Meik Wiking: “Serei o homem mais feliz do mundo? Talvez”

Como podemos ser mais felizes? Meik Wiking, presidente do Happiness Research Institute e autor de O Livro do Lykke, dá esta e outras respostas em conversa com a Estante.

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Pergunta rápida e objetiva para começar: está a tentar espalhar felicidade a nível global?
Sim [risos]. O Happiness Research Institute, o meu trabalho, a minha carreira e todos os projetos que fazemos tentam responder a essencialmente três questões: de que forma podemos medir a felicidade? Por que motivos existem pessoas mais felizes do que outras? Como podemos melhorar a qualidade de vida? Por isso, a resposta é sim. Parece-me que é um bom objetivo para se ter. 

Mas acredita que isso é totalmente possível?

Atingir elevados níveis de felicidade, a longo prazo, na maior parte dos países? Sim, definitivamente.

Vejo o mundo a mover-se numa boa direção, em termos de melhoria da qualidade de vida das pessoas, mas ainda existem muitos desafios e problemas. Há coisas que podemos fazer enquanto países e coisas que podemos fazer enquanto pessoas para nos sentirmos mais felizes. E esse é também o objetivo de O Livro do Lykke.

O último livro que escrevi foi sobre o hygge, que é um conceito dinamarquês sobre aproveitar a vida e criar uma boa atmosfera, mas com este livro quis mostrar que a Dinamarca não detém o monopólio da felicidade, que podemos encontrar pessoas felizes em todo o mundo, fontes de inspiração no Butão, no Japão ou em Portugal. É um livro que funciona como uma ementa de coisas para as quais as pessoas podem olhar e dizer: “OK, vou querer fazer isto e isto.”

Então o foco é a grande diferença entre o primeiro e o segundo livros.

Sim. O primeiro era mais focado na Dinamarca. Também há muito de Dinamarca neste livro, mas consiste muito mais numa procura global pela felicidade. Numa caça ao tesouro, numa busca por comportamentos e formas de fazermos coisas que tenham impacto na nossa qualidade de vida.


Com este livro quis mostrar que a Dinamarca não detém o monopólio da felicidade, que podemos encontrar pessoas felizes em todo o mundo.


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A felicidade é um conceito tão universal assim? Ou seja, aquilo que o faz feliz pode ser o mesmo que me faz feliz?

Sim. É isso que vemos quando olhamos para dados da felicidade a nível global. Podemos ver que a maioria das coisas que permitem determinar se as pessoas são felizes ou não é comum e universal. As coisas que promovem a felicidade em Lisboa também promovem a felicidade em Copenhaga. E acho que isso é uma coisa boa, especialmente nestes tempos em que estamos tão divididos, em que existe tanto conflito. Percebermos que podemos ser portugueses, dinamarqueses, americanos ou chineses, mas que somos, acima de tudo, humanos.

Então que fatores diria que são mais relevantes para a felicidade individual? Saúde, dinheiro, vida social?

Existem muitos fatores importantes e você mencionou-os. Saúde, dinheiro até um certo ponto e relações sociais, claro. É difícil dizer que um é mais importante do que os outros, porque também depende da fase da vida em que cada um de nós se encontra, mas o que observamos frequentemente é que as nossas relações são o melhor determinante da nossa felicidade. Se tivesse de escolher um desses fatores como o mais importante, diria as relações. 

Portugal muito raramente está no topo de um ranking que seja positivo.

Sim, bem, está no 89.º lugar do Relatório Mundial da Felicidade.

Exato. No entanto, descobrimos neste livro que Portugal tem os pais mais felizes do mundo, uma vez que dispõe de “instrumentos” – como os avós – que dão mais liberdade e tempo livre aos pais. Que mais coisas acha que outros países podem aprender connosco?

Do tempo que passei aqui, o que experienciei foi uma abertura para com o mundo. Parece-me que os portugueses são muito interessados por outras culturas, por descobrir o que podem aprender com quem vem de outras partes do mundo. Também notei franqueza, amabilidade e humildade. Acho que são coisas que se conseguem ter por se tratar de um país pequeno.

Então podemos concluir que, socialmente, estamos bem posicionados.

Sim, diria que sim. E, além disso, acho que outros países podem aprender com os portugueses a forma de celebrar vida. De gozar a vida. Os italianos têm uma coisa que é o dolce far niente e sinto o mesmo aqui. Há uma alegria no dia a dia e uma tentativa de aproveitar tudo ao máximo. É uma qualidade maravilhosa para se ter.


Acho que outros países podem aprender com os portugueses a forma de celebrar vida. De gozar a vida.


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No entanto, os portugueses também conseguem ser particularmente negativos e adoram queixar-se. Isso torna-nos mais infelizes do que realmente somos?

Acho que esse é um traço humano. Sei que vocês têm o fado e que talvez haja alguma alegria nessa tristeza, mas é algo que vejo em todo o mundo.

