Ler pela primeira vez: Mario Vargas Llosa

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O Prémio Nobel de Literatura de 2010 esteve em Portugal recentemente a falar do seu último livro, Cinco Esquinas. Se ainda não leste nada deste escritor peruano, deixamos-te alguns conselhos para começares.

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“A literatura forma cidadãos inquietos, com imaginação, com sentido crítico. Exige um esforço intelectual. A boa literatura incentiva o espírito crítico relativamente ao que nos rodeia e é fundamental para a formação dos cidadãos.” Este sentimento de inquietude de que falou Mario Vargas Llosa numa sala repleta de gente no Centro Cultural de Belém, no início de outubro, está presente em muitas das suas obras desde o primeiro romance, A Cidade e os Cães, ao mais recente, Cinco Esquinas.

Por cá contou ainda que o Nobel de Literatura que recebeu em 2010 resultou em dois sentimentos opostos: “Uma semana de felicidade e um ano inteiro de horror”, disse entre gargalhadas. Confessou que quase não conseguiu escrever nesse ano, devido à gestão dos vários eventos em que teve de estar presente. Aos 80 anos, Mario Vargas Llosa diz que “começamos a morrer quando perdemos a capacidade de trabalho e as emoções”. Da nossa parte, esperamos que Vargas Llosa ainda tenha muito de ambas pela frente.

Para começar

O escritor recebeu o Nobel pela carreira politicamente ativa e literariamente ambiciosa. É por estas duas vertentes que vamos começar a explorar Mario Vargas Llosa. Lançou o seu primeiro romance, A Cidade e os Cães, em 1963. Autobiográfica, a estória passa-se no Colégio Militar Leoncio Prado, em Lima, onde o violento código de conduta faz parte do dia a dia dos cadetes. O próprio Vargas Llosa passou por esta experiência no colégio, fruto da educação que o pai defendia. Tido como um dos clássicos da literatura latino-americana, o livro foi traduzido para 30 idiomas e é uma boa forma de começar a ler o autor peruano, até pela forma característica como este o narra.

Já consagrado enquanto escritor, lança, em 2000, A Festa do Chibo, um romance onde transparece a faceta de intervenção política de Mario Vargas Llosa. O livro retrata o clima de opressão e terror durante a ditadura de Rafael Leónidas Trujilla na República Dominicana, mais concretamente os episódios que antecederam o seu assassinato e a consequente democratização do país pelo presidente Joaquim Balaguer. Aqui, Vargas Llosa explora a sede de poder de alguns seres humanos e a memória curta dos povos relativamente à História.

Outro livro que vale a pena explorar é Quem Matou Palomino Molero?. Num registo algo semelhante a Crónica de uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez, o autor relata a investigação da estranha morte de um aviador, assim como as peripécias e imprevisibilidades que lhe estão associadas.

Os mais carnais

Em Travessuras da Menina Má, Ricardo, o narrador, conta-nos o seu romance não correspondido com Lily, a menina má, por quem se apaixona à primeira vista. Ao longo de quatro décadas, a misteriosa e sensual Lily vai-se cruzando com o narrador em cidades como Lima, Paris, Londres e Madrid, nas quais têm sempre encontros românticos. Mesmo quando não está na vida do diplomata, a presença de Lily é forte, constante e dominadora.

No mais recente romance, Cinco Esquinas, Mario Vargas Llosa inicia a estória com a descrição de uma cena erótica entre duas amigas. De fazer subir a temperatura. Em entrevista ao El País, Vargas Llosa é bastante claro quanto à opção: “Se um romance no qual o erotismo desempenha um papel importante não deixa o leitor excitado é porque fracassou.” É um livro onde são relatadas, de forma intercalada, as manobras da ditatura de Fujimori, com o jornalismo “amarelo” (como é conhecido o jornalismo tabloide no Peru) ao serviço do poder e o romance entre duas amigas – e mais tarde um dos seus maridos.

O primeiro fora do Peru

Em 1982, Mario Vargas Llosa escreve a sua primeira estória fora de território peruano. Em A Guerra do Fim do Mundo, o autor debruça-se sobre a Guerra dos Canudos, influenciado pela leitura, anos antes, de Os Sertões, de Euclides da Cunha. “Ler Os Sertões mudou a minha vida e fez-me entender melhor o que é a América Latina e, sobretudo, o que não é a América Latina”, disse. Canudos é uma localidade do Nordeste brasileiro que, no final do século XIX, foi palco de uma violenta guerra civil na qual morreram milhares de brasileiros, fruto de um movimento “messiânico”.

Inicia a escrita deste romance em 1977 e termina-o três anos depois. Nele lemos a estória de António Conselheiro – que prevê o fim do mundo – e de um dos conflitos mais tenebrosos da história do Brasil. Condenado pela Igreja, Conselheiro leva os seus seguidores a construir uma cidade em Canudos, aquela que será, na realidade, uma nova utopia. A narrativa trágica deste livro e os personagens – uns reais e outros imaginados – tornam o livro imperdível para quem quer conhecer melhor a obra de Llosa.


Por: Catarina Sousa

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