Mia Couto: “Tenho de deixar que as vozes tomem posse de mim”

É de noite, quando a casa dorme, que os personagens ganham vida nas palavras escritas de Mia Couto. Tomam-no de assalto e conduzem a história. Da última vez fizeram-no mergulhar no passado do seu país, Moçambique, para desconstruir os mitos tecidos em volta de um dos heróis moçambicanos, Gungunhana. Mulheres de Cinza é, pois, uma viagem pelas memórias de uma nação ainda demasiado jovem guiada por Imani, ela própria muito mais do que narradora, antes um símbolo da condição da mulher moçambicana. Para terminar, Mia refugiou-se dois meses num castelo na Umbria italiana, onde o caminho se fazia obrigatoriamente a passo d’uomo, metrónomo de um tempo que se queria tranquilo como o próprio autor.

Entrevista por Fátima de Sousa
Ilustração baseada na fotografia de Pedro Soares

O que anda a ler

É o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, o “livro infinito” que acompanha Mia Couto. Partilha a mesa de cabeceira com vinte outros livros, que vai lendo e esquecendo. Porque, assume, é um leitor desordenado.

 O que anda a ouvir

“A música convoca-me tanto que, às vezes, não a posso ouvir.” Há momentos, diz Mia Couto, em que está a escrever e tem de ter música e outros em que não a pode ter porque o desvia, porque o distrai de tal maneira que… Não reclama preferência por um género musical mas por “qualquer coisa de melancólico”, uma certa tristeza que a música tem de ter. “Talvez seja o meu lado mais português”, concede, para logo esclarecer: “Mas é uma tristeza que não me paralisa, que não me derruba. Há coisas que só percebemos por via dessa janela da tristeza.”

 

Consegue descrever a sensação de colocar o último ponto final num livro e entregá-lo ao mundo?

Há coisas contraditórias que sinto. Por um lado, algum alívio por chegar ao fim. Mas, na maior parte dos casos, um vazio enorme. Aquela gente viveu de maneira obsessiva dentro de mim e, de repente, desvanece-se. Tenho mesmo de fazer uma morte simbólica porque senao os personagens nunca mais saem de dentro de mim e fico sempre a contar a mesma história. Neste caso, nao. Como é uma trilogia, há personagens que vao prevalecer.

Obsessivas como? Escreve de maneira obsessiva?

Só sei escrever dessa maneira. Acordo com os personagens, almoço com eles, durmo com eles, tomam conta de mim, não despegam.

E o início, como costuma ser?

É muito caótico. Como se fosse um caldeirão. Há coisas que emergem, coisas que deixo que despontem. Não conduzo a história através de uma lógica, de uma arquitetura. Os personagens é que têm poder de sedução e eu apaixono-me. Vou com eles, são eles que me revelam a história.

É um processo solitário ou partilhado?

Há momentos de grande solidão, em que só posso estar eu com os meus fantasmas. É um tempo em que sou dono exclusivo, proprietário. Mas depois há outro tempo, que é um tempo mais criativo, em que estou junto com os outros, em que tenho de ler muito, de escutar muita música. É um processo mais aprazível, a parte mais gostosa.

Há muito de improviso ou mais rotina nessa criação?

A primeira parte, mais oficinal, tem rotina. Tenho insónias e percebi que tinha de ser amigo da insónia, que não valia a pena contrariar porque preciso que a casa durma para poder trabalhar. Mas depois há outro momento que não tem disciplina, que é mais caótico, em que tenho de deixar que as vozes tomem posse de mim. Abandono-me. Já não estou com as rédeas do cavalo na mão…

Desses personagens que mata simbolicamente há algum que teime em voltar?

É uma morte mentirosa, porque muitos desses personagens são aqueles que, dentro de mim, podiam ser eu. Vêm disfarçados. No fundo, os que são elementos autobiográficos teimam sempre em ressurgir. É um processo quase divino. Sinto, ilusoriamente, que estou a dar vida a alguém e que estou a tirar vida. É uma grande ilusão.

O que há então de si nos seus personagens?

São aqueles elementos menos definidos, os que andam a procura de qualquer coisa, de uma identidade que seja única. No fundo andamos todos, só quem está morto já resolveu a sua identidade. Uma das buscas que faço na literatura é procurar aquilo que são as identidades diversas que temos e, sobretudo, aquilo que é a construçao da memória, as memórias que coabitam dentro de nós. Há uma sugestao de que é preciso arrumar isso e de que precisamos de ter só uma memória, de que temos de ter só uma versão da nossa própria vida.

Essa diversidade das memórias remete para a história que dá corpo a esta trilogia. Como lhe aconteceu esta incursão histórica?

