Melodias Cruzadas: músicos que também são escritores

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Podiam ser “músicos acidentais”. Conhecidos pelos discos editados e pela energia dos concertos, vários cantores e músicos nacionais são também autores de livros de contos, poesia ou banda desenhada. Alguns tiveram até a carreira literária como primeiro sonho. E não rejeitam a ideia de vir a retomá-lo no futuro.


AMÁLIA LÍRICA
Ó Gente da Minha Terra é hoje inseparável da voz de Mariza mas, o que talvez poucas pessoas saibam, é que o poema é de Amália Rodrigues. Ao longo da vida, a fadista que cantou as palavras de David Mourão-Ferreira e de Ary dos Santos deu largas à sensibilidade, escrevendo os seus próprios poemas. A obra poética de Amália foi reunida no livro Versos, editado em 2005 pela Livros Cotovia.

A música de Sérgio Godinho sempre foi marcada pelas palavras. Os poemas que escolhe, seus ou de outros, e a forma como os interpreta numa mistura entre o cantar e o dizer são a sua imagem de marca. Assim, a sua entrada no mundo da ficção com o lançamento de Vida Dupla, o livro de contos que editou no ano passado, não causa grande espanto. Esta não é, sequer, a primeira aventura do cantor no mundo dos livros, tendo já publicado poesia – O Sangue Por Um Fio – e dois livros infantis, O Primeiro Gomo da Tangerina e O Pequeno Livro dos Medos

Sérgio Godinho está longe de ser um caso isolado. No panorama nacional são vários os músicos que dividem o talento entre os sons e a escrita. Fernando Ribeiro, dos Moonspell, na poesia e no conto, Adolfo Luxúria Canibal, dos Mão Morta, também na poesia, Filipe Melo na banda desenhada ou JP Simões no conto e na escrita teatral são outros exemplos, com quem conversámos para tentar perceber como é vivida a criação entre as duas áreas. 

Seria tentador dizer que a poesia e o conto – pelo ritmo que têm – são géneros populares entre os músicos. Mas a realidade é outra. Tanto em Portugal como a nível internacional, há músicos que se destacam na novela e no romance, como é o caso de Chico Buarque ou Leonard Cohen, e autores infantis à primeira vista improváveis, como Madonna ou Keith Richards. 

NO PRINCÍPIO ERA O VERBO

O que muitos dos fãs que os ouvem desconhecem é que alguns dos performers que veem em palco quiseram, primeiro que tudo, ser escritores. É o caso de JP Simões ou de Adolfo Luxúria Canibal. 

Já Fernando Ribeiro, autor de vários livros de poesia e vocalista dos Moonspell, vê nas palavras companheiras que o ajudam a chegar mais perto do que pretende. “As palavras não desistem e não nos deixam desistir. A minha vida tem sido uma dinâmica de palavras. Falo muito, escrevo muito, e é nesse silêncio que liberto o peso”, afirma. 

O antigo estudante de Filosofia lembra-se bem do primeiro texto “importante” que escreveu. Ainda aluno do secundário, numa aula de Psicologia produziu “uma rima perturbada que inquiria os limites da beleza, do horror, do fim”. “Afinal, não cresci assim tanto”, conclui, com humor, o agora músico de metal que, nos Moonspell e na poesia que publica, mantém os mesmos temas mas não a inocência desse primeiro texto. “Lembro-me de todo o contexto, de tocar o Adágio para Cordas de Barber por baixo. Algo meio dramático, profético, talvez. Consegui uma ótima nota”, revela. 

No caso de Fernando, a poesia é uma opção deliberada. Não só por ser o género em que se expressa melhor como pela falta de “preparação mental para o desenvolvimento de uma narrativa” de que diz sofrer. Fernando Ribeiro vê na poesia uma extensão natural para quem está habituado a escrever canções. O que pode, a seu ver, explicar o facto de serem vários os músicos que se dedicam à poesia. “As boas letras são poesia e os músicos letristas têm sempre a curiosidade de ver como se aguentam as palavras sem a trama musical. Depois, há uma vontade de experimentação que não se enquadra na lógica musical mas na da palavra, que por si só pode ser musical, e os músicos partem com essa vantagem rítmica. Já ouvi discos de poetas muito maus, mas a poesia dos músicos é, na sua maior parte, competente e, nalguns casos, genial”, afirma. 

A ligação entre a música e a poesia também pode ser revelada através da importância dada à palavra falada. Para Adolfo Luxúria Canibal, a leitura em voz alta é o “último teste” por que passa um poema. “Leio em voz alta para ver os ritmos, a sonoridade… Para mim, mais importante do que o sentido, é o som.” 

