A estante de Luis de Matos

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Luis de Matos
Nasceu em Moçambique há 45 anos. Chegou a Portugal ainda pequeno e, apesar de ser hoje reconhecido como um dos melhores mágicos do mundo, começou por se formar como engenheiro técnico agrário. Acaba de regressar de uma temporada de espetáculos em Londres e prepara-se para apresentar Chaos, o seu mais recente espetáculo, em Macau.

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Exemplares com mais de 500 anos e edições contemporâneas de design e espetáculos. Na estante de Luis de Matos, a literatura científica e as artes performativas andam de mãos dadas com o objetivo de saber sempre mais sobre um bocadinho de tudo.

Há estantes e estantes, e depois há as que, pela dimensão e importância, aumentam ao ponto de se transformarem em bibliotecas. Com mais de cinco mil livros em diversas línguas, organizados por data de publicação, é seguro afirmar que Luis de Matos é o orgulhoso proprietário de um dos maiores espólios de livros de magia do mundo. “É essencialmente uma biblioteca de trabalho, mas está aberta a todos os que a queiram consultar”, refere.

Comprou o primeiro livro aos 12 anos, aprendendo mais tarde com o amigo Topper Martin a importância de os colecionar, “primeiro porque nos oferecem a possibilidade de tocar na História através do seu conteúdo e, depois, porque sentimos a obrigação de os preservar para que outros possam ter o mesmo privilégio”. Admite ter uma base de dados invejável dos melhores alfarrabistas do mundo, que faz questão de visitar sempre que anda em viagem – quase sempre.

Antes de abrir a porta de vidro de uma das suas estantes, calça um par de luvas brancas para manusear as edições mais raras com o devido cuidado. Lê em português, inglês, francês, italiano e castelhano. O que faz quando não domina o idioma de um livro? Pede a um amigo que o traduza. Isto porque “ficar na escuridão de não perceber o seu conteúdo é simplesmente inaceitável”.


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“É uma biblioteca de trabalho, mas está aberta a todos.”

 


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O exemplar mais antigo da sua estante data de 1593. Intitula-se De Occultis Literarum Notis, é de Giovanni Baptista della Porta e está escrito em latim. “A forma como o conhecimento mágico foi passando ao longo dos tempos é muito curiosa, porque foi sendo fruto dos próprios preconceitos sociais. Este livro revela as formas de escrever em código numa altura em que a magia era entendida como força do oculto e, portanto, condenável.”

2

The Discoverie of Witchcraft, escrito por Reginald Scot em 1584 e considerado um dos primeiros livros de magia a ser publicado, não existe fisicamente na biblioteca mas é uma questão de tempo… e de negócio. “É um marco histórico, uma vez que é o primeiro livro no qual se explica que os mágicos não têm verdadeiros poderes sobrenaturais, que a bruxaria não existe e que os mágicos utilizavam métodos perfeitamente entendíveis para o público em geral, citando vários outros autores e respetivas técnicas usadas para criar ilusões. A sua obra acabou por ser queimada por ordem do rei de Inglaterra e Scot acabaria também por morrer na fogueira em 1599.”

3

Da sua estante de relíquias destaca um livro sueco, o mais antigo que se conhece sobre magia publicado no país, em 1767, e que é uma espécie de guia para a dona de casa perfeita. Explica como preparar o peru, uma tira de entrecosto e como pôr a mesa. Tem a particularidade de caber no bolso do avental. “Defende que, depois de brilhar com o seu repasto, uma dona de casa que se preze deverá, no final da noite, proporcionar entretenimento mágico, pelo que o último capítulo é dedicado a explicar truques com cartas para apresentar aos convidados.” Logo ao lado, La Magie Blanche Dévoilée, de 1792, que pertenceu e foi assinado por Harry Houdini em 1914.

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Thesouro de Prudentes, de Gaspar Cardoso de Sequeira, publicado em 1700, é um dos mais antigos livros de ilusionismo publicados em Portugal e em português. “É uma obra particularmente interessante pela importância histórica já que, não havendo na época outra forma de apresentar a temática do ilusionismo, o conhecimento mágico estava disfarçado nas recriações científicas e nas área da física amusant, da matemática, da astrologia e das ciências em geral. Revela também uma tendência da época: o facto de muitos cientistas terem tido a magia como paixão paralela. É composta por quatro livros e tem uma encadernação lindíssima (apesar do questionável estado de conservação), em pergaminho, muito típica da altura mas muito rara de se encontrar nos dias de hoje.”

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Aleister Crowley não era conhecido por ser assumidamente mágico ilusionista – apesar de usar técnicas semelhantes – mas está aqui porque há uma relação muito próxima com Fernando Pessoa e a Boca do Inferno, uma história curiosa e ainda disponível em Portugal.” No interior, a troca de correspondência entre o português e o mago, poeta e pintor inglês.

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Destaca uma prateleira dedicada ao seu “querido amigo”, Richard Wiseman. “É um autor muito inspirado e inspirador, desde o tempo em que escreveu Did You Spot the Gorilla ao mais recente bestseller Quirkology (no qual explora as estranhezas e particularidades do comportamento humano, desde a forma como se apanha um mentiroso até ao que o sentido de humor revela sobre cada um). Apesar de ser um psicólogo reconhecido e um estudioso dedicado, conseguiu traduzir de forma simples a complexidade da mente humana.”

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Em destaque na estante encontra-se um objeto curioso que, apesar da simplicidade, se assume como um pertence de valor inestimável, deixado pelo amigo e mágico sueco Topper Martin. “Esta lanterna era usada por ele, já numa idade avançada, para encontrar os títulos que procurava aqui na biblioteca. Hoje sou eu que a uso e, embora revele uma metodologia mais desatualizada na pesquisa, mantenho-a lado a lado com um leitor de códigos de barras que me ajuda a encontrar mais rapidamente aquilo que quero. Está tudo digitalmente catalogado por mim através de um software que concebi para o efeito.”

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