Ler pela primeira vez: Mário Zambujal

mario-zambujal-revista-estante-fnacFotografia: Miguel Baltazar

Começou como jornalista, apresentador de televisão e locutor de rádio. Tinha 44 anos quando publicou o seu primeiro livro. Hoje, com 80, o homem que abomina as máquinas continua a escrever à mão e a presentear-nos com o seu habitual sentido de humor e olhar satírico. Se tens curiosidade pela obra de Mário Zambujal mas não sabes por onde começar, aqui ficam algumas dicas.

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Tinha um copo de whisky na mão quando se sentou em frente de um pedaço de papel em branco e abraçou a escrita pela primeira vez. Foi há 36 anos. Aqueles que passou em redações de jornais deram-lhe o gosto pelas palavras simples e claras. O tom humorístico e satírico que quase sempre empresta às obras, esse, nasceu consigo.

Apaixonado pelas pessoas e pela textura das páginas de jornal, Mário Zambujal é também o presidente do Clube de Jornalistas e já tem mais de dez livros publicados. O mais recente, Romão e Juliana, tem escassas semanas de vida e mantém-se fiel ao estilo narrativo do autor. Mas há muito mais por onde escolher. Ora vejamos.

Começar pela malandragem

Não há livro de Zambujal mais sonante do que, talvez, o seu primeiro. Crónica dos Bons Malandros tem a capacidade de divertir os jovens de hoje da mesma forma que fez com os seus pais e avós, há mais de três décadas. No centro da ação está um gangue contratado para roubar obras de arte do Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Com o galgar da narrativa, ficamos a conhecer em pormenor cada um dos vilões e testemunhamos, em primeira mão, o assalto e tudo o que de mal corre durante o mesmo. A história revelou-se tão bem-sucedida que, quatro anos após a publicação (em 1984), dava origem a um filme. Ainda assim, o autor desvaloriza-o: “Este foi um trabalho de jornal que, por acaso, é ficção.”

Os mais emblemáticos

À Noite Logo se Vê, o terceiro livro do autor natural de Moura, em Beja, propõe apenas dois ingredientes para uma receita de sucesso: mistério e humor. Acompanhamos, por um lado, as divertidas investigações sobrenaturais de Mino, e, por outro, o dia a dia inquietante das personagens que povoam a pequena cidade onde a ação se desenrola. Originalmente publicado numa coleção alusiva ao universo fantástico, o livro usa esse elemento de fantasia não para se afastar do mundo real, mas para o moldar à sua maneira e levá-lo a um extremo hilariante.

Agora, talvez se questionem: “E onde estão as histórias de amor? Onde estão os romances que nos fazem palpitar?” Mário Zambujal também os tem, claro. Com sete anos e um oceano entre si, a pequena Eva Teresa e o já maduro Filipe (que seria, inicialmente, o seu cunhado) alimentam uma paixão galopante que cresce entre o Brasil e Sintra na obra Dama de Espadas. Não é caso para dramas, atenção, porque o inconfundível sentido de humor do autor continua presente à medida que se desenvolve o romance atribulado.

Para quem prefere histórias mais sucintas – pequenas ficções, digamos assim –, Zambujal oferece ainda uma coleção de contos, compilados em Longe é Um Bom Lugar. O Doutor Ângelo, médico que ambiciona tornar-se romancista, é o narrador de um deles, dividindo-se perante o leitor entre um romance real e uma trama fictícia que tanto se esforça por criar. Uma vez mais, surpresas e humor não faltam, mas é-nos também lançado o desafio de refletir sobre cada uma das situações, levando-nos até a colocarmo-nos nelas.

O mais recente

E agora o que nos traz aqui. Romão e Juliana chegou às prateleiras no final de novembro para reimaginar o clássico Romeu e Julieta, de William Shakespeare, à moda portuguesa. Para isso, Mário Zambujal recua ao reinado de D. João V, no século XVIII, durante o qual os jovens protagonistas que dão nome ao livro tentam derrubar as barreiras sociais e humanas que se opõem à sua história de amor. Esta “versão risonha” que, garante o escritor, não acaba em tragédia, desafia o público a interpretar o final à sua maneira e a decidir se este é ou não feliz.


Por: Carolina Morais

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