Se lhe perguntam se a importância que dá à sonoridade de um texto está relacionada com o seu lado de performer, não tem uma resposta imediata. “Quando era adolescente e estava longe de pensar em fazer qualquer coisa na música, não lia as coisas em voz alta, pelo menos não tenho essa memória, mas agora leio em voz alta independentemente de serem para música ou não. Mes-mo quando leio textos de outros. Por vezes o som, a respiração a que a leitura em voz alta obriga, ajudam-me a perceber melhor o que lá está”, explica. Como exemplo dá Três Tristes Tigres, de Cabrera Infante, que leu ainda adolescente. “No texto há a imitação de vários sotaques e, se não lermos em voz alta, não se percebe nada do que se lê. Deve ter começado por aí a necessidade de ler em voz alta os textos de outros, e depois habituei-me e cada vez mais tenho necessidade disso quando escrevo, mesmo quando não escrevo canções”, garante. 


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“A minha vida tem sido uma dinâmica de palavras. Falo muito, escrevo muito e é nesse silêncio que liberto o peso”

Fernando Ribeiro 


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THE ANTIDOTE / O ANTÍDOTO
Fernando Ribeiro e José Luís Peixoto criaram, em 2003, um projeto que casou música e literatura. O vocalista dos Moonspell recordou à Estante os ingredientes que geraram tal antídoto. “Foi um projeto entre amigos, baseado no que nos é comum: as letras, a música, uma época, referências. O Zé Luís realizou-nos um sonho que foi, em vez de termos sempre de citar obras, criar uma em torno da nossa música, estética e poética. Isso, para nós, foi perfeito. Lembro-me de as nossas editoras estarem a tentar ‘defender’ os nossos interesses em relação à distribuição do disco/ livro e nós a dizermos que, se fosse preciso, enchíamos mochilas de livros e íamos de porta em porta. Não foi o caso, esgotámos tudo em dias e ficou uma amizade e uma admiração à prova de bala que já resultou em inúmeras colaborações. O Zé Luís marcou presença nos ensaios e na fase de produção e mistura do disco na Finlândia. Essa vivência foi sendo imaginada e documentada por ele. Depois, passado um mês do fecho do disco, tínhamos a novela. Foi um trabalho fluido, assente em muitas palavras trocadas e, acima de tudo, muita convivência entre nós. Líamos os livros dele e ele ouvia a nossa música.”

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MÉTODOS DE PRODUÇÃO

Fernando Ribeiro não lê em voz alta os poemas que escreve, mas escreve-os pelo menos três vezes depois de uma primeira leitura. A escrita é algo que surge naturalmente, mesmo que nem sempre consiga concretizar a inspiração de um momento. Mas não tem pressa. “Não tenho uma carreira como escritor, não dependo disso e tenho essa liberdade para desenvolver os meus projetos. Tenho muitos, mas sou realista”, afirma. Passa a vida a escrever, desde a lista de compras a poemas novos – “nem sempre é trabalho criativo mas mata o bicho e aviva a memória”, diz. Quando falou com a Estante, dividia-se entre a promoção do último disco dos Moonspell, Extinct, e o próximo livro de poesia, Purgatorial.

No futuro imagina-se a dedicar mais tempo à escrita: “Fantasio muito com isso. Algo fora do caos rock and roll, meio Hemingway, livros e costa vicentina. Mas não é para já. Nem para daqui a dez anos.” Por enquanto, aposta na leitura.

Já para Adolfo Luxúria Canibal, que na adolescência mergulhava na poesia de Baudelaire, Mallarmé e Herberto Hélder, fugia dos clássicos, escrevia os seus próprios poemas e tinha por ambição ser escritor ou poeta, hoje a escrita tem de obedecer a um objetivo, ter um “gatilho externo”. O jurista/ performer/ poeta bracarense – Adolfo assume-se como jurista, “é disso que vivo e foi para isso que estudei” – divide-se entre os textos que cria para os Mão Morta, as crónicas para os jornais Correio da Manhã e Sol e outros textos que lhe são pedidos. A escrita por impulso ficou para trás. “Há sempre um objetivo: uma crónica, um objetivo externo a mim que me impele para aquela escrita.

É um compromisso que tenho de cumprir e, no fundo, a minha escrita acaba por ser muito direcionada consoante esse compromisso”, explica. O tal “gatilho” tanto pode ser uma ideia abstrata como música ou imagens. Em 2011, Adolfo Luxúria Canibal criou, em conjunto com o artista plástico Fernando Lemos, Desenho Diacrónico, um livro-objeto publicado no Brasil aquando da inauguração da exposição de Lemos, Lá e Cá, na Pinacoteca de São Paulo.

 “A editora pediu-me para trabalhar a partir das imagens dele, foi o que fiz e correu bem, o Fernando Lemos adorou e para mim a maior satisfação foi essa”, conta. O próximo projeto dos Mão Morta trocou-lhe as voltas. “Normalmente trabalhamos a partir das músicas mas desta vez decidimos que seria bom voltar ao método antigo. A última vez que isto aconteceu foi com o Tu Disseste, no disco Primavera Destroços, que é de 2004 e o texto é de 2002”,explica Adolfo Luxúria Canibal. Com o disco ainda sem datas definidas, o letrista dos Mão Morta ainda tem os músicos à espera. “Para mim é mais confortável trabalhar a partir de músicas já feitas. Porque ou há uma necessidade dentro de nós de expor qualquer coisa – e aí a folha em branco é um suporte para essa expressão –, ou então olhar para a folha em branco e preenchê-la sem ter nada por onde começar é das coisas mais horríveis e angustiantes que há. Mas pronto, é a próxima prova”, diz, resignado.

Filipe Melo é mais tecnológico no seu modo de produção, já que boa parte do trabalho é feito via Skype, em conjunto com Juan Cavia e Santiago Villa, que com ele assinaram a trilogia de banda desenhada As Aventuras de Dog Mendonça e PizzaBoy – Cavia o desenho e Villa a cor. Esta é uma faceta de Filipe Melo que muito do público que assiste às suas jam sessions como pianista de jazz, ou viu no cinema o thriller I’ll See You In My Dreams, desconhece.

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“Viver uma fantasia assim é um trabalho… E pode levar ao internamento compulsivo”

JP Simões 


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INTERNACIONAIS
O primeiro livro de Madonna – Sex, publicado em 1992 – não deixaria adivinhar que ali estava uma potencial autora de livros infantis. Mas, contra todas as expetativas, foi isso que aconteceu. Entre 2003 e 2008 – período em que Madonna viveu no Reino Unido, durante o casamento com o realizador Guy Ritchie –, a cantora norte-americana editou livros destinados ao público infantil. A As Rosas Inglesas (que viria a tornar-se uma coleção) seguiram-se As Maçãs do Sr. Peabody, Yakov e os Sete Ladrões, As Aventuras de Abdi e Pipas de Massa
O género infanto-juvenil parece, aliás, agradar aos roqueiros mais empedernidos. No ano passado foi a vez de Keith Richards, dos Rolling Stones, lançar Gus e Eu, uma história infantil que é também uma homenagem ao avô. Ilustrado pela filha de Richards, Theodora, e de Bruce Springsteen transformar o tema da canção Outlaw Pete, de 2009, num livro destinado às crianças. A poesia e a novela são outros dos estilos privilegiados pelos músicos internacionais, sendo disso exemplo Leonard Cohen e Nick Cave. O cantor canadiano tem poesia publicada desde 1954, quando os primeiros poemas saíram numa revista. Durante os anos 60, publicou vários livros de poesia e duas novelas, a autobiográfica O Jogo Favorito, de 1963, que acompanha a história de um jovem que se encontra através da escrita, e Vencidos da Vida, lançado em 1966. De referir que Cohen recebeu o Prémio Príncipe das Astúrias das Letras em 2011. 
Nick Cave mantém o tom negro das suas canções nos livros que escreve. Intercalados por 20 anos de pausa, E o Burro Viu Um Anjo e A Morte de Bunny Monro ainda não têm sucessor. 

Embora separe claramente as águas – quando está a escrever não pensa na música, e vice-versa –, Filipe Melo garante que há semelhanças entre as áreas. “A música, o cinema e a banda desenhada têm um processo de concretização muito semelhante. Qualquer músico que escreva vai concordar com o que estou a dizer. Parte tudo de uma ideia e da vontade de que esta se transforme em algo real e o processo de transformação é muito semelhante. Vamos sempre aprendendo, mas quando começamos um processo novo parece que os outros não serviram de nada”, revela.

A paixão pelo cinema acompanha Filipe Melo desde a infância. “A música aparece um pouco como consequência desse percalço de ter ficado sem computador aos 14 anos”, assume. Note-se que o “percalço” envolveu a detenção pelas autoridades e respetiva apreensão do material informático. Perdeu-se um informático e ganhou-se um músico e autor de BD.

