Miguel Torga: Ode a um reino maravilhoso

Miguel Torga, escritor basilar da literatura portuguesa do século XX, deixou-nos há 20 anos, mas o seu rasto na cultura nacional não foi apagado.

Sobretudo, não desesperar. Não cair no ódio, nem na renúncia. Ser homem no meio de carneiros, ter lógica no meio de sofismas, amar o povo no meio da retórica” – assim desabafa Miguel Torga a junho de 1947, num dos seus vários diários escritos ao longo de mais de 50 anos. Estes são um retrato fiel e profundo de um escritor extraordinário, mas também uma crítica ao país que foi muito seu e que nunca deixou de amar.

Torga deixou-nos há 20 anos mas nem por isso caiu no esquecimento. A sua obra marca profundamente a literatura portuguesa do século XX, em vários géneros literários: estreou-se com poesia e excedeu-se na prosa, mas escreveu também ensaios, peças de teatro e os tão conhecidos diários. Narrou o Portugal real, sujo, vivido pelas gentes pobres e trabalhadoras, cortado pela censura e esquecido pelas elites. A sua escrita é simples e popular, e a obra reflete as preocupações e sonhos de um tempo em que sonhar não parecia ser permitido.

Recheada de crítica social, crítica essa que parece transcender o seu tempo e aplicar-se aos dias de hoje, a intemporalidade da obra de Torga é aquilo que lhe possibilita manter-se tão vivo e imune ao oblívio como há 20 anos atrás.

Um eterno regresso a casa

Nasce em 1907 em São Martinho da Anta, Vila Real, e é no contexto transmontano que grande parte da sua obra se encena. Conhecendo desde jovem as dificuldades da vida e o trabalho árduo, é neste meio esquálido e agreste que os personagens de Torga se movem e se debatem contra a força incapacitante da Natureza.

Com tenra idade, deixa a terra natal para viver e trabalhar alguns anos no Brasil, numa fazenda. Mais tarde, volta a Portugal para estudar Medicina na Universidade de Coimbra. É aqui que começa a sua carreira literária, publicando em 1928 o primeiro livro de poesia, género no qual permanecerá ao longo da vida, e também os seus diários, hoje compilados em algumas antologias.

No entanto, nem mesmo a deslocação para a cidade faz diminuir o amor pela região de Trás-os-Montes. Transborda na sua obra o amor pela terra que o viu nascer, por aqueles que a habitam e pela Natureza que os alimenta. Bichos, escrito em 1942 e talvez o seu livro mais conhecido, é uma conjunto de breves contos sobre os animais que povoam as terras da sua infância, que vivem entre os homens e os personificam, aos quais é atribuído o mesmo valor e papel.

Terminado o curso de Medicina, regressa à região transmontana onde exerce otorrinolaringologia, partilhando a literatura com a prática médica e estabelecendo uma forte relação com a população rural, com a qual partilha os seus sofrimentos e sacrifícios diários, relação essa que transparece nas histórias dos homens e mulheres narrados nos Contos da Montanha e Novos Contos da Montanha. Alguns anos mais tarde publica a obra Vindima, tributo à região do Douro e àqueles que a povoam e cultivam, um testemunho das lutas e injustiças das suas vidas.

Um homem discreto

Dividiu a sua vida entre a região de Trás-os-Montes, que sempre lhe foi querida, Leiria e Coimbra, onde se viria a estabelecer mais tarde e onde ficaria até à morte, em janeiro de 1995. Discreto, manteve-se afastado da esfera pública e dos círculos intelectuais da sua época, rejeitando associações a quaisquer movimentos literários ou políticos que caracterizaram os seus tempos. O seu compromisso era, acima de tudo, para com o seu país, “reino maravilhoso”, calcorreado e vivido no livro Portugal, mas também para com a verdade e a justiça que deixaram uma marca indelével na sua obra. Em 1993, a dois anos da sua morte, Torga escreve: “De alguma coisa me hão de valer as cicatrizes de defensor incansável do amor, da verdade e da liberdade, a tríade bendita que justifica a passagem de qualquer homem por este mundo”.


Por: Inês Melo

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