Luís Oliveira (Antígona): “As melhores obras distópicas continuam a ser um espelho terrivelmente fértil”

luis-oliveira-antigona-revista-estante-fnacIlustração baseada em fotografia de Patrícia Guerreiro Nunes

Luís Oliveira, editor da Antígona, explica a relevância de utopias e distopias no panorama literário e revela as edições que estão para breve.


3 escolhas de Luís Oliveira

Uma utopia/distopia imprescindível
Com certeza a de Thomas More, A Utopia.
Uma utopia/distopia que o surpreendeu
Nós, de Zamiatine, obra de 1920 que teve uma acidentada história editorial na Rússia. Cronologicamente a primeira desta plêiade de narrativas antiutópicas, é surpreendente por vários dos elementos originais da sua construção, de que resulta a tessitura implacável de um Estado totalitário exposta através de uma subtil mordacidade: exatidão industrial, anonimato e uniformização dos indivíduos (de identidade apenas numérica), vida organizada e controlada cientificamente com base na lógica mais estrita resultante de fórmulas e equações, sonho sinónimo de doença mental, organização da conquista espacial de outros planetas como prolongado prosseguimento do colonialismo territorial europeu, Estado único, constituído por uma nação urbana cujos edifícios de vidro são transparentes. A influência de Nós será depois reconhecível, designadamente, nas obras de Huxley e de Orwell.
Um autor de utopias/distopias verdadeiramente visionário
Aldous Huxley. O que ele concebeu foi o resultado particularmente complexo de um conjunto de correlações sociopolíticas, culturais e mentais que só um analista, estudioso e experimentador tão atento, e um tão dotado escritor, podia exprimir. O seu Admirável Mundo Novo é já em parte este em que vivemos hoje.

A Antígona tem estado muito ativa na edição de distopias de referência, como as de Orwell, Huxley e Zamiatine. Existe uma aposta consciente no género?

Não se trata de uma aposta num género, numa “especialidade”. A iniciativa decorre da importância destas obras em si mesmas, como expressões de um imaginário particularmente fecundo, realizado com base em grandes exigências literárias, éticas e político-filosóficas. Outras obras destes três autores têm vindo igualmente a ser editadas pela Antígona.

Quais são os elementos principais de uma utopia e de uma distopia?

A utopia e a distopia são contrárias. As utopias são certamente mais conhecidas. Basta pensar na que é a mais famosa e universal de todas, a de Thomas More, o grande modelo do género. Ou na de um autor publicado na Antígona, William Morris, Notícias de Parte Nenhuma (1890), livro que em português ainda só foi editado no Brasil.

A etimologia destas duas palavras é aqui mais ou menos explícita; embora ambas sejam projeções, a utopia (“lugar nenhum”) é a idealização de uma sociedade futura pelo menos melhor do que a existente, ao passo que a distopia (“lugar mau ou doloroso”) é uma projeção crítica de elementos já presentes na lógica central que governa ou comanda a sociedade do presente, explicitando o que essa lógica aparentemente “natural” tem de destrutivo, violento e devastador. Não será talvez inútil acrescentar que “distopia” é um termo do léxico clínico, com o significado de situação anómala, em geral congénita, de um órgão.

A utopia concebe uma humanidade liberta da exploração, do medo e da mentira; a distopia prevê, a partir das condições presentes, um totalitarismo político em que os indivíduos são reduzidos a peças manipuláveis e descartáveis – e é porque isto em parte já cá mora que as melhores obras distópicas continuam a ser um espelho terrivelmente fértil.

Concorda que a popularidade das distopias parece aumentar sempre que o mundo passa por fases mais instáveis a nível político ou social?

Parece notório, de facto, um crescendo de distopias, tanto na literatura como no cinema, decorrente das múltiplas experiências da traumatizante instabilidade que se tem instaurado nas sociedades contemporâneas, entre outras coisas através do desenvolvimento da guerra.

Aquilo a que às vezes se chama “o fim das utopias”, remetendo para diversos fenómenos como o desmoronamento da URSS e dos seus satélites, que a maior parte da chamada opinião pública identificava erradamente com o socialismo, ou o aparente triunfo doutrinário do capitalismo, que vemos ser cantado todos os dias, histérica e organizadamente, na propaganda publicitária e nos seus canais, ou ainda o concomitante conformismo que tem vindo a modelar as maiorias, em grande medida narcotizadas pelas múltiplas instâncias do espetáculo, tudo isso cria um pano de fundo sobre o qual cresce o desespero de não se verem saídas para os ubíquos desastres que batem à porta de quase toda a gente e que não são apenas “exteriores”, mas também, e cada vez mais, “interiores”.

Neste conjunto de fenómenos, a tecnologia tem um papel fundamental como algo de monstruoso que se espalha por todos os interstícios relacionais mas que exerce, ao mesmo tempo, uma extraordinária sedução, de que provavelmente decorrem algumas das características “esquizofrénicas” que se observam nos comportamentos. E no pessimismo que acompanha tudo isto.

Considera que, apesar de retratarem épocas específicas, estes livros são intemporais?

Por ordem cronológica, os livros em questão, de Zamiatine, Huxley e Orwell, retratam épocas específicas. Ou, mais propriamente, partem de épocas específicas, mas só no sentido da historicidade da sua redação. Na realidade, estes livros e os outros dois entretanto publicados – A Escavação, de Andrei Platónov, e Kallocaína, de Karin Boye – abarcam, de diversos modos, um arco temporal de que o nosso tempo faz parte integrante. Mais: de cujas projeções, em muitos aspetos, o nosso tempo faz até muito mais parte do que os períodos em que estas obras foram escritas ou publicadas pela primeira vez, entre as décadas de 1920 e 1940. Porque as questões visionariamente desvendadas por estes autores no seu tempo estão hoje muito mais maduras, e em alguns casos já se tornaram implosivas. Todos estes livros são intemporais enquanto durar o capitalismo, cujas metamorfoses não passam de máscaras.

Atualmente, quais são as principais tendências do género?

Como dissemos de início, não editamos estes livros por constituírem um “género”. Nesse sentido, não nos inscrevemos numa tendência editorial “de género”. É observável, no entanto, que os problemas relacionados com o desenvolvimento sem freio das “novas tecnologias” estão muito presentes na produção ficcionista a que podemos chamar distópica, sendo talvez esta a tendência mais prolífica, o que revela, pelo menos (independentemente da qualidade dos livros ou filmes dados a público, porque neste conjunto há muita coisa medíocre), a crescente preocupação e angústia com o caráter invasor da técnica, que na realidade apenas constitui extensões dos poderes instalados e unificados, estatais e empresariais.

A Antígona pretende continuar a editar utopias e distopias no futuro próximo?

Nas utopias e distopias literárias há, obviamente, outras obras cuja importância nos merece atenção semelhante à que atribuímos aos títulos já editados. Vamos editar, por exemplo, Viagem do Meu Irmão Alexei ao País da Utopia Camponesa, de Aleksandr Chayanov, novela russa de 1920 que contribuiu para o fuzilamento do seu autor em 1937, em plena repressão estalinista, aos 49 anos. E pensamos editar a obra de William Morris atrás referida, Notícias de Parte Nenhuma.

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