E foi como complemento do cinema que a banda desenhada surgiu no percurso de Filipe Melo. “Tinha alguns filmes que não consegui fazer porque eram um bocadinho ambiciosos e naïf – apercebi-me que, como pianista de jazz em Lisboa, não consigo fazer um filme com um orçamento de mais de um milhão de euros”, recorda. O argumento acabou por dar origem à trilogia As Aventuras de Dog Mendonça e PizzaBoy. “Foi relativamente fácil. Trabalho sempre com as mesmas pessoas e o processo de adaptação é feito a conversar. Decidimos o que acontece em cada página e como acontece”, explica.

O trio teve então a oportunidade de publicar pela Dark Horse Comics, graças ao realizador John Landis, que assina o prefácio do primeiro livro da trilogia e mostrou o livro à editora norte-americana.

Mesmo trabalhando cada área individualmente, o cinema e a BD de Filipe Melo partilham a ligação ao universo do fantástico, embora este não seja o único estilo apreciado pelo autor. “Gosto mesmo é de contar histórias e gosto de tantos géneros diferentes que acaba por ser uma dificuldade para mim.”

A outra ligação é mais prosaica – a divisão do tempo e dinheiro. “Eu sou um profissional da música, mas nos livros de banda desenhada acabo por empenhar muito do dinheiro que ganho como músico. Essa gestão, mesmo em termos de tempo, muitas vezes é complicada. Porque, para ser um bom pianista, preciso de muitas horas a estudar. E a escrita de um guião também exige muito tempo”, explica. Conseguir o malabarismo de dar profundidade a ambas as coisas sem “andar só a brincar ao jazz e à banda desenhada” é o principal desafio.

Por agora, alargar a escrita a áreas como o romance está fora de questão: “Já há muita gente a fazer isso bem e eu só ia estragar essa tradição. Por isso vou continuar a fazer coisas com bonecos e a tentar fazer o melhor possível.” Na calha está “um trambolho de 200 páginas” que lhe vai ocupar o próximo ano e meio, uma nova história de BD feita em parceria com Juan Cavia e Santiago Villa que tem por base a Guerra Colonial. “É passado na Guiné, em 1972, e será uma espécie de história de terror. Acompanha a missão de nove soldados que são enviados até ao Senegal e vivem um verdadeiro pesadelo”, revela. Filipe passou quatro anos a pesquisar sobre o tema, tem 60 horas de entrevistas gravadas mas, mesmo assim, sente que não é suficiente. “É muito difícil gerir as coisas e sinto que já está na altura de pôr isto em marcha. Espero, com o rigor necessário, trazer uma nova forma de falar sobre aquela realidade.”

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“Há sempre um objetivo: uma crónica, um objetivo externo a mim que me impele para aquela escrita. É um compromisso que tenho de cumprir”

Adolfo Luxúria Canibal 


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CHICO BUARQUE
O Irmão Alemão, último romance de Chico Buarque, surge 40 anos depois da sua primeira incursão pela ficção com a novela Fazenda Modelo. Antes disso, o cantor brasileiro já tinha assinado peças de teatro e depois escreveu Ópera do Malandro. A estreia no romance aconteceu mais tarde, com Estorvo, em 1991. Seguiram-se Benjamin (1995), Budapeste (2003) e Leite Derramado (2009). Entre cada um deles, editou um novo álbum e fez uma digressão, num processo em que vai alternando a música e a escrita. Com O Irmão Alemão, Chico Buarque pretendeu descrever a busca pelo irmão. Garante que, apesar de partir da sua própria história, o livro é ficção, mas, à boleia da investigação para o livro, ganhou uma nova família ao conhecer a filha, a ex-mulher e a neta do irmão, falecido há 30 anos. O livro chegou a Portugal em fevereiro com a chancela da Companhia das Letras, que marcou assim a entrada no mercado nacional.

PÚBLICO OU “PÚBLICOS”?

Tanto Fernando Ribeiro como Adolfo Luxúria Canibal assumem que boa parte do público que os lê é o mesmo que vai aos concertos e compra os discos dos respetivos grupos. Essa consciência não altera a relação que têm com o leitor quando escrevem: nem um nem outro pensa nele. “O leitor, enquanto abstração, nunca penso nele”, assume Adolfo, que quer primeiro que o texto lhe agrade ou, em casos mais específicos, que agrade a quem lho pediu. 

A Filipe Melo não restam dúvidas: os seus públicos são distintos enquanto pianista de jazz, realizador e autor de BD. Mas, nesta última vertente, Filipe tenta gerir as partes da narrativa que são importantes para si e considerar a opinião do leitor. “É um desrespeito muito grande pensar que quero contar uma história e que me estou um bocado nas tintas para o que as pessoas acham. Com Dog Mendonça e PizzaBoy, mostrei o livro a várias pessoas da minha confiança para adaptar o que não gostavam e fazer uma história que chegasse às pessoas da forma mais consensual possível. Isso não quer dizer que eu não esteja a fazer um objeto pessoal”, diz.