Sempre quis falar sobre esta ideia de que o passado é uma invenção e, mais do que uma invençao, é um processo de castração, digamos assim, daquilo que são as possibilidades múltiplas de leitura do tempo que passou. E também esta ideia de que o tempo que passou não está arrumado como uma coisa definitiva, nao há uma porta que se fechou. Esse tempo nunca passou, nós é que imaginamos portas para nos defendermos. O grande tema do livro é esse, essa relação com o próprio tempo corporizado nessa coisa dos heróis que foram congelados. Há uma cristalização da sua vida. Quando comecei a trabalhar nesta história, pensei que tanto Mouzinho como Gungunhana estavam prisioneiros dessa construçao mítica que fizeram deles. Quando eles foram tantas outras coisas…


“Acordo com os personagens, almoço com eles, durmo com eles, tomam conta de mim, não despegam”


Moçambique ainda vive muito desse passado mistificado?

O problema de Moçambique é que o passado é tão recente que está ali a porta. É preciso construir heróis que sao gente contemporânea, gente que os avós e os bisavós conheceram. Nao é tao fácil como em Portugal, em que os processos já estão cimentados no tempo. Ninguém vai discutir a história de Egas Moniz ou de D. Fuas Roupinho. Em Moçambique é muito mais complicado, é um processo que está a acontecer em flagrante, é mais difícil mistificar.

A propósito de diversidade, este é um livro diferente. Desde logo pelo conceito de trilogia. Quando soube que não se ia ficar por um volume?

Foi quando comecei a recolher a história, quando fui para Inhambane e comecei a falar com as pessoas, a ouvir as histórias que contavam. Apercebi-me que havia ali um manancial de possibilidades, que seria empobrecedor não deixar entrar todas aquelas vozes. Depois, na leitura dos documentos da herança histórica portuguesa também percebi que havia ali muito mais do que imaginava. Percebi logo que tinha de fazer um livro que era muito maior do que pensava. Não sei contar esta história de outra maneira.

Volta atrás para ler o que já escreveu à medida que vai avançando na história?

Sou mais um reescritor do que um escritor. Num conto é mais fácil. E um poema, quando sai, é de uma forma quase definitiva, porque foi trabalhado ao nível inconsciente. Mas, na prosa ficcional, é muito difícil que saia bem. E acho que cada vez é mais complicado. Admiravam-me as confissões de alguns colegas, que já estao há mais tempo neste exercício, que diziam que um dia em que escrevessem cinco páginas era um grande dia – e são escritores a tempo inteiro, coisa que eu não sou. Eu achava extraordinário, porque escrevo mais. Mas, a medida que vou ganhando idade, que vou tendo mais experiencia neste trabalho, cada vez escrevo menos páginas por dia. Há uma contenção. A grande virtude de se fazer uma coisa há mais tempo pode ser resumida nessa capacidade de contenção. No princípio é meio adolescente, a gente quer dizer tudo e quer que tudo seja bonito. Depois, percebemos que o exercício não é esse.

Essa contenção extravasa a escrita e estende-se à sua intervenção cívica, por exemplo?

Ah, sim, também sou mais contido. Nao é uma questão de administrar riscos, porque continuo militante de causas. Mas já fui militante de um partido e percebi que o discurso partidário, por muito bem-intencionado que seja, em geral sofre de simplificação; o mundo tem de ser simples para a gente pensar que pode mexer nele e, num toque mágico, mudá-lo. Mas as coisas são sempre mais complexas, levam tempo, há sempre um lado oculto que demora a perceber. Isso nao me traz angústia. Vivo feliz percebendo que há coisas que não percebo.

Voltando a Mulheres de Cinza. É diferente também na linguagem, já não há aquela invenção de palavras…

A certa altura constroem-se clichés a volta de um autor. Aquilo que eu fazia na recriação vocabular tinha uma intenção poética que me parecia que estava a ser mal interpretada. Por erro meu. Havia, provavelmente – e volto a palavra adolescente –, uma forma excessiva, nao contida, de trabalhar sobre a própria linguagem. Agora, apetece-me trabalhar mais sobre a história, a linguagem está ao serviço da história. E também não queria – como a coisa correu bem desse ponto de vista do inventor de palavras – ficar preso nesse estereótipo. Apetece-me fazer outras coisas, embora possa voltar a recriação. Tenho, aliás, pequenos textos, mas contenho-me mais. A marca principal que quero ter nos meus livros é uma relação poética com o mundo. Não consigo escrever doutra maneira, sem essa aproximação pela poesia.

As palavras recriadas permitiam isso mesmo…

Sim, mas sempre como consequencia da poesia. Fazia-o porque era poeta. Brincriar, para mim, não é só uma palavra engraçada, é uma coisa que faz sentido no nosso olhar sobre o mundo. Quem brinca cria, quem cria brinca. É como se a língua já oferecesse essas potencialidades.

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Alguém que gosta de brincriar com a língua como olha para a tentativa de uniformização através do acordo ortográfico?

Não dou importância nenhuma, nao faço guerra. Nao mexe com a língua portuguesa. Mexe apenas com o que está a superfície, que é a grafia. As vezes, nem sei se estou a escrever de acordo com o acordo ou a velha maneira. Não me atrapalha nada.

Assume-se como um poeta mesmo quando escreve prosa?

A poesia não é um género literário, está ligada a um certo tipo de pensamento que foi desvalorizado, que é o pensamento metafórico. Mesmo como cientista, se não fossem essas contribuições de uma certa forma de pensar que não passa pelo rigor da prova que a Ciência exige, nao conseguiria nunca perceber o que há para perceber. Para mim, que sou ecologista, uma árvore nao é só uma entidade botânica: nunca entenderia uma árvore se não percebesse que é muito mais do que isso, é uma maneira de o tempo se revelar, é residencia de espíritos, é uma igreja… A poesia começa aqui.


“A marca principal que quero ter nos meus livros é uma relação poética com o mundo”


A poesia é a essência?

A poesia é mais enigmática, vulcânica, surge de mim mesmo, sou tomado por esta, sem querer já está lá, como se me estivesse a fazer a mim e nao fosse eu que quisesse fazer poesia. Quando quero avançar para um romance, um livro novo de ficçao, aparece-me poesia. E, de repente, tenho um novo livro de poesia sem querer… É uma espécie de iluminação, uma luz que me está a conduzir. Digo sempre que estou escritor, mas sou poeta. Sou filho de poeta, sou filho da poesia. É quase genético.

Há poetas que o acompanham sempre?

Sem dúvida. Os meus mestres são da poesia. Fernando Pessoa. Drummond de Andrade. João Cabral de Melo Neto. José Craveirinha. O meu pai [Fernando Couto]. Luandino Vieira. João Guimarães Rosa. E Sophia de Mello Breyner Andresen, que foi uma descoberta fantástica. Sou de um país que tem uma sensação de espaço e de luz… e encontrei tudo isso na Sophia.

Está escritor, é poeta. E ecologista e biólogo, está ou é?

Estou, mas tenho uma sensação de dívida. Amo muito a capacidade que a Biologia me deu de olhar o mundo com outra familiaridade. Uma das coisas que me faz sentir estranho num país é não reconhecer as árvores… a Biologia deu-me esse parentesco, que foi uma pena termos perdido com a construção de um racionalismo em que o homem está separado da natureza, em que é tido como o grande mestre e a natureza um recurso. Até já se diz recursos humanos como se as pessoas fossem recursos… Temos de repensar o nosso pensamento, o modo como olhamos o mundo. Apesar de ter havido grandes revoluções – com Galileu, que nos mostrou que a Terra nao era o centro do universo, com Freud, que disse que a consciência nao é o centro, com Darwin, quando diz que a espécie humana é apenas uma entre tantas –, temos este pensamento milenar que nos coloca na posição de sermos representantes de Deus. Temos medo de perder o controlo das coisas. A mim fez-me bem ser parte de África. Os africanos sao felizes quando estão em harmonia com os outros, com a natureza, com os mortos.

É um homem tranquilo?

Sou, até devia ser menos tranquilo. Tenho as minhas inquietações, mas uma inquietação nao é forçosamente uma intranquilidade. Vivo em conflito porque, por um lado, tenho a minha alma de cientista, a minha formação racionalista que me diz que só tenho uma vida, tenho essa angústia de ser feliz agora, de viver intensamente. Mas África está-me sempre a sugerir que não, que nao vou terminar, como ninguém termina. Vou dizer-lhe: nunca pensei que isso estivesse tao profundamente dentro de mim. Quando o meu pai e a minha mae morreram fui confrontado com esta possibilidade de terminar mas eles moram dentro de mim.

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Mulheres de Cinza porque…

Porque, a certo momento da vida de Imani, a personagem principal, a mãe lhe chama “cinza” por considerar que, sendo cinza, a filha não sofrerá tanto. É, diz o autor, um nome que exprime a condição de quase sombra em que as mulheres vivem. Não é a condição daquela mulher apenas, mas de todas as outras que ali vivem, que vivem como se estivessem num plano secundário, oculto, como se não tivessem substância.

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