Ler pela primeira vez: Roberto Bolaño

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Roberto Bolaño morreu há 14 anos. Aquele que é considerado um dos autores latino-americanos mais importantes da sua geração continua a viver através da sua obra. Se ainda não aderiste à “Bolañomania”, aqui ficam dicas para começares a descoberta.

 

2666

 

Detetives Selvagens

 

Espírito da Ficção Científica

 

Terceiro Reich

 

 

2017 e a ressurreição de Bolaño
Ao longo do ano, a editora Quetzal vai trazer novidades do autor chileno às livrarias nacionais. Já em abril será lançada a obra inédita O Espírito da Ficção Científica. Segue-se, depois, a publicação do também inédito volume Patria, uma nova tradução de Os Detectives Selvagens, uma edição especial de 2666 e, no final do ano, a publicação – pela primeira vez em língua portuguesa – da coleção de contos Putas Assassinas.

Começou por escrever poemas, mas foram os romances que o transformaram num símbolo da literatura latino-americana. Adepto da vida boémia, foi só aos 40 anos de idade que Roberto Bolaño decidiu ganhar dinheiro através da escrita, abandonando a poesia e dedicando-se à prosa. O seu trabalho mais substancial (e reconhecido) acabou por surgir entre 1993 e 2003, ano em que morreu devido a uma insuficiência hepática.

Títulos atrativos e enigmáticos, combinados com enredos improváveis e viciantes, são duas das particularidades da escrita do autor chileno. As suas narrativas pautam pelos mistérios e acontecimentos inesperados, estimulando a curiosidade dos leitores sem descurar a intelectualidade dos enredos.

Não foi por acaso que, em 2008, lhe foi atribuído o conceituado National Book Critics Circle Award. Nunca leste Roberto Bolaño? Então vem conhecer alguns dos livros que melhor lhe servem de introdução.

O mais emblemático

Conhecer Bolaño é, inevitavelmente, conhecer 2666. Esta que é a sua obra mais icónica é também a mais indicada para um primeiro contacto com a Bolañomania. Amplamente premiado, o livro narra cinco histórias diferentes, escritas nos últimos cinco anos de vida do autor. A sua vontade era publicá-las em cinco volumes distintos – que correspondiam aos capítulos “A Parte dos Críticos”, “A Parte de Almafitano”, “A Parte de Fate”, “A Parte dos Crimes” e “A Parte de Archimboldi”. No entanto, acabaram por ser publicadas num único, já a nível póstumo, em 2004.

O que o torna especial? Por um lado, a extensão: sempre são 1008 páginas. Mas também a complexidade da história que liga os cinco núcleos de personagens entre si. De todas as pequenas narrativas, duas têm especial destaque: a que acompanha um grupo de amigos obcecado pelo lendário autor alemão Benno Von Archimboldi, e uma segunda sobre uma cidade mexicana palco de violentos crimes sexuais – e que teve como inspiração acontecimentos reais que remontam à década de 1990, na Ciudad Juárez, no México.

No quinto capítulo, as histórias unem-se e amarram as pontas soltas do livro. A ideia de que nada fica para trás é central em 2666. É um livro extenso, sim, mas que vinca bem a genialidade do autor e da sua narrativa repleta de possibilidades. Não admira, por isso, que o romance tenha sido eleito, no final de 2016, o melhor da língua espanhola nos últimos 25 anos.

Prosas incontornáveis

Publicada originalmente em 1998, a obra Os Detectives Selvagens só mereceu o devido reconhecimento internacional em 2004, já após a morte do autor, quando foi traduzida para inglês. É talvez uma das ficções mais autobiográficas de Bolaño, já que conjuga as suas vivências no México e na Europa com um enredo e leque de personagens idealizadas por si.

A história é a de Ulisses Lima e Arturo Belano, dois melhores amigos que decidem investigar o desaparecimento de Cesária Tinajero, poeta mexicana perdida de vista cerca de 20 anos antes. É mais uma confirmação da qualidade literária de Roberto Bolaño, à qual não faltam doses generosas de humor, ironia e mistério, também presentes em romances como Mousieur Pain, A Pista de Gelo ou Noturno Chileno.

Os inéditos

A morte, por vezes, não é um ponto final. Aliás, muitos dos trabalhos do escritor chileno foram publicados postumamente, como é o caso de O Terceiro Reich (escrito em 1989, mas lançado em 2010) e O Espírito da Ficção Científica (escrito em 1984, mas publicado este ano).

Esta última é uma narrativa especialmente curiosa, já que se debruça sobre a adolescência dos personagens que, mais tarde, apareceriam em Os Detectives Selvagens e 2666. São eles Remo Morán, um entusiasta da ficção científica, e Jan Schrella, um apaixonado por poesia. Diz-se, até, que os dois personagens, combinados, retratam o verdadeiro Bolaño. Será também, por isso, uma introdução perfeita ao autor.


Por: Ana Beatriz Oliveira

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