Miguel Araújo: “A poesia da minha geração está na música popular”

Não faz planos nem se senta à mesa para escrever. Talvez por isso algumas das músicas de Miguel Araújo demorem anos a serem escritas. Já o livro Penas de Pato demorou “a vida toda”, como revela em conversa com a Estante.

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Penas de Pato

“Gosto da palavra ‘pena’ porque é uma palavra ambígua. Quando uma pessoa quer falar em leveza diz ‘leve que nem uma pena’. Ao mesmo tempo uma pena é uma agrura que uma pessoa carrega na vida. Uma coisa simultaneamente muito pesada e leve…”
Quem é o Mendes?

Sou eu. É a minha alcunha desde criança.

Porquê?

O Luiz Megre Bessa, um pseudo-tio meu – não é meu tio, mas é como se fosse –, muito amigo dos meus tios, baterista da banda deles e também toca às vezes com Os Azeitonas e comigo, como percussionista, pôs-me esse nome quando eu era pequenino. Por nada. Já lhe perguntei e ele diz que não teve grande razão. Diz que eu tinha cara de Mendes.

Não tenho Mendes no nome, ninguém na minha família se chama Mendes, mas é uma alcunha que tenho no Porto e que todos os meus amigos me chamam.

Ainda hoje usa esse nome?

Eu não, os meus amigos é que usam.

Mas tem o blogue com esse nome.

Tenho O Blog do Mendes com o João Só. E temos um EP que gravámos em 2010 chamado Mendes e João Só. Ainda a semana passada demos um concerto. É a minha alcunha, só isso.

Numa entrevista passada disse que o seu livro preferido é o Livro do Desassossego, em parte porque “é um livro que nunca acaba, nem propriamente começa”. Inspirou-se na estrutura deste livro para escrever Penas de Pato?

Não necessariamente. Aliás, quem fez a estrutura do livro foi o Tito Couto. Ele é que organizou a cadência e a sequência das histórias que fui escrevendo. O que mais formatou o tamanho que as crónicas têm foi a revista Visão, para onde escrevi grande parte destas crónicas. É por isso que estes textos têm praticamente todos o mesmo tamanho. Mas não me inspirei na cadência do Livro do Desassossego, isso não.

Como foram selecionados os textos que estão no livro?

Eu e a Clara Capitão da editora selecionámos aqueles que achámos mais pertinentes. Alguns ficaram de fora porque eram muito objetivos, sobre coisas que se tinham passado numa determinada semana. Também há alguns textos inéditos que não cabiam nas crónicas da Visão mas que já figuram neste compêndio.

Então este livro não foi planeado? Aconteceu por acaso?

Na minha vida é tudo muito assim. Mesmo os discos são um bocado fortuitos. Curiosamente, a grande coincidência deste livro é que o Tito Couto, quem organizou o livro e escreveu o prefácio, e a Clara Capitão, quem edita, já há uns quatro ou cinco anos, sem estarem coordenados um com o outro, procuraram-me para escrever um romance, coisa que acabei por não fazer. Mas é engraçado estarmos agora os três a trabalhar juntos neste livro. Não é um romance, mas é uma coleção de coisas que fui escrevendo aqui e ali ao longo dos anos, algumas especificamente para o livro, outras não.

Mas tem projetos para o tal romance?

Não. Eu não tenho projetos para nada. As pequenas coisas de ficção que o livro tem são histórias que resolvi em três páginas. Se alguma história me pedir 150 páginas, então talvez isso seja um romance, mas não planeio as coisas dessa maneira. Já com as canções é a mesma coisa: algumas exigem-me cinco minutos, outras dois anos. A ideia de escrever é que me solicita, não sou eu que me sento para escrever qualquer coisa.


Não tenho projetos para nada. Já com as canções é a mesma coisa: algumas exigem-me cinco minutos, outras dois anos.


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Porquê o título Penas de Pato?

Tem a ver com o blogue, o início da nossa conversa. Esse blogue foi onde comecei a pôr algumas das minhas canções que não faziam parte do reportório d’Os Azeitonas. A minha gaveta era esse blogue onde metia maquetes e rascunhos espontâneos das músicas. Ainda não havia Spotify, então inseri lá os ficheiros de som. Mas também pus lá uns textozitos e alguns até estão no livro – esses, então, já têm 12 anos ou mais.