PERCURSO DE UM CONTISTA ACIDENTAL

Quando JP Simões decidiu inscrever-se no mestrado em Teoria da Literatura, em 2010, fê-lo apenas porque lhe apetecia. “Foi até hoje quando gostei mais de estudar, porque era algo que me apetecia mesmo fazer”, garante. Mas a aposta no estudo da literatura teve um volte-face: depois de concluir o mestrado, JP Simões levou algum tempo até voltar a escrever. 

Conhecido quer pelo seu trabalho a solo, quer com os grupos Pop Dell’Arte, Belle Chase Hotel ou Quinteto Taiti, JP Simões começou por acalentar o sonho de ser escritor. “Aos 20 anos cheguei a Lisboa que, para mim, era mais ou menos o equivalente ao que Paris foi para Mário de Sá-Carneiro no início do século”, recorda. Durante esse período de descoberta teve uma breve passagem pelo jornalismo, mas um dia, quando já tinha abandonado as redações, telefonou à mãe para lhe anunciar que tinha decidido ser escritor. Tímido e solitário, explorou ao extremo o estereótipo do escritor maldito, passando horas na mesa do café a observar, a fumar e a escrever. A obra que ia crescendo tinha por título Agenda Café e nunca foi publicada. A imagem que criara e de acordo com a qual vivia estava marcada por existencialistas como Albert Camus, Jean-Paul Sartre ou Antonin Artaud – “muito desafiador mentalmente” –, mas não tinha grandes resultados práticos. 

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“A música, o cinema e a banda desenhada têm um processo muito semelhante”

Filipe Melo


JP Simões acabou por trocar a mesa do café pela música. “Percebi que deixei passar a vida escondido atrás da personagem do escritor”, afirma. Curiosamente, foi depois de ter saído dessa personagem que acabou por publicar Ópera do Falhado, em 2004, e o livro de contos ilustrado por André Carrilho, O Vírus da Vida, três anos depois. Com este último projeto tem uma relação algo ambígua, já que a publicação aconteceu um pouco a contragosto. “O André Carrilho pediu-me que escrevesse os textos e eu disse-lhe que sim… Estava um bocado ‘liso’ na altura”, conta. Avançou com uma proposta de texto que acabou por ser publicada mas, para JP Simões, aquele ainda não deveria ser o resultado final: “São esboços, muito esquemáticos.” 

Mais tarde, escreveu ainda a peça de teatro A Íntima Farsa, representada no Teatro São Luiz, que não está publicada. “Hoje escrevo apenas para a música. Também tinha uns textos de prosa poética, mas escrevo tudo no iPad e roubaram-mo”, lamenta. Atualmente prepara o próximo disco, que quer numa vertente rock and roll, numa espécie de trabalho de artesanato, enquanto junta poesia e música. “De vez em quando esse artesanato excede-se, ganha outra dimensão e torna-se arte”, diz. Entretanto vai continuando a escrever prosa poética. E, a terminar a conversa, cita T. S. Eliot: “O poeta imaturo imita, o poeta maduro rouba.” E conclui: “Eu sempre roubei descaradamente.” 


Quando os escritores tocam

Afonso Cruz, Valter Hugo Mãe e João Tordo têm em comum, além da escrita, o amor pela música. Os três escritores portugueses integram projetos musicais aos quais dedicam parte do tempo.

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Afonso Cruz faz parte da banda de blues/roots The Soaked Lamb, onde toca harmónica, ukulele, guitarra e banjo, e com a qual já gravou três álbuns: Homemade Blues (2007), Hats and Chairs (2010) e Evergreens (2012).

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João Tordo faz parte dos The Loafing Heroes, banda internacional com base em Lisboa e vários trabalhos gravados, onde atua como contrabaixo.

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Valter Hugo Mãe assume-se como a voz do grupo Governo, com um álbum editado, estando ainda ligado à música enquanto letrista de vários projetos.


Texto de Susana Torrão
Ilustração de Tiago Albuquerque
Fotos de Paulo Mendes (Fernando Ribeiro); Pedro Loureiro (José Luís Peixoto); Miguel Estima (JP Simões); Brian Rasic (Keith Richards); Kezban Özcan (Leonard Cohen); Bob Wolfenson (Chico Buarque); Direitos Reservados (Madonna, Nick Cave, Adolfo Luxúria Canibal); Paulo Castanheira ( João Tordo); Nelson D’ Aires (Valter Hugo Mãe); Joana Linda (Filipe Melo).

 

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