Meridiano 28: Nazis, Aliados e os Açores de Joel Neto

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No seu novo romance, Joel Neto leva-nos numa viagem pelo tempo e espaço até às (suas) ilhas açorianas, em plena Segunda Guerra Mundial. Vais embarcar?

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UM LIVRO PARA…
Apreciadores de romances sobre a Segunda Guerra Mundial, e em particular sobre o papel desempenhado por Portugal.

PRIMEIRO PARÁGRAFO
“Podia ser Morgan Freeman, mas não era. Não tinha talvez o porte de Morgan Freeman, aquele garbo de aristocrata tuaregue, embora exibisse o mesmo tipo de olhar triste a pretexto do qual os mais expeditos haviam chegado a reclamar para os igbos do Delta do Níger a condição de tribo perdida de Israel. Sobretudo, movia-se como Morgan Freeman: numa lentidão ponderada, como se cada gesto denunciasse o sofrimento histórico de um povo e a sabedoria que este lhe havia conferido.”

SE GOSTASTE DESTE LIVRO,
É PROVÁVEL QUE TAMBÉM GOSTES DE…
Encontro em Lisboa 
(Tom Gabbay)
Uma Noite em Lisboa 
(Erich Maria Remarque)
A Senhora dos Açores 
(Romana Petri)

O LIVRO


Meridiano 28 é um daqueles livros que nos faz questionar o nosso passado. Não o passado que conhecemos, aquele que vimos a colecionar desde o momento em que nascemos, mas o que nos antecede e que, de alguma forma, contribui diretamente para a pessoa que nos tornámos. É por isso um livro que salta constantemente no tempo, mas também na geografia, tendo como protagonista um homem chamado José Filemom Marques.

Este homem é um dia perturbado na sua aparente tranquilidade por um velhote (parecido com Morgan Freeman) que lhe atira: “Acha o quê, que tudo na sua vida foi sorte? O emprego de luxo, esse site que teve o capricho de fundar: é o que diz a si mesmo, que foi sorte? […] Até esta lojeca onde se escondeu. De onde acha que veio? Da sorte também? Do seu génio criativo?” Implícito está que José Filemom Marques deve a sua vida ao falecido tio, Hansi Abke, um homem que nunca apreciou particularmente. Um homem que nunca chegou realmente a conhecer. E, surpresa das surpresas, um antigo caçador de nazis.

Isto porque, durante a Segunda Guerra Mundial, no meridiano 28, o arquipélago dos Açores foi palco de uma paz muito peculiar, entre ingleses e alemães. “Não falo de coexistências pacíficas, Mr. Marques. Nem de pactos de não-agressão. Falo de paz verdadeira. De harmonia. De lugares onde as crianças alemãs usassem suásticas e, apesar disso, as inglesas frequentassem as mesmas escolas que elas. Lembra-se de muitos lugares assim?”, pergunta outro personagem. E acrescenta: “Não havia muitos, não. Mas havia a ilha do Faial, no arquipélago dos Açores. A sua terra, por acaso.” É a tentativa de desvendar este passado desconhecido que serve de premissa para Meridiano 28.


O AUTOR


Joel Neto nasceu na Angra do Heroísmo e trabalhou para vários jornais como repórter, editor e colunista. É o autor de obras como O Citröen que Escrevia Novelas Mexicanas, Arquipélago e A Vida no Campo, sobre a qual conversou com a Estante, em 2016.


O GANCHO


Apesar de filmes como Casablanca e de inúmeros livros e documentários sobre o tema, muitas pessoas continuam a ignorar o oásis que Portugal representou para milhares de estrangeiros durante a Segunda Guerra Mundial. Mais: continuam a ignorar o papel que assumiu como palco para as movimentações de espiões e agentes das várias forças em disputa. Meridiano 28 apresenta-nos esta realidade através da ficção de Joel Neto.


Fotografia: Rui Soares/4SEE

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