Classificava os textos com as etiquetas que os blogues têm: quando era música punha a etiqueta “Música”; quando eram esses textos punha “Penas de Pato”. Achei graça honrar este início e chamar a mesma coisa ao livro.

Gosto da palavra “pena” porque é uma palavra ambígua. Quando uma pessoa quer falar em leveza diz “leve que nem uma pena”. Ao mesmo tempo uma pena é uma agrura que uma pessoa carrega na vida. Uma coisa simultaneamente muito pesada e leve… O livro também é isso: uma coisa leve que se lê rápido. Pode ler-se um texto hoje, outro amanhã e as coisas não estão necessariamente encadeadas, mas ao mesmo tempo tem alguma da minha profundidade, por isso acho que o título se adequa.

Sente-se um músico escritor ou um escritor músico, uma vez que parte do seu trabalho na música também é escrever?

Quando tenho de escrever a profissão nas fichas dos hotéis continuo a pôr músico, porque é aquilo com que me sinto mais confortável. Mas muitas vezes vejo o meu nome associado a coisas que não diria. Como “o cantor Miguel Araújo” – não me sinto cantor, apesar de cantar. Ou “o compositor Miguel Araújo” – também não me sinto compositor. Acho que isso é o Mozart e o Beethoven.

Então porquê músico?

Porque me habituei. Desde pequenino que toco. Associo-me mais a isso do que outra coisa qualquer. Se vir escrito “o escritor Miguel Araújo” – e já vi recentemente por causa do livro – também vou estranhar. Mas não sou nenhuma dessas coisas. E ao mesmo tempo sou todas elas.

O que achou de Bob Dylan ter ganho o Nobel da Literatura há dois anos?

Achei uma ótima ideia! A poesia da minha geração – e até um bocadinho antes – está nos cantores, na música popular. A morada por excelência da poesia na segunda metade do século XX, pelo menos, são as canções populares. Por isso acho natural. Não compreendo a surpresa que gerou. Não vejo escândalo nenhum, a literatura é o uso das palavras nos seus mais diversos contextos e formas. Agora, se fosse eu a escolher, se calhar escolhia o Paul Simon. Mas quem sou eu?

No livro fala sobre as suas raízes e as da sua família, mas diz que sente pelo passado o oposto de saudade. Quer dizer que não tem arrependimentos?

Tudo o que aconteceu foi por bem, mesmo as coisas menos boas. Não tenho saudades porque todas as fases da minha vida ficaram bem resolvidas. Se calhar, se não tivesse editado um CD ou escrito este livro, era capaz de me arrepender mais tarde, mas como fiz todas essas coisas que a vida me pediu olho para trás com boas recordações de tudo mas não propriamente com saudade. Saudade é um bocadinho querer voltar ao passado. E não queria nada voltar a nenhum tempo da minha vida passada.

Quais são as memórias de infância que guarda com mais carinho?

Todas. A infância é aquele período luminoso da vida e a minha foi ótima, passada em casa da minha avó com um jardim grande e uma data de primos da minha idade. Foi também passada na praia de Ofir, um sítio que adoro e onde passava muitas férias. O Gerês, o Algarve… Uma pincelada geral de coisas das quais não destaco particularmente nenhuma.

A única coisa que ficou foi a aparição da música na minha vida quando tinha 11 anos, através dos meus tios. O facto de eles voltarem aos ensaios e a pegar nos instrumentos acabou por determinar aquilo que é hoje a minha profissão.


Não sou cantor, compositor ou escritor. E ao mesmo tempo sou todas essas coisas.


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Tornou-se músico por acaso?

Sim, foi uma coincidência. Se os meus tios não tivessem voltado a comprar instrumentos para voltar a fazer a banda que tinham tido 20 anos antes, acho que não teria acontecido nada disto na minha vida. Se não tivesse feito na brincadeira uma banda com os meus amigos na faculdade, Os Azeitonas, e não tivéssemos gravado uma maquete, essa maquete não teria chegado às mãos do Rui Veloso. Se não tivesse chegado, ele não nos teria convidado a gravar um disco e quase de certeza que não teria encarreirado por aqui.

O que estaria a fazer, então?

Não faço a mínima ideia. Tirei um curso de Gestão na Católica, por isso, teria uma vida parecida com a dos meus colegas de curso. Um trabalha ali no Marquês [de Pombal, em Lisboa], na EDP.

Podia nem estar no Porto…

Podia nem estar no Porto. Mas não sei, seria provavelmente qualquer coisa ligada com as saídas profissionais do meu curso.

No livro escreve que os portugueses são muito apegados à tradição e até fala da necessidade de haver uma “transdição”. Temos uma relação complicada com a mudança?

Acho que temos, principalmente na música. Somos das poucas culturas musicais que são apegadas à forma de expressão da sua música tradicional, neste caso o fado e o pop rock. Quase todas as músicas das outras culturas permitem uma versão mais moderna.

Los Hermanos, que é uma banda brasileira que adoro, na sua essência fazem samba, só que com guitarras elétricas e baterias. Em Portugal, essas coisas tendem a acontecer muito menos e há uma espécie de brigada permanente a zelar para que isso não aconteça. E não sei porquê. Talvez tenha a ver com o facto de sermos um país com muitos anos de história, com um passado muito pesado.

Mas por outro lado também refere que, tal como Fernando Pessoa dizia, ser português é ser provinciano. Quer isto dizer que nos deslumbramos com as mudanças?

Sim. Desde que nasci até agora basta olhar para os nomes dos cafés para ver o quanto eles espalham o sonho idílico de modernidade. Só os três centros comerciais onde cresci chamam-se Dallas, Brasília e Itália. As empresas têm sempre nomes em inglês. Lisboa é mais afrancesada e o Porto mais inglesado, mas há sempre um certo desconforto com as coisas que nos são muito próximas. Porque é que as empresas escolhem nomes ingleses? Não é de certeza para profissionalizar o negócio, muitas vezes é para parecer mais chique.

Por falar em empresas, já escreveu a música sobre a empresa?

Ah, não, não consegui. Falo disso no livro. Está encaixotado para ver se algum dia sai, mas está difícil. Acontece-me sempre isso com as músicas. Não me sento para escrever uma música e acabo passado um bocado. Faço camadas: um esboço e depois, passado um ano, vou lá ver e acrescento.


Em Portugal há uma espécie de brigada permanente a zelar para que não haja uma modernização da música tradicional.


 

Podemos dizer que este livro levou quantos anos a escrever, uma vez que inclui textos muito antigos?

A vida toda! Vejo esse exercício criativo, tanto nas músicas como no livro, como um fluxo. Não me sento para escrever: há uma ideia que me ocorre, encosto o carro, escrevo rapidamente no telemóvel e sigo para a minha vida. Quando uma melodia me ocorre, assobio para o telemóvel e guardo. Depois essa melodia não me diz nada, mas passado um ano diz-me qualquer coisa, então começam a aparecer-me as palavras e escrevo-as. É uma coisa permanente da minha vida. Parte do meu cérebro está sempre dedicada a essas coisas.

O livro é uma coleção de textos com reflexões do Miguel. Questionar nem sempre é criticar?

Para mim questionar nunca é criticar nem moralizar. Questiono sempre tudo, mas não sou muito afirmativo em termos de ter uma opinião sobre as coisas ou achar que tem de ser assim ou assado. Tenho apenas de questionar tudo, porque acho que moralizar é uma coisa horrível – e cá estou eu a moralizar [risos].

Que questões lhe ocupam a mente?

Sei lá, coisas da minha geração. O facto de ser uma geração muito apegada ao passado, até nos nomes dos negócios que abrem. A Petisqueira do Bulhão é exemplo de um nome que remete para o Estado Novo. Estas coisas fascinam-me, pergunto-me porquê. Antes o ponto de fuga era sempre o futuro, agora é o passado. Parece que se bateu numa parede e começou-se a andar para trás. Talvez já tenha acontecido isso noutras alturas da História que desconheço.

