E se trocássemos os clássicos por miúdos?

Camões e Homero para miúdos é possível? Falámos com professores e autores para perceber de que forma os clássicos da literatura são entendidos pelos mais novos. A resposta foi consensual: sim, adaptando-os à sua realidade.

 

À CONVERSA INEVITÁVEL sobre a bibliografia designada para cada anolivro letivo, os miúdos respondem, geralmente, com um revirar de olhos e um cansaço antecipado de quem sabe que vai ter de se dedicar a leituras obrigatórias: está para nascer o primeiro aluno que mostre entusiasmo com uma ordem superior. O truque passa por captar a atenção dos jovens leitores com abordagens alternativas aos clássicos da literatura. Com esse objetivo surgiram, ao longo dos anos, adaptações de clássicos universais, epopeias, contos, romances e aventuras destinados aos mais novos e incluídos no plano de leitura escolar, onde as narrativasintrincadas são substituídas por prosas descomplicadas e ilustrações coloridas que dão nova vida a cenários e personagens. De outra forma, seriam apenas “mais uma” no universo literário. Conhecer as aventuras de Ulisses entre Ciclopes e Sereias pode parecer pouco emocionante mas, se a história for complementada com uma associação entre o herói de Homero e, por exemplo,Deanerys Targaryen, “mãe dos dragões” na saga Guerra dos Tronos, ou com as personagens do filme Tróia, os cenários, “a forçados protagonistas e a própria mitologia associada à literatura fantástica ganham contornos mais reais e tornam-se mais próximosdos miúdos”. Para Joana Domingos, professora do 1.º ciclo do Ensino Básico, este é um processo que começa cedo, no 4.º ano, quando apresenta Ulisses, de Maria Alberta Menéres, aos mais pequenos. “O livro é proposto aos pais e depois, na aula, é feita uma breve interpretação da obra.” Aos alunos cabe a missão da leitura e da escrita de um pequeno resumo que deverá ser apresentado aos colegas em forma de teatro, texto ou desenho. Paula Henriques, professora do 2.º e 3.º ciclos, acredita que as estratégias de caráter lúdico usadas na sala de aula (televisão e cinema) “são essenciais para estabelecer o primeiro contacto com os clássicos,
motivando os alunos a uma leitura mais descomprometida”. No caso de Os Lusíadas, obra que apresenta às turmas do 9.º ano, é tarefa inglória, dada a complexidade da narrativa e da própria construção da obra. Mas quando no lugar de “As armas e os barões assinalados” surge um despretensioso “Era uma vez”, tudo se torna mais claro. A obra adaptada de João de Barros, Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões Contado às Crianças e Lembrados ao Povo, relata, em prosa, a coragem e audácia do povo português numa leitura acessível. Embora concorde que algumas adaptações possam ser demasiado simplistas, Paula Henriques admite que, neste caso, a desconstrução da obra é efi caz para despertar a curiosidade para o texto original. Isabel Zambujal, escritora de livros para crianças, concorda com esta premissa — talvez por tê-la vivido na primeira pessoa. Quando, em 2011, lançou O Auto do Cruzeiro do Inferno, do Clube do Autor, uma adaptação do original de Gil Vicente O Auto da Barca do Inferno, visitou algumas escolas onde a obra era ensinada e percebeu que a interpretação dos clássicos pelos miúdos nem sempre é imediata. Teve, por isso, o cuidado de “recriar, respeitando” e de ser fiel aos comportamentos e significados das personagens originais, adequando-as a uma realidade que os mais novos já conheciam, fazendo-os sentirem-se mais próximos do que é antigo. Hoje, cinco séculos depois do original, não deixam de existir fidalgos, alcoviteiras e judeus: a diferença está na representação. “Tal como o lustre de tampões de Joana Vasconcelos é uma reinterpretação dos lustres de cristal que adornavam os palácios de famílias abastadas, e a música Alegre Casinha, dos Xutos & Pontapés, é uma recriação contemporânea do título original de Milu, o mesmo acontece com os clássicos da literatura.” Afonso Cruz, autor e ilustrador premiado reconhece a difi culdade de eleger um clássico favorito. Partindo do princípio de que há leituras obrigatórias na escola, considera que as adaptações infanto-juvenis “funcionam como isco para os originais”. Confrontado com a possibilidade de ele próprio emprestar as suas palavras a um clássico português, sentiu-se dividido e preferiu não escolher. “A obra poética de Pessoa seria mais fácil de interpretar por crianças e jovens se fosse acompanhada por desenhos alusivos à história.” E dá como exemplo o livro Não me Lembro como se Chama, histórias surrealistas russas, com ilustrações, que é lido a crianças e por crianças. “Os livros com bonecos tornam-se mais apetecíveis para crianças. Se o objetivo é pô-las a ler, então a aposta nas ilustrações pode ser um bom começo”, diz.

