Isabel II, a Medalha da Liberdade, das mãos de George W. Bush, ou o Prémio Nobel da Paz, em 1993.

Em junho de 2004 disse adeus à vida política – à exceção do seu movimento na luta contra a SIDA. De modo a mostrar gratidão pelas suas conquistas, a ONU instituiu, em 2009, o dia 18 de julho como o Dia Internacional de Nelson Mandela.

Uma infeção pulmonar acabou por retirar-lhe a vida aos 95 anos. Estávamos a 5 de dezembro de 2013. Nelson Mandela deixou um mundo com mais esperança, igualdade e com o sonho de que um dia “todas as pessoas levantar-se-ão e compreenderão que foram feitas para viverem como irmãos”.


Por: Ana Catarina Pinto

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