Penso muito no facto de tudo ser transitório: este país um dia há de deixar de existir e o mar que aqui está há de continuar como era antes de virmos para cá. Há de se falar dos portugueses como se fala dos fenícios, dos australopitecos e dos checoslovacos. Penso na nossa responsabilidade em deixar as coisas, pelo menos, como as encontrámos: não sujar, não estragar.

Podemos reconhecer as mudanças do passado sem sermos saudosistas?

Claro que sim. Qual é a hipótese de as coisas se manterem inalteradas e conservadas dentro de uma lata? Nenhuma! Nunca aconteceu nem vai acontecer. O novo dá sempre lugar ao velho, é a essência da vida.

Há uma palavra japonesa para isso que não tem tradução. Tal como temos a palavra “saudade”, eles têm uma que é mono-no-aware, uma espécie de melancolia ao ver que tudo passa. É uma coisa com que me identifico muito. É pena não haver na nossa língua.

No livro diz que não sabe – e que talvez ninguém saiba – de onde vêm as melodias e as boas canções. E os bons livros, vêm de onde?

Do mesmo sítio. Daquele que não sabemos qual é, mas que o Leonard Cohen chama “tower of song”, o Carlos Tê “fonte das palavras” e o Fernando Pessoa “emissário de um rei desconhecido”. Um sítio que ninguém sabe qual é, senão já estava tudo esgotado.

Discute-se muito se a música vem de dentro ou de fora de uma pessoa. Há quem seja mais esotérico e diga que vem de fora e se incorpora, há quem diga que vem de dentro. Eu acho que vem dos dois sítios simultaneamente. É como o ar que inspiramos e expiramos.


Este país um dia há de deixar de existir. Há de se falar dos portugueses como se fala dos fenícios, dos australopitecos e dos checoslovacos.


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Songwriters on Songwriting

O último livro que Miguel Araújo leu “fala sobre a maneira de escrever de autores que admiro, como o Paul Simon e o Bob Dylan”.
O que é para si um bom livro?

Não sei. Lá está, hoje uma pessoa chama “livro”, amanhã já é outra coisa qualquer. É um chip que está dentro da nossa cabeça. As coisas que gosto de escrever não denunciam o gesto da escrita, não é uma escrita vaidosa – que às vezes vejo e não gosto muito.

Gosto de uma escrita transparente, fluída, que seja o reflexo de uma ideia original. É isso que gosto, seja o meu filho com 6 anos a escrever ou o Fernando Pessoa.

Qual foi o último livro que leu?

Foi um chamado Songwriters On Songwritting de um jornalista americano [Paul Zollo] que andou cinco anos a entrevistar músicos e autores de canções americanas sobre de onde vêm as músicas, como é o método de trabalho e o processo criativo… É algo que me fascina. Um calhamaço desta altura [faz um gesto demonstrativo com os dedos] e que ainda estou a ler.

Encontrou respostas ou mais perguntas?

São sempre mais perguntas. O Leonard Cohen fala disso. Diz que se soubesse onde era a fonte de inspiração ia lá mais vezes. Fala sobre a maneira de escrever de autores que admiro, como o Paul Simon e o Bob Dylan. Até para eles este processo é uma grande incógnita.

Penas de Pato termina com uma nota positiva de que “seja o que for será bom”. É assim que olha para o futuro? Com otimismo?

É. Cada pessoa olha para as coisas como quer – ou tem – de olhar. Uma vez li um artigo engraçado cujo autor dizia que hoje vive-se melhor do que em qualquer outro momento do passado, a todos os níveis. Não deixam de haver coisas horríveis no mundo, mas numa data de aspetos vive-se melhor agora do que no passado. Por exemplo, prefiro ir tirar um dente agora do que na Idade Média. De longe.

Não queria ter vivido em nenhum momento do passado. Há pessoas que adoravam ter vivido nos anos 70 ou na altura dos Descobrimentos. Eu não. Acho que somos uns felizardos por vivermos na extremidade mais futura que o tempo permite: o agora. Acho que as coisas vão sempre melhorando e há um lado regenerativo em tudo que faz com que a vida vá sendo cada vez melhor.

A vida dos seus filhos vai ser melhor do que a sua?

Espero que sim. Depende deles, de mim, da minha mulher e do mundo inteiro.


Por: Tatiana Trilho
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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