NELMA VIANA

Afonso Cruz é ilustrador e autor dos livros Para onde Vão os Guarda-Chuvas (Alfaguara Portugal), Assim, mas sem ser assim (Editorial Caminho) e Capital (Pato Lógico Edições).

QuandoPicture2 tenho uma ideia para um livro, não penso propriamente no público a quem se poderá dirigir. Tento que a tal ideia seja comunicada com eficácia e o que por vezes acontece é resultar num livro que não exclui crianças ou jovens (que é algo completamente diferente de ser especificamente dirigido a uma faixa etária). Normalmente, existe uma camada que pode ser facilmente fruída por crianças mas sem deixar de incluir uma interpretação subjacente, dirigida a um público de outras idades. Tento ainda incluir temas ou vocabulário que estão usualmente alheados do contexto infantil. É também para isso que servem os livros: semear questões nos leitores.

 

OUTROS LUSÍADAS

Quvascogmouraando escreveu Os Lusíadas para Gente Nova, publicado em 2012 pela Gradiva, Vasco Graça Moura teve como objetivo combater aquela que considerou ser uma “confrangedora desvalorização dos clássicos” nos programas escolares. O livro, destinado a crianças (e dedicado aos cinco netos do autor), apresentou-se numa versão simplificada e reduzida, focando-se nas passagens mais importantes, como antecipação da obra original. Teve o apoio do Plano Nacional de Leitura (PNL), sendo hoje apresentado em algumas escolas como introdução à epopeia de Luís Vaz de Camões.

 

UM PIRATA UMA ILHA E UM DESTINO
Vence 1.º prémio do Concurso Nacional Biblioteca Fnac Kids Juntar História, Geografia, Português, Picture1Educação Visual e TIC foi o segredo para o sucesso. Os alunos do 6.ºD da Escola Básica e Secundária do Nordeste, em S. Miguel, venceram o Concurso Nacional Biblioteca Fnac Kids e levaram o 1.º prémio para os Açores. O tema do conto surgiu na sequência das comemorações dos 500 anos da elevação do Nordeste a vila. Os alunos consideram que o livro serviu como “passaporte para viajar no tempo e no espaço”.
“A narrativa construída pelos alunos é uma aventura vivida no presente mas que conta, pelo meio, a história de um pirata do tempo dos Descobrimentos. Os alunos fizeram muito bem a ligação entre a história e os vários elementos naturais, históricos e culturais da ilha de S. Miguel, criando ainda um desfecho engraçado onde a ficção se mistura com a realidade: no final, as personagens que vivem a aventura decidem escrevê-la para participar no concurso da Fnac Kids”, disse Isabel Minhós Martins, membro do júri.

ulisses

ULISSES
Maria Alberta Menéres (texto)
e Isabel Lobinho (ilustrações)
Asa

Ulisses adapta a Odisseia de Homero e conta as façanhas de Ulisses, rei de Ítaca, adorado por todos. Fez muitas viagens à volta
do mundo e era considerado o mais valente dos mortais. Ulisses passou grande parte da vida navegando de aventura em aventura, por entre Ciclopes e Sereias ou tentando libertar-se da Feiticeira Circe para regressar à sua querida Penélope. A sua derradeira aventura acontece quando os gregos surpreendem os troianos escondendo-se dentro de um cavalo de madeira.

lusiadas

OS LUSÍADAS DE LUIZ VAZ DE CAMÕES CONTANDO ÀS CRIANÇAS E LEMBRADOS AO POVO
Adaptado por João de Barros (texto)
e André Letria (ilustrações)
Marcador

Era uma vez um povo de marinheiros e heróis que há mais de 500 anos quis descobrir o caminho marítimo para a Índia, terra de esplendor e riqueza, desejada mas muito difícil de alcançar. O destemido capitão Vasco da Gama lança-se no oceano Atlântico,
só conhecido até ao cabo das Tormentas, e dobrando esse cabo alimenta-se a esperança de quatro naus chegarem à ambicionada terra em segurança.

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