Alter Ego de Manuel João Vieira

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Olá, Elvis Ramalho. Porque és tão belo?

Porque Deus assim me fez, belo como um corno inglês.

E porquê tão inteligente?

Porque me eduquei a mim próprio, através de sucessivos esforços da vontade, como qualquer bom filiado.

Artista de variedades, bandolinista, pintor de arte… Alguma vez foste entrevistado por ti próprio?

Sim, em criança. Tem graça, porque era pequenito (não deixe de comprar o novíssimo disco dos Irmãos Catita: Portugal dos Pequenitos). Tinha cerca de cinco anos e meio e tive de ir à casa de banho a meio da noite. Tinha muito medo. Por vezes fazia chichi atrás da porta para não ir à casa de banho, mas nessa noite fui. De repente, e para meu grande espanto e horror, deparei-me com a minha própria imagem, sentado numa cadeira com um gravador de bobinas e um microfone cinza e branco na mão. Dizia numa voz alucinante: “Alguma vez se entrevistou a si próprio?” Entrevi-me, disse.

Patético. Fala-me então deste teu novo CD com os Irmãos Catita, Portugal dos Pequenitos. Sabemos que é um projecto mais tipo música europeia anos 50-60, com predominância latina ou ítalo-franco-espanho-portuguesa. Porque não gravaste o fado “Ser Milionário” ou o anti-êxito “Lenine”?

Porque não se pode gravar tudo. E temas predominantemente político-sociais devem ser gravados pelo Candidato Vieira. É para isso que os eleitores não assinam. Mas por outro lado penso que o título Portugal dos Pequenitos encena uma representação microscópica do nosso país e da forma paternalista que os governos utilizam para governar os povos. Reparem que o título não é Aldeia dos Macacos, o que traduziria uma ideia animalista da situação nacional, nem Hospital Miguel Bombarda, o que sugeriria um contexto médico também possível. De facto os portugueses (e quase todos os outros) são tratados como aquelas criancinhas que se põem a dançar em programas de televisão, só que em vez de dançar trabalham ou estão desempregados, vêem futebol, vêem telelixo, etc.

As canções são então todas elas afirmações de carácter político? É que não vejo onde, por exemplo, um tema como “Kericucu” possa fazer transparecer qualquer vaga forma de direcção politicamente emprenhada.

Pelo contrário, meu caro. É prenhe como uma porca política. Em primeiro lugar, trata-se de uma dança da província de Budonga, na ex-África Central Portuguesa, mesmo no meio do mapa cor-de-rosa…

Mas o projecto do mapa cor-de-rosa nunca chegou a ser concretizado. Foi bloqueado pelos ingleses, o que deu origem a regicídio, república, entrada na Primeira Guerra…

Está ver, está a ver? Política. O “Kericucu” é uma quimera colonial em forma de nádega bamboleante, com comentadores do tipo dos Marretas.

Mas por exemplo… Não, sobre “Bela Matulona da Damaia” podes dar a mesma resposta… Vejamos… “Eu Vou (Sodomizar Você)”?

Essa música descreve a forma de agir dos políticos que não mentem. Eu vou sodomizar: vai doer e não vão gostar, mas tenho de dizer a verdade. A primeira vez que essa canção apareceu foi no meu programa do canal Q, Portugal Alcatifado, onde figurava um ministro cantor.

Mas… E “Em Paris Há Gajas Boas”?

Uma canção sobre a crise! O tema da emigração, mais precisamente em Paris, França, da prostituição, do eventual regresso do filho pródigo. Enfim, o que faríamos se voltassem dois milhões de emigrantes? E a história pequenita da nossa aldeia e da nossa namoradinha da terra em contraponto com a cidade viciosa, etc., etc.

Bom… Sempre te candidatas?

Candidatar-me depende da organização que gere as assinaturas. Sem isso é impossível e, francamente, estou teso. Mas irei corajosamente em frente com os meios risíveis à minha indisposição porque estão não só a vender o país mas, pior, a venderem-nos à força um país que não queremos.

Então adeusinho e até logo.

Até mais tarde.

 

*Manuel João Vieira escreve de acordo com a antiga ortografia.


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Manuel João Vieira

É o carismático vocalista de bandas como Ena Pá 2000 e Irmãos Catita, mas a sua arte estende-se a áreas como a pintura ou a atuação. Candidatou-se ainda, em 2011, a Presidente da República.

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