Autor do mês: Luis Sepúlveda, o salvador de baleias que se tornou escritor no exílio

Luis Sepúlveda 

Naturalidade
Ovalle, Chile

Data de nascimento
4 de outubro de 1949

Primeiro livro publicado
Crónicas de Pedro Nadie (1969)

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Conhecido pelas suas opiniões políticas vincadas, a vida de Luis Sepúlveda motivou vários dos seus livros. Até o mais recente. História de Uma Baleia Branca, um livro infantil continua a seguir a lógica da escrita de Sepúlveda ao contar a história de mais um (aparente) perdedor. Mas o percurso do autor chileno teve muitos outros momentos marcantes.

Luis Sepúlveda foi guarda pessoal do presidente do Chile

Apesar de o seu bilhete de identidade identificá-lo como chileno, Luis Sepúlveda diz ser difícil sentir-se patriota. Isto porque embora seja acarinhado pelos habitantes da sua terra natal enquanto escritor, é “sistematicamente ignorado pelo governo. Para eles não existo, não se fala de mim, não faço parte dos planos de leitura, de nada”, desabafa.

No entanto, parece ter havido uma exceção. Em 1970, depois de ter regressado de Moscovo (de onde foi expulso passado cinco meses), Sepúlveda saiu da Juventude Comunista do Chile e tornou-se membro do Partido Socialista e do Grupo de Amigos Pessoais – entenda-se, guarda pessoal – do presidente Salvador Allende.

Luis Sepúlveda viveu, de resto, de forma intensa os mil dias deste governo que chegou ao fim com o abrupto golpe de estado de Augusto Pinochet.


Luis Sepúlveda foi condenado ao exílio

Tal como como vários escritores sul-americanos da sua geração, Sepúlveda esteve preso, fez parte de uma revolução (embora não no seu próprio país) e viveu grande parte da sua vida adulta exilado. Talvez por considerar que a memória é importante para escrever romances, grande parte dos seus deixam transparecer alguns dos eventos que mais marcaram a sua vida: desde os primeiros anos que passou fora do Chile depois de ter sido exilado que estão na base de Patagónia Express às mentiras que se contam sobre o antigo presidente do Chile, e grande amigo de Sepúlveda, Salvador Allende que motivaram A Sombra do que Fomos. Afinal, confessa, interessam-lhe as histórias dos perdedores.


Luis Sepúlveda viveu na selva durante sete meses

O motivo foi bom. E o resultado ainda melhor. Isto porque foi depois de se ter inspirado na convivência com os índios de etnia shuar, com quem viveu durante sete meses na Amazónia equatorial, para escrever O Velho que Lia Romances de Amor que se consolidou enquanto escritor. O livro alcançou um feito raro – sucesso comercial e aclamado pela crítica simultaneamente – e preconizou os temas que caracterizam a escrita de Sepúlveda: o amor pela natureza, a luta pela justiça e o valor (e igualdade) da vida humana.

A simplicidade da vida de um homem, O Velho que Lia Romances de Amor, que vive na selva com um grupo de índios contrasta com a forma de viver dos exploradores de diamantes da zona. Quando um estrangeiro aparece morto, a resposta mais simples parece ser condenar os índios de etnia shuar. No entanto, há outra possibilidade: a de ter sido um animal a matar o homem. A desigualdade de poderes (neste caso, entre homens armados e animais indefesos e entre os índios e os restantes homens) é um dos temas recorrentes da escrita de Sepúlveda.


Luis Sepúlveda acha que ler devia ser uma profissão

Apesar de ser um dos escritores mais reconhecidos no universo da literatura de língua espanhola, Luis Sepúlveda considera-se mais leitor do que escritor. Tanto que o seu único lamento é que não seja um trabalho remunerado. No que diz respeito aos livros portugueses, José Saramago é, para o autor, inesquecível. Mas o que mais aprecia no universo da literatura lusófona é a mestiçagem como Sepúlveda caracteriza, numa entrevista, “quando escritores africanos te contam algo sobre Lisboa, ou quando um português, como o João de Melo, escreve sobre África”.


Luis Sepúlveda não escreve livros com mais de 200 páginas

Foi a sua experiência enquanto jornalista que lhe ensinou que todas as palavras contam. Por isso mesmo, os livros de Luis Sepúlveda são também conhecidos pelo seu número reduzido de páginas. “Podia escrever livros com mais 200 páginas mas não quero. Quero contar histórias e agarrar o leitor na primeira palavra”, justificou numa entrevista. Este processo de síntese, explica, passa por retirar o autor do livro, deixando apenas a história. No entanto, admite que as suas opiniões enquanto cidadão – entendam-se, políticas – estão presentes na sua escrita. Tanto que em O Fim da História e Nome de Toureiro, reconhece que o protagonista tem muitas semelhanças consigo próprio.


Luis Sepúlveda salvou baleias

Além de livros para adultos, Luis Sepúlveda tem vários livros publicados para crianças. E o amor pelos animais é um dos traços da literatura infantil deste autor. Em História de Um Cão Chamado Lealinspirou-se na história de um menino mapuche que ficou sem o seu melhor amigo porque a polícia considerou que um miúdo pobre não poderia ter um pastor alemão (e, como tal, o cão devia ter sido roubado). Já História de Um Caracol que Descobriu a Importância da Lentidão surgiu a partir de uma pergunta do neto sobre a razão pela qual os caracóis andam devagar. Mas, ainda antes de se concentrar nestes animais, as baleias já marcavam a sua vida.

Em 1982, Luis Sepúlveda chegou a viver dois meses num barco no Japão, em conjunto com outros ativistas da Greenpeace, para tentar impedir a caça de baleias, uma prática comum neste país. “Dessa ação nasceu o memorando que proibiu a caça de baleias por um determinado tempo”, explica.

Depois de homenagear os seus colegas ativistas em Mundo do Fim do Mundo, o mais recente livro infantil de Sepúlveda, História de Uma Baleia Branca, dá voz às baleias – ou melhor, a uma baleia em especial – guardiã de O Povo do Mar, humanizando-a e contrariando o imaginário criado pelo clássico Moby Dick.


Luis Sepúlveda reencontrou a mulher vinte anos depois

Podia ser um romance, mas não, é a vida real. E a história de Luis Sepúlveda e Carmen Yáñez, uma das poucas sobreviventes de um dos campos de concentração instalados no Chile nos anos 70 e a quem o autor dedica O Fim da História. Mas não foi a prisão que os separou. Os problemas começaram anos antes, quando o Chile ainda vivia o último governo de uma das mais longas democracias da América Latina. “Tínhamos profundas divergências ideológicas. A minha mulher era contra o governo de Salvador Allende, eu acreditava que era possível mudar as coisas a partir dali”, assume.

Apesar da separação, o filho em comum manteve-os em contacto salvo o interregno em que Sepúlveda esteve preso e Carmen num campo de concentração. Depois do exílio do escritor, reencontraram-se na Europa, ele na Alemanha e ela na Suécia, e voltaram a casar. Vivem atualmente em Espanha.

Por: Tatiana Trilho
Fotografia: Porto Editora

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