Mário de Andrade: A história de um modernista

Fotografia: Wikimedia Commons

Morreu há 70 anos o precursor do modernismo brasileiro, cuja obra transformou profundamente a cultura e literatura do país.

São poucos os homens que conseguem, com sucesso, transcender vários ramos das artes e exceder-se em todos. Para esses homens guarda-se, na História e na Arte, um lugar especial. É o caso de Mário de Andrade, poeta brasileiro nascido no final do século XIX, cujo talento engloba não apenas a literatura mas também a música, a etnografia e a fotografia. Pioneiro na introdução do modernismo na América do Sul, procura revolucionar a maneira de entender e pensar a literatura brasileira, libertando-a dos velhos cânones aos quais se mantinha presa.

De espírito agitador, a obra de Mário de Andrade é uma lufada de ar fresco numa época em que a arte parecia querer-se contida e limitada. Com os estudos das populações do interior brasileiro, possibilitou um maior conhecimento da cultura do seu próprio país. O seu trabalho influenciou e moldou-a, redefinindo a identidade brasileira.

Introdução ao folclore

Nasce no ano de 1893 em São Paulo, cidade onde reside quase toda a vida. Tendo, desde criança, desenvolvido uma extraordinária aptidão para a música, nomeadamente para o piano, começa a estudar no conservatório da cidade. Recebe uma educação formal em música; no entanto, as suas áreas de interesse abrangem também a arte, a história e a literatura, em especial a poesia. Publica o seu primeiro livro de poemas em 1917, sob o pseudónimo Mário Sobral, com o título Há uma Gota de Sangue em Cada Poema.

É após a conclusão dos estudos superiores que Andrade abandona temporariamente a cidade e viaja para o interior e nordeste do país, começando a interessar-se pela cultura e música dessas regiões. Estas viagens, nas quais Andrade faz uma recolha extensiva de fotografias e gravações dos sons e da música do interior, ocupar-lhe-ão uma parte considerável da sua vida.

Escreve vários ensaios sobre a cultura musical brasileira e colunas de viagem, nas quais descreve e documenta para a posteridade os territórios indígenas do Brasil, desconhecidos nos meios mais cosmopolitas. Torna-se, assim, um dos pioneiros na área da etnomusicologia, influenciando profundamente a compreensão e estudo do folclore brasileiro.

Introdução ao modernismo

Na década de 1920, em conjunto com outros autores e artistas plásticos da sua geração – entre os quais o poeta Oswald de Andrade e a pintora Anita Malfatti –, funda o movimento modernista brasileiro, influenciado pelo modernismo europeu que ganhava cada vez mais força do outro lado do Atlântico. Escreve, em 1922, Paulicéia Desvairada, obra basilar do modernismo brasileiro e cuja utilização da estrutura livre abre caminho para a reinvenção da poesia no além-Atlântico.

Mais tarde, em 1928, publica Macunaíma, a sua principal obra de ficção. Nesta, através da história de um índio que se desloca para a cidade de São Paulo de forma a aprender a língua e cultura nacionais, Mário de Andrade explora temáticas tão amplamente abrangidas pelos seus estudos como o afastamento entre a cidade e o campo e a apropriação e desapropriação cultural, aplicando à prosa os mesmos mecanismos que nas suas obras poéticas.

Dedica a fase final da sua vida à investigação. Torna-se professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro e, mais tarde, diretor do Departamento Cultural da Prefeitura de São Paulo. Consolida, desta forma, a posição no panorama cultural brasileiro. Permanece ainda hoje um dos principais rostos da modernização e restruturação das artes e da literatura no Brasil.


Por: Inês Melo

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