Ler pela primeira vez: vencedores do Man Booker

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Costuma dizer-se que um prémio é apenas um prémio, exceto quando é mais do que isso.

É uma afirmação que soa a verdade de La Palice, mas que nos deixa a pensar na duplicidade que pode assumir qualquer galardão: quando o vencedor é alguém que admiramos, trata-se de um merecido reconhecimento que apenas peca por tardio; quando não nos diz tanto, é apenas mais um prémio sem significado que provavelmente até só lhe foi atribuído para parecer bem.

Tudo isto para dizer que, no que a prémios diz respeito, alguns reúnem mais consenso do que outros. E, no que a prémios literários diz respeito, o Man Booker reúne mais consenso do que qualquer um.

Criado em 1969 e conhecido na época simplesmente como Prémio Booker – o “Man” foi adicionado em 2002, não por razões sexistas, mas devido ao patrocínio do Man Group –, este é o mais reputado prémio literário atribuído no Reino Unido. A sua “pontaria” para distinguir obras de qualidade permitiu-lhe, contudo, extravasar fronteiras e captar a atenção do mundo.

Se alguns dos livros distinguidos, como Breve História de Sete Assassinatos ou Wolf Hall (bem como a sua também vencedora sequela O Livro Negro), podem ser um pouco complexos demais para o leitor casual, outros há que se adequam aos mais diversos públicos. E são bons. Muito bons.


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Lincoln no Bardo

George Saunders

Nem podia ser de outra forma. A melhor leitura para qualquer pessoa que nunca tenha lido uma obra vencedora do Man Booker é precisamente o mais recente livro distinguido. Lincoln no Bardo, o primeiro romance de George Saunders, um autor mais conhecido pela escrita de contos e novelas, bateu títulos de autores tão consagrados como Paul Auster e Ali Smith na distinção de 2017. É um livro sobre luto. E fantasmas. Ou não se passasse numa única noite, algures entre a morte e o renascimento, enquanto o presidente americano Abraham Lincoln chora a perda do filho William Wallace, de apenas 11 anos. Combinando factos reais com elementos sobrenaturais, é uma narrativa bastante original, contada através de citações, como se de uma peça de teatro se tratasse.


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Os Filhos da Meia-Noite

Salman Rushdie

Quem disse que realismo mágico é coisa de sul-americanos? Neste clássico sobre um indiano com poderes telepáticos que nasce no exato momento em que o seu país conquista a independência, Salman Rushdie traça a evolução da Índia desde a revolta contra os britânicos. Distinguido com o Man Booker em 1981, o romance é também o detentor de uma honra única: em 2008, foi apontado o melhor entre todos os livros vencedores do Man Booker, numa eleição organizada para assinalar o 40.º aniversário do prémio britânico.


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Desgraça

J. M. Coetzee

Este é um daqueles livros que pode não ser indicado para leitores mais sensíveis. É que a “desgraça” que J. M. Coetzee anuncia no título e que serve de premissa para a história é verdadeiramente desoladora, envolvendo uma violação e a vandalização – e consequente destruição – de uma quinta de família. Mas neste romance, que deu a Coetzee o seu segundo Man Booker, em 1999, o foco não está no que aconteceu, mas em como superar a adversidade. Um livro repleto de simbolismos que até já foi adaptado ao cinema.


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A Vida de Pi

Yann Martel

Por esta altura, já quase todos terão pelo menos ouvido falar do multipremiado filme realizado por Ang Lee e centrado num jovem indiano que, após um naufrágio, se vê a bordo de um bote acompanhado por um tigre, uma zebra, um orangotango e uma hiena. Mas, por muito bom que seja o filme, o livro que lhe serve de base é ainda melhor. Vencedor do Man Booker em 2012, A Vida de Pi adota uma estrutura bastante criativa, mascarando-se de não ficção e fazendo-nos saltar entre o protagonista Pi e o próprio autor, Yann Martel. É uma história com tantas camadas que se nota algo diferente a cada nova leitura.


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O Deus das Pequenas Coisas

Arundhati Roy

Nos últimos vinte anos, e antes de O Ministério da Felicidade Suprema, este era o único livro de ficção escrito por Arundhati Roy. Mas a autora nunca deixou de ser falada. Porque este não é um livro qualquer. Ao jeito de Cem Anos de Solidão, é uma ambiciosa saga familiar que parte dos gémeos Estha e Rahel para nos mostrar como as coisas aparentemente insignificantes podem influenciar os nossos caminhos na vida. Venceu o Man Booker em 1997 e tem deslumbrado – e também chocado – leitores desde então.


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O Cerco de Krishnapur

J. G. Farrell

Krishnapur nunca existiu. É uma cidade indiana diretamente saída do imaginário de J. G. Farrell. E, no entanto, quando lemos este romance distinguido em 1973 com o Man Booker, acreditamos que poderia muito bem ter existido. A narrativa acompanha uma comunidade britânica que procura resistir à revolta levada a cabo por um exército de indianos. Só que a resistência não se faz apenas nas trincheiras. Ainda que a fome e a doença se apodere deles, os britânicos teimam em manter as luxuosas rotinas – incluindo o chá das cinco. Uma reflexão com alguma graça sobre o colonialismo.


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A Questão Finkler

Howard Jacobson

Pode um romance de humor vencer um prestigiado prémio literário? É um fenómeno raro, mas A Questão Finkler prova que é possível, tendo vencido o Man Booker em 2010. O protagonista da história é Julian Treslove. À ida para casa, uma noite, Julian é assaltado por uma mulher. Mas o que mais o incomoda é que lhe parece que, ao partir, a mulher lhe chama “judeu”. Julian não é judeu, mas os seus dois melhores amigos são. E o evento marca o início de uma obsessão por tudo o que é judaico.


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O Vendido

Paul Beatty

Saltando do humor assumido para a sátira, chegamos enfim ao livro vencedor do Man Booker em 2016. Paul Beatty diz tê-lo escrito apenas por estar sem dinheiro, mas a motivação foi mais do que suficiente para a construção desta análise corrosiva à sociedade americana. A premissa é fantástica: um afro-americano de classe média-baixa, desiludido com o estado atual das coisas, decide restaurar a escravatura e a segregação no seu bairro. Explica como e porquê na primeira pessoa, em tom de conversa – e esquecendo o politicamente correto –, neste que foi o primeiro romance escrito por um americano a vencer o Man Booker.


Por: Tiago Matos
Fotografia: Janie Airey

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