Ler pela primeira vez: Gabriel García Márquez

Gabriel García Márquez mostrou que a realidade pode ser mágica. Se ainda não se aventurou em nenhuma das suas obras, saiba onde começar.

Há quem o considere o mestre do realismo mágico. Carlos Fuentes descreveu-o como o melhor escritor da língua espanhola desde Cervantes. Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia, referiu-se a ele como o maior colombiano que alguma vez viveu. Concorde-se ou não com isto, é certo que Gabriel García Márquez é um nome incontornável na literatura mundial do século XX. Saiba por onde começar se ainda não leu nenhum dos seus contos, novelas ou romances.

Histