Ler pela primeira vez: Literatura de humor

Recheada de crítica, sarcasmo e ironia, a melhor escrita de humor é aquela que faz o leitor pensar e não só somente rir. Se pensa que o humor vem apenas nos filmes engana-se, porque nas páginas dos livros a piada é outra.

Fazer rir alguém recorrendo à imagem é teoricamente fácil. Mas quando a ferramenta é apenas um conjunto de palavras encadeadas nas páginas de um livro, a tarefa é bastante mais complexa. O gancho de toda a escrita de humor é a jigajoga entre as palavras capaz de fazer rir até o mais sisudo dos leitores. Curioso é perceber que mais facilmente nos rimos do mal do que do bem. Dos clássicos da literatura aos autores da contemporaneidade, o riso atravessa gerações.

A coleção dos clássicos 

A Tinta da China lançou uma coletânea de literatura de humor, orquestrada por um dos mais aclamados humoristas portugueses, Ricardo Araújo Pereira. E quem diria que os autores clássicos seriam a melhor forma de provocar o riso a leitores contemporâneos? A verdade é que Charles Dickens, S. J. Perelman, Jaroslav Hasek ou Robert Benchley tiveram veia para a escrita de humor, que volta a fazer fulgor com esta coleção.

Os Cadernos de Pickwick, de Charles Dickens, são um clássico da comédia de situação e o exemplo de que o humor, quando bem escrito, transcende gerações. Um ingénuo bem-intencionado, um péssimo poeta, um desportista desastrado e um pinga-amor celibatário. Um livro inocente sobre a inocência, que se perde ao longo das páginas.

Na sua primeira edição integral em português, O Bom Soldado Švejk, de Jaroslav Hašek, enreda as aventuras e desventuras do soldado Švejk na Primeira Guerra Mundial. O absurdo da guerra, a amizade, a religião e a morte numa obra onde só a leviandade do autor é capaz de contornar a tragédia através da paródia e da comédia.

Há ainda Wit – Ensaios Humorísticos, de Robert Benchley, que reúne a obra de um dos maiores enciclopedistas do humor do seu tempo. É fácil escrever sobre temas que contêm a sua própria graça. Afinal, difícil é levantar os temas mais absurdos e fazê-los arrancar o riso aos leitores.

Da paródia à inglesa ao humor americano

O humor à moda inglesa é conhecido pelos famosos sketches do grupo Monty Python na série Monty Python’s Flying Circus. Douglas Adams foi guionista de algumas destas peripécias e brindou igualmente a literatura de humor com a saga À Boleia Pela Galáxia. Nesta, a Terra é destruída para abrir caminho para uma autoestrada intergaláctica. Fará sentido? Esta mistura de ficção científica e nonsense tornam o humor de Douglas Adams surpreendente.

Da América contemporânea, David Sedaris apresenta uma escrita ostensivamente autobiográfica e autodepreciativa. Todos temos histórias hilariantes, mas Sedaris vive no limiar do absurdo. Estagiou numa morgue, ofereceu um esqueleto verdadeiro como prenda de anos e fez corridas de natação com uma mulher com síndrome de Down. Em Diário de Um Fumador, torna bizarra uma experiência vivida por milhões de pessoas: deixar de fumar.

Também Prosa Completa, de Woody Allen, reúne num só volume os textos de Sem Penas, Para Acabar de Vez Com a Cultura e Efeitos Secundários. A coletânea de 52 textos é demonstrativa do humor característico e da versatilidade das palavras do escritor.

O calão também resulta 

Que mais se pode utilizar para fazer rir alguém? Palavrões e linguagem ofensiva. O Livro do Filho da Puta, de Manuel Maria Tolentino, é um livro sobre a maldade humana no sentido mais lato do termo. A inveja, o ressentimento e o rancor numa escrita onde o leitor revê a sociedade do seu tempo.

Outro exemplo é O Pequeno Tratado da Intolerância, de Charb, caricaturista e jornalista francês, que ri do que quer e quando quer. Um retrato da intolerância das pessoas perante as coisas mais banais que as rodeiam.


Por: Pedro Venâncio

Gostou? Partilhe este artigo: