Mulherzinhas: 150 anos de irreverência

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Crescer com três irmãs, uma mãe temperamental e um pai manipulador não foi fácil para Louisa May Alcott. Em particular no século XIX. Apesar de tudo, foi essa a infância que a inspirou a escrever uma obra de arte que este ano celebra século e meio de existência. Caso ainda não a conheças, esta é a história por detrás de Mulherzinhas.

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Sempre que tem oportunidade pega nos livros do pai. Brinca com eles, empilha-os para formar torres e, quando tem um lápis ou uma caneta à mão, escrevinha as páginas em branco. Gosta de ler e escrever, sim, mas os melhores momentos são aqueles em que o pai a deixa correr livremente pela casa. Sem a castigar por ser demasiado inquieta. “Sempre achei que devo ter sido um veado ou um cavalo numa vida passada, porque correr é uma alegria. Nenhum rapaz pode ser meu amigo até eu o derrotar numa corrida, e nenhuma rapariga se se recusar subir às árvores ou saltar vedações.”

Esta é Louisa. Louisa May Alcott. A segunda mais velha de quatro irmãs. Maria-rapaz rebelde, independente e temperamental. Sai à mãe. É bem diferente das suas irmãs. Anna, a mais velha, é a protegida do papá e a perfeição em pessoa. Elizabeth é introvertida e pacífica. E Abigail, a mais nova, é ligada às artes. Além de ser a mais mimada, claro.

Louisa sente inveja da atenção que as irmãs recebem mas nunca o demonstra. Sentimentos como esse não são permitidos. Guarda-os para quando – anos mais tarde – se estrear a escrever livros recheados de melodrama e atos passionais.

As quatro irmãs têm, ainda assim, algo em comum. Não crescem de forma fácil. Cada uma delas sofre a sua dose nas mãos do pai, um homem austero, dedicado ao ensino, mas irresponsável e manipulador, que gosta de fazer experiências educacionais com as filhas e escrever sobre elas. Com Louisa – a que mais o desafia – é particularmente agressivo.

Nunca falta ao respeito ao pai nem se revolta contra ele. Nunca o fará. Mas, nos momentos em que escreve, Louisa não esconde as suas opiniões e sentimentos. Não admira que, daí a alguns anos, deixe o pai completamente de fora da sua obra de arte.

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A HISTÓRIA DA “FAMÍLIA PATÉTICA”

Louisa tem agora 35 anos. Despede-se de um emprego estável enquanto editora de uma revista para crianças e regressa a casa dos pais para se refugiar a escrever. Escrever a sério. Mas sente-se desanimada a maior parte dos dias.

Não quer fazer aquilo que o seu editor, Thomas Niles, lhe propôs há meses. “Ele pediu-me para escrever um livro para raparigas. Disse-lhe que ia tentar”, desabafa no seu diário. Até agora, não tentou. Limita-se a procrastinar. Só que Niles é persistente. Continua a perguntar-lhe pelo livro que ela tanto evita e até faz com que o pai a pressione, prometendo-lhe a publicação de um livro dele.

O problema é que escrever aquilo que o editor quer, a história de uma família como a sua – uma “família patética”, como gosta de lhe chamar –, não lhe parece nada fácil. Nem apetecível. Até se deu ao trabalho de pedir a permissão de todos para o projeto, desejando secretamente que lhe dissessem que não.

Mas todos concordaram.

Por fim, dá o braço a torcer. Pensa em si e nas irmãs e cria quatro personagens: Jo March será, tal como ela, a segunda mais velha, a maria-rapaz de feitio difícil que está sempre metida em sarilhos; Meg, a mais velha, a epítome da mulher perfeita; Beth será a mais tímida e conformada; Amy, a mais nova, a artista. Vivem com a mãe em New England. O pai, esse, fica ausente da história. O serviço na Guerra Civil Americana parece uma boa desculpa.

Louisa vai escrevendo, escrevendo, mas sempre com dúvidas. Acha a história desinteressante. “Nunca gostei de raparigas nem conheci muitas além das minhas irmãs. As nossas brincadeiras e experiências estranhas podem até ser interessantes, mas duvido”, confessa ao seu diário.

A verdade é que devagar, devagarinho, dá por si a ganhar ritmo. Senta-se todas as manhãs à secretária e vai acumulando centenas de páginas. Seis semanas depois envia-as para Thomas Niles. Ele lê-as e sugere um título: Mulherzinhas.

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UM FENÓMENO INESPERADO

Da noite para o dia, Mulherzinhas torna-se um sucesso. Estamos em 1868 quando é publicado o primeiro volume. O impacto junto do público jovem feminino é tão grande que de repente há fãs a viajarem para Concord, região do Massachusetts onde a autora vive, na esperança de a verem de perto. Louisa não gosta da atenção e chega a disfarçar-se de empregada doméstica para enganar os que batem à porta à sua procura.

É curioso que, 150 anos após esta primeira reação febril, ainda há quem visite a casa para conhecer o local onde Louisa May Alcott idealizou e escreveu Mulherzinhas. Mas afinal como se explica tal popularidade e, sobretudo, durabilidade?

Desde logo, pelo facto de subverter o ideal de perfeição feminina retratado na literatura até então. É uma história que nos apresenta mulheres reais, que falham, têm defeitos, sonham e atrevem-se a ser diferentes. E, por isso, apela a diferentes classes e gerações de mulheres. Além disso, Louisa foi provocadora ao ponto de deixar a história inacabada. Nenhuma das irmãs March teve um ponto final na sua narrativa, algo que deixou as leitoras ávidas por mais.

É isso que faz um bom livro.

Não é de estranhar que este livro semiautobiográfico tenha inaugurado um novo género literário. Ou que, no que respeita a vendas, tenha feito frente às histórias de aventuras para rapazes. Naturalmente, muitos são os que o apontam como um dos precursores daquilo a que hoje chamamos de movimento feminista. Serão precisas mais provas dos superpoderes de Mulherzinhas?


Por: Carolina Morais
Ilustração: Gonçalo Viana

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