Escrevo no livro que em França ouvi as pessoas dizer: “Não somos felizes porque adoramos queixar-nos.” Mas também estive na Estónia e houve um ministro que me disse: “Não somos felizes porque adoramos queixar-nos.” Por isso, é um padrão. Os humanos adoram queixar-se. E não há problema. É algo que também nos faz avançar, porque apontamos constantemente coisas que queremos melhorar.

As pessoas tendem a pensar que, porque o Meik é o presidente do Happiness Research Institute, é a pessoa mais feliz do mundo. Como reage a esta observação?

Acho que o The Times escreveu mesmo que sou o homem mais feliz do mundo.

Mas não vou tão longe. Com certeza sou um dos candidatos. Estou muito grato pela vida que tenho, disponho de muitas coisas que sei que importam para a felicidade, mas tenho dias bons e maus como qualquer outra pessoa. Também fico preocupado, stressado e frustrado. Mas serei o homem mais feliz do mundo? Pode escrever “talvez” [risos].

O que acredito é que tenho o melhor trabalho do mundo. Posso tentar compreender o que faz as pessoas felizes, falar com pessoas de todo o mundo sobre o que me interessa e, na verdade, este é um tema que interessa a toda a gente.

Isto significa que posso ter esta conversa consigo, mas também com alguém que se senta ao meu lado no avião ou com o ministro da felicidade dos Emirados Árabes Unidos. É um assunto fascinante para toda a gente. E todas as conversas que ouço, todos os filmes que vejo, todos os livros que leio são provas para esta área que tento compreender. Isso dá-me uma tremenda satisfação e sensação de missão cumprida. Por isso, a resposta é talvez.

Desde que lançou O Livro do Hygge tem notado reconhecimento internacional? Quando viaja, as pessoas sabem quem é e o que faz?

Sim. O primeiro livro vendeu mais de um milhão de cópias e recebo cartas diariamente de pessoas de todo o mundo, que me agradecem pelo livro. O nível de reconhecimento do trabalho que fazemos no Happiness Research Institute aumentou, sim. E também vemos isso pelo nosso website, que recebe agora cerca de mil visitas diárias. Além disso, dou entre 300 e 400 entrevistas por ano. Mas sabe que esta conversa que estamos a ter poderia estar a acontecer num jantar entre amigos. Sei que tem de escrever um artigo sobre isto, mas eu estou apenas a falar sobre coisas que me interessam. Não me parece trabalho.


Os humanos adoram queixar-se. E não há problema. É algo que nos faz avançar, porque apontamos constantemente coisas que queremos melhorar.


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Diga-me três coisas que tenta fazer todos os dias para ser feliz e que outras pessoas também possam fazer.
Uma das coisas que faço é tentar incluir, digamos, “microexercício” no meu dia a dia. Obviamente, vou de bicicleta para o trabalho, mas também há outra pequena coisa que faço e que acho que toda a gente pode fazer: cada vez que peço um café – no meu trabalho temos uma cafetaria no rés-do chão –, em vez de ficar ao balcão à espera, subo quatro pisos de escadas, até ao topo do edifício, e volto para baixo. Quando lá chego, o meu café já está pronto. Ao fim de uma semana, isto equivale a andar até ao topo do Empire State Building e descer. É uma forma fácil de incorporar exercício físico na minha rotina.

Outra coisa que tenho feito, também por causa da minha pesquisa, é investir mais em relações sociais e amizades. Tenho um grupo de culinária com amigos e encontramo-nos de vez em quando para cozinharmos juntos. Em vez de alguém ser o anfitrião, ter de organizar as entradas, o jantar e a sobremesa, e lidar com todo o stresse e logística, todos trazemos ingredientes para criar uma refeição. E vamos mudando o tema de noite para noite. Já fizemos comida mexicana, receitas com pato, uma vez até tentámos fazer salsichas de raiz… que acabaram por ficar horríveis [risos].

Foram muito ambiciosos nessa noite.

Sim [risos]. Passámos quatro horas a fazer salsichas, ficou horrível, mas divertimo-nos imenso. É sempre bom estar com amigos, apreciar a comida e deixar a conversa fluir enquanto estamos a prepará-la juntos.

Outra coisa que tenho tentado fazer é valorizar mais o tempo e saber gastar o meu dinheiro no sentido de comprar qualidade de vida. Dou prioridade a investir tempo a fazer o que quero realmente fazer.

Quando coisas menos felizes acontecem na sua vida, quando se sente stressado ou ansioso, o que faz para mudar a sua sorte?

O que funciona comigo é pensar: “Daqui a seis meses, será que isto tem impacto na minha qualidade de vida?” Sim, neste momento é mau, é chato ter partido o computador no avião, por exemplo, mas daqui a seis meses não tem importância nenhuma. Acho que respirar fundo e pensar nos efeitos a longo prazo da situação atual é uma boa forma de retirar importância à frustração que sentimos.

E falando agora para os pais, que pequenas coisas podem começar a fazer todos os dias para que os seus filhos cresçam mais felizes?

Podem começar a ser aquilo a que nós chamamos de “pais elefantes”. Nos últimos anos tem-se falado muito dos “pais tigres”, que pressionam os filhos a andar para a frente, mas o que verificamos é que, no que toca ao bem-estar das crianças, é uma melhor estratégia ser “pai elefante”, isto é, apoiar mais, encorajar mais e permitir que os filhos desenvolvam a pessoa que são em vez de empurrá-los na direção que os pais querem.

Obviamente, ninguém consegue ler O Livro do Lykke e implementar todos os conselhos. Então que estratégia recomenda? Tentar uma coisa nova todas as semanas, por exemplo?

Não. Acho que o livro tem cerca de 50 ou 60 sugestões e não encorajo ninguém a seguir 50 ou 60 sugestões. Vejam antes o livro como uma seleção de tapas ou como uma ementa e escolham uma, duas ou três coisas que queiram implementar.


Aos 20 e poucos anos atravessei uma “fase Hemingway” e fui para Espanha durante três meses para tentar escrever um livro de ficção.


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Começa o livro com referências a Tolkien e Hemingway. São as suas principais influências literárias?

Diria que sim. Li muito, especialmente Hemingway. Aos 20 e poucos anos atravessei uma “fase Hemingway” – acho que todos os jovens rapazes têm essa fase – e fui para Espanha durante três meses para tentar escrever um livro de ficção. Fiquei numa pequena cidade no Sul de Espanha, onde ninguém falava inglês, por isso fui forçado a aprender espanhol. Mas sim, ele era um dos meus heróis literários, só que a ficção que eu escrevi era horrível. Por isso, comecei a desenvolver um estilo completamente diferente.

Gosto de escrever a imaginar que estou sentado em frente a alguém, como você, a ter uma conversa. E o meu trabalho é pegar na ciência e apresentá-la de forma lúdica. Até costumo dizer que as provas definem a ciência, mas são as histórias que a divulgam.

Porque este livro também partilha várias histórias de pessoas reais.

Sim, as pessoas que são escolhidas como case studies neste livro são pessoas que conheci ou com quem falei e que são representativas daquilo que observamos nos nossos estudos. Por isso, tenho um estilo mais conversacional que o Hemingway e acho que funciona bem para mim. É mais divertido de escrever e quero também que seja mais divertido de ler.

Mas que outros autores influenciaram a sua maneira de pensar sobre a vida?

Por exemplo, Stephen Dubner, que escreveu Freakonomics. Esse livro trouxe-me, de certa forma, até onde estou agora. Li-o há muitos anos e mostra como podemos usar a economia para compreendermos comportamentos do dia a dia. Isso está relacionado com o que faço agora.

Diria também que outro autor importante para mim é Malcolm Gladwell, que escreveu The Tipping Point. Gosto dele, e sinto-me inspirado por ele, porque pega num assunto complicado e torna-o uma leitura divertida. É também esse o objetivo dos meus livros.

Qual foi o último livro que leu?

Estou atualmente a ler A Short Story of Drunkenness. A minha editora no Reino Unido e a minha publicista vieram a Copenhaga durante 24 horas e levei-as a conhecer a cidade. Fomos a bares, fomos a restaurantes, bebemos vinho quente e ficámos… um bocadinho bêbados. Depois disso, enviaram-me um cartão de agradecimento que veio com esse livro. Estou agora a dar-lhe uma oportunidade.

O que faz um bom livro, na sua opinião?

Um bom livro é um livro que não consigo pousar e que me faz sentir que estou na companhia do autor, que me ajuda a perceber quem é a pessoa que está por detrás da escrita.

Planeia escrever um terceiro livro em breve?

Está a começar a soar como a minha editora [risos].

Então podemos assumir que sim.

Sim. Escrever livros é parte do meu trabalho, é uma forma de levar as nossas descobertas a uma audiência maior. E, se reparar, também tenho aqui o meu caderno de notas, por isso sim, estou a escrever um novo livro. Não será publicado este ano, penso que só em 2019, mas dará uma dimensão adicional às minhas viagens, às histórias e experiências que tenho vindo a recolher.

Portanto, vai manter o mesmo registo. Sem ficção.

Sim, funciona bem comigo. É uma forma divertida, para mim, de escrever, e acho que é algo que as pessoas também gostam de ler.

E vai haver uma palavra-chave, tal como já houve hygge e lykke?

[Risos] Talvez haja, sim. Não acho que esteja na liberdade de revelar já. Por agora, chamemos-lhe apenas O Pequeno Livro do Mistério [risos]. Não, não será esse o nome, mas sei qual será o ângulo, embora ainda esteja muita coisa por decidir.

Uma última questão: que título daria a um livro sobre a sua vida?

Talvez… The Happiness of Pursuit. É um título bastante bom, na verdade. Deixe-me só apontar.


Por: Carolina Morais
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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