Ler pela primeira vez: literatura nórdica

A nova literatura nórdica tem vindo a conquistar leitores um pouco por todo o mundo. Saiba por onde a pode começar a explorar.

Há duas formas de definir a literatura nórdica. A mais evidente é que se trata de literatura produzida por autores naturais da Escandinávia, região que inclui países como Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia e Islândia. Em simultâneo, é um género marcado pela atmosfera melancólica, pela brutal franqueza na forma como as emoções são retratadas e pela ilusão das aparências. Depois de um período de maior divulgação a meio do século XX, a literatura nórdica desapareceu gradualmente das livrarias portuguesas até que a saga Millennium, de Stieg Larsson, e uma vaga de novos thrillers a reapresentou ao público do nosso país. Mas se os únicos exemplos deste tipo de literatura que continua a conhecer são o Kalevala e os contos de Hans Christian Andersen, este artigo é para si.

A saga Millennium 

Os primeiros anos do século XXI estabeleceram os autores nórdicos como os melhores autores de thrillers e romances criminais da atualidade. Em 2005, um ano após a morte do sueco Stieg Larsson, é publicado Os Homens que Odeiam as Mulheres, em cujo enredo um jornalista caído em desgraça e uma hacker com um passado conturbado unem esforços para investigar um misterioso desaparecimento. O livro, primeiro volume de uma trilogia que inclui A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo e A Rainha no Palácio das Correntes de Ar, atingiu um sucesso impressionante um pouco por todo o mundo e serviu de introdução à nova literatura nórdica para muitos leitores. Também inspirou, mais recentemente, A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha, um quarto volume, escrito por David Lagercrantz. É um ótimo ponto de entrada no género.

Thrillersthrillers e mais thrillers 

Mas nem só de Millennium vivem os policiais nórdicos. Também na Suécia, autoras como Åsa Larsson ou Camilla Läckberg dão cartas com os seus romances. Embora não necessitem de ser lidos por ordem, os primeiros livros publicados por ambas são boas opções para quem quer conhecer os seus estilos. Aurora Boreal, de Larsson, é a história de uma advogada que tenta descobrir o culpado do homicídio de um famoso pregador; A Princesa de Gelo, de Läckberg, é protagonizado por uma escritora e um investigador que procuram descobrir a verdade por trás do aparente suicídio de uma jovem.

Mas não se pense que só a Suécia é capaz de produzir bons romances criminais. O norueguês Jo Nesbø já vendeu milhões de livros em todo o mundo, em especial graças a uma série protagonizada pelo inspetor Harry Hole. Não sendo o primeiro livro em que surge o personagem, a melhor introdução à obra do autor será porventura O Pássaro de Peito Vermelho, que até já foi eleito o melhor romance criminal norueguês de sempre.

A Noruega também é berço de Karin Fossum, conhecida como a “rainha do crime” no seu país. O Olhar de um Desconhecido, já adaptado ao cinema, é uma eficaz demonstração dos seus talentos narrativos. Se dúvidas subsistirem, O Guardião das Causas Perdidas do dinamarquês Jussi Adler-Olsen e A Mulher de Verde do islandês Arnaldur Indriðason provam a apetência dos autores nórdicos para a exploração de enredos criminais.

Intimidade exposta 

No entanto, seria injusto reduzir a literatura nórdica à proliferação de thrillers, até porque o caráter intimista das obras destes países dá azo a livros de sucesso nos mais diversos géneros. É o caso de A Morte do Pai, uma autobiografia em vários volumes escrita pelo norueguês Karl Ove Knausgård, que surpreendeu o mundo com a descomplexada franqueza com que expõe os mais íntimos detalhes da vida do autor.

Outro nome de relevo é o da finlandesa Sofi Oksanen. O seu romance histórico A Purga explora a ocupação soviética da Estónia através de duas mulheres que tentam esquecer os perturbantes acontecimentos dos respetivos passados. O livro venceu vários prémios, foi traduzido para 38 línguas e lançou Oksanen como uma das principais autoras europeias da atualidade.

O intimismo nórdico estende-se igualmente às narrativas de tom sobrenatural. Em Deixa-me Entrar, do sueco John Ajvide Lindqvist, um rapaz de 12 anos, vítima de bullying, estabelece uma ligação com uma misteriosa rapariga e assim permanece mesmo quando descobre que ela é, na verdade, uma vampira. Um livro que faz uso do fantástico para refletir sobre o poder da amizade.


Por: Tiago Matos

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