Ler pela primeira vez: Neil Gaiman

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Uma das mais aclamadas séries do ano deriva do romance Deuses Americanos, de Neil Gaiman. Ainda não conheces os livros deste autor britânico? Acredita, tens muito por onde escolher.

Neil Gaiman é um dos escritores mais interventivos nas redes sociais. No Twitter é seguido por mais de 2,6 milhões de pessoas, no Facebook por 925 mil e no Instagram por 173 mil.

Tinha quatro anos quando aprendeu a ler. “Dava-me prazer”, garante Neil Gaiman. “Aliás”, acrescenta, “eu era muito bom na maioria das disciplinas na escola, não porque tivesse alguma aptidão especial para elas, mas porque no primeiro dia de aulas davam-nos os manuais e eu lia-os logo a todos.”

Depois dos livros escolares, descobriu os de ficção. Cedo se apaixonou pela escrita de J. R. R. Tolkien – requisitou várias vezes O Senhor dos Anéis da biblioteca da sua escola –, C. S. Lewis, Lewis Carroll, Edgar Allan Poe, Alan Moore, Ursula K. Le Guin, Roger Zelazny e P. L. Travers.

Todos estes nomes o inspiraram – cada um à sua maneira – a tornar-se escritor. Mas P. L. Travers, autora de Mary Poppins, teve uma influência especial na forma como Gaiman cria as suas histórias. “Ela fez-me querer contar histórias que existissem para sempre, que fossem verdadeiras de uma forma que as coisas reais nunca pudessem ser”, explicou ao New York Times.

De facto, a imaginação de Neil Gaiman parece não ter limites. E adapta-se a todos os gostos. És fã de romances? Preferes banda desenhada, short stories ou livros infantis? Para um primeiro contacto com o universo mítico (e, por vezes, aterrador) deste autor britânico, opções não te faltam. Palavra de Estante.


Ser escritor é um trabalho muito peculiar: somos sempre nós contra uma folha de papel em branco e, muitas vezes, a folha de papel em branco ganha.


 

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Coraline

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Neverwhere

Os romances incontornáveis

Falar de Neil Gaiman sem referir Deuses Americanos é como falar de J. K. Rowling sem mencionar a saga Harry Potter. Lançado em 2001, este livro que se tornou um bestseller do New York Times combina o que de melhor se encontra na escrita do autor inglês: mitologia, mundos alternativos, magia, história e crítica à sociedade moderna. Além disso, inclui elementos tão cativantes e improváveis como deuses, zombies, goblins ou erotismo.

A história gira em torno de Sombra, que acaba de sair da prisão ao fim de três anos encarcerado. Ao tentar recuperar a sua vida, aceita trabalhar para um estranho que se apresenta como Sr. Quarta-Feira. Este homem misterioso é, na verdade, a encarnação de um deus antigo que contará com a ajuda de Sombra para uma grande missão: reunir o maior número possível de divindades antigas para combaterem os deuses modernos e, assim, evitar a sua própria extinção.

Mais de uma década depois de ser lançada, esta obra amplamente premiada continua a dar que falar, tendo sido este ano adaptada ao pequeno ecrã pelo canal britânico Starz. Alcançou, aliás, tanto sucesso, que não nos deixará tão cedo. “Faremos, provavelmente, cerca de cinco temporadas com base no primeiro livro e, quando estas estiverem terminadas, já haverá outro romance de Deuses Americanos”, contou o escritor ao jornal britânico The Independent.

Mas o imaginário singular de Neil Gaiman não se esgota por aqui. Se quisermos continuar a viajar pelo seu lado mais assombroso, nada melhor do que folhear Coraline. A jovem que dá nome a esta obra descobre uma porta misteriosa que lhe abre passagem para um mundo paralelo, um mundo que, inicialmente, parece fascinante, mas que rapidamente se revela perigoso. A sua luta para regressar a casa – e a possibilidade de nunca o conseguir – despertará emoções fortes no leitor. Que o diga Tim Burton, que em 2009 não resistiu a realizar um filme baseado nesta história.

Mais romances de Neil Gaiman? Com certeza. Ficarás igualmente bem impressionado com o autor se decidires começar por ler, por exemplo, Stardust. Não há como defini-lo de uma só forma: é, no fundo, uma estranha, mas agradável mistura de conto de fadas, fantasia e romance, com a melancolia inerente à escrita de Gaiman.

E por que não experimentares Neverwhere – Terra do Nada? Este livro é a materialização da série televisiva que o autor escreveu em 1996. Curiosamente, tornou-se até mais popular do que a própria série. Sem querermos revelar demais, podemos dizer-te que esta história tem fortes ligações a Deuses Americanos: apesar de ter Londres como pano de fundo, faz também referências a habitantes misteriosos da cidade e aos seus segredos mais obscuros, fazendo a divisão entre a Londres de cima e a Londres de baixo.


 

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Banda desenhada: o início

1984. Um Neil Gaiman de 24 anos estava na Victoria Station, em Londres, à espera do comboio, quando reparou numa cópia abandonada de Swamp Thing, de Alan Moore. Leu-a, fascinado, e apaixonou-se pelos comics. “Comecei a fazer visitas regulares e frequentes à loja Forbidden Planet, em Londres, para comprar banda desenhada”, recorda Gaiman.

Mais tarde, conheceu e tornou-se amigo do próprio Alan Moore. Foi nessa altura que começou a escrever banda desenhada. Uma das primeiras histórias que criou para a DC Comics foi Black Orchid e, curiosamente, uma das personagens acabou por dar origem a um dos seus maiores êxitos neste género literário.

Sandman – série publicada entre 1989 e 1996 – tem como foco Morfeu, personalização do Sonho. Ao fim de 70 anos preso, o protagonista vê-se em liberdade e reencontra os seus irmãos: Morte, Destino, Delírio, Desejo, Desespero e Destruição. Ao longo dos vários volumes, também não lhe faltam aventuras perigosas e encontros com inimigos como Lúcifer ou John Constantine.

Esta saga de fantasia e terror tornou-se um êxito tal que ofuscou outros grandes nomes da BD como Batman ou Super-Homem. “O Sandman tornou-se o primeiro sucesso extraordinário de séries de novelas gráficas, chegando a novos leitores, convertendo-os a este género e fazendo de Gaiman uma figura cultural icónica”, observou um dos executivos da DC Comics, Paul Levitz.


Um mundo com monstros, fantasmas e coisas que querem roubar o teu coração é também um mundo onde existem anjos, sonhos e esperança.


 

 

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Para fãs de short stories

Navegar por vários géneros literários tem sido uma prática regular de Neil Gaiman. Por isso, se és o tipo de leitor que prefere short stories a romances, tens também muito por onde escolher. Aliás, este é o tipo de histórias ideal para qualquer leitor que queira conhecer Gaiman pela primeira vez, já que permite várias e breves incursões nos misteriosos mundos criados pelo autor, servindo quase de teaser para o que podemos esperar da sua restante obra. Se bem que Gaiman consegue sempre surpreender-nos.

Vale a pena dares uma oportunidade a obras como Trigger Warning ou Fragile Things. Nelas, encontrarás um pouco de tudo: um conto que revisita o mundo de Deuses Americanos; um outro sobre Doctor Who; outro ainda sobre Sherlock Holmes; histórias de terror, fantasmas, ficção científica e muito mais. Prepara-te para sentires as emoções à flor da pele.


Há pessoas que pensam que as coisas que acontecem na ficção não acontecem realmente. Essas pessoas estão enganadas.


Por-Sorte-o-Leite

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Para os mais jovens

Histórias infantojuvenis também não faltam no repertório de Neil Gaiman. Há até quem coloque Coraline nesta categoria, embora a complexidade do seu mundo fale mais para graúdos do que para crianças.

Para aquelas que preferem histórias mais divertidas, livres de personagens e enredo assustadores, propomos Por Sorte, o Leite. Acredita, as coisas mais estranhas podem acontecer ao pequeno-almoço.

Para os mais pequenos que, tal como o Neil Gaiman dos tempos de infância, se deliciam com histórias mais misteriosas e peculiares, a oferta é ainda mais ampla. Em Hansel e Gretel, por exemplo, o autor recorre ao seu estilo obscuro para dar uma nova roupagem ao clássico dos Irmãos Grimm.

Já no mais recente The Sleeper and the Spindle, Neil recorre às figuras habituais dos contos de fadas – princesas, príncipes, guerreiros, entre outros –, envolvendo-os num enredo de magia negra. Promete enfeitiçar qualquer jovem leitor.

Para um público young adult, opções também não faltam. Por um lado, mantendo o registo das obras referidas anteriormente, vale a pena folhear A Estranha Vida de Nobody Owens. Potencialmente aterrorizadora (sugere-nos o título), esta obra acompanha um menino chamado Ninguém que, depois de ficar órfão, é acolhido e criado por um grupo de pessoas que vive num cemitério. E mais: há um assassino à solta – o mesmo que matou os pais de Ninguém.

Num estilo completamente diferente, e falando para os adolescentes que estão a lidar com os problemas sociais típicos da idade, Neil Gaiman propõe-nos Como Falar com Raparigas em Festas. Será preciso dizer mais do que isto?


Lê. Lê qualquer coisa. Lê o que dizem que é bom para ti e o que dizem que não presta. Vais encontrar aquilo de que precisas. Lê, simplesmente.


 

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O mais recente

Este ano, acabadinho de chegar, temos também Norse Mythology. Se, à semelhança de Neil Gaiman, te sentes inspirado pela mitologia, nada melhor do que mergulhares nesta obra. O que o autor nos apresenta é simples: uma interpretação dos grandes mitos nórdicos. Desde o nascimento dos “nove mundos”, passando pelo surgimento de divindades, criaturas anãs e gigantes, e pelo declínio das mesmas.

“A glória de alguns destes mitos vem do facto de parecerem certos”, explicou o autor ao The Guardian. “Mas, ocasionalmente, deparamo-nos com um e pensamos ‘Não. Não posso acreditar nisso. A sério que saímos de um cubo de gelo que uma vaca lambeu? Ok, se vocês dizem.”


Por: Carolina Morais
Fotografia: Sophia Quach

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