Mário de Carvalho

 

“A literatura e a língua são coisas em que se mexe”

 

Mario_de_CarvalhoA língua é parte integrante da identidade de um povo e, mais ainda, da de um escritor.
A questão da identidade e da língua, vista a partir da perspetiva do escritor Mário de Carvalho.

Alguma vez considerou escrever numa língua que não seja a sua?
Se a ditadura não tivesse sido derrubada e eu tivesse continuado o exílio na Suécia, às vezes penso que talvez viesse a ser um escritor sueco, aprisionado dentro de uma língua falada e lida por apenas 10 milhões de habitantes. Podia ter acontecido, sabe-se lá. Mas ainda que eu viesse a escrever um perfeito sueco e conhecesse essa língua em profundidade, alguma coisa me faltaria: a memória da infância, com a apreensão desde muito cedo de modos de dizer, maneiras de falar, com a ressonância da descoberta, interrogação e crítica infantis que as mesmas provocaram, na idade certa, no tempo certo. Há um génio da Língua que nos toca desde muito cedo. Como se pode encontrar noutra língua o equivalente a uma palavra tão bonita como “menina”?

Se isso tivesse acontecido de que forma alteraria a sua obra?
Não sei se haveria “obra”, ou, se pelo contrário, me integraria na vida sueca, com as suas rotinas, o seu deitar cedo e cedo erguer. Mas tudo o que possa dizer sobre isso é pura especulação.

Como é que a língua define a identidade de um autor?
Às vezes de maneira tão intensa que tornam a tradução de uma extrema (quase impossível) dificuldade. Temos vários casos, nos nossos dias, de magníficos escritores que suportam mal a versão para outras línguas. Estou a pensar em Aquilino Ribeiro ou Maria Velho da Costa. Na verdade, por mais competentes e talentosos que sejam os tradutores, quando se trata de grandes autores,ficamos sempre com a sensação de que nos falta qualquer coisa. Há sabores,aromas, ritmos, texturas e espessuras que não se conseguem transmitir. E quando, às primeiras páginas, esta suspeita não se forma, quase de certeza não vale a pena continuar a ler.

Apesar de Portugal ser um país bastante homogéneo em termos linguísticos, existem sempre regionalismos. A infância dividida entre os bairros lisboetas e as férias no Alentejo afetou a sua obra?
Sem dúvida. Parto para a escrita com a minha vivência e os ecos da infância têm uma grande importância. Talvez um ou outro regionalismo a assomar, um gerúndio mais persistente, ou a seleção de tal ou tal vocábulo, de entre uma dúzia de opções, reflitam ainda essa memória.

Mais do que a língua, são as alterações sociais e políticas que podem fazer mudar a literatura?
Não podemos fugir a idiossincrasias pessoais e também não podemos deixar de ser influenciados, de uma forma ou de outra, por tudo quanto se vai passando em volta. A escolha dos assuntos, o foco das atenções, o alargamento do mundo, a aceleração da vida de hoje, tudo isso altera a composição literária.

Alguns autores são conhecidos pela Apropriação/interpretação muito pessoal que fazem da língua. O português,ou qualquer outro idioma, está à disposição dos escritores para que estes criem a sua própria língua?
Talvez não seja necessário os autores criarem um novo idioma. Mas deixe-me voltar a uma história que costumo contar: Quando eu era estudante, tinha uma cadeira chamada medicina legal, cujas aulas práticas eram dadas na sala de autópsias,na morgue, por um ilustre professor de bata manchada de sangue: Ele explicava-nos – com algum desdém,diga-se – a diferença entre «cadáver» e «defunto». O defunto está vestido, deitado no caixão, cara coberta com um lenço, em ambiente de sombra respeitosa e apaziguada, gente a chorar em volta. O cadáver é uma coisa em que se mexe. A mim, também me parece que a literatura e a língua são coisas em que se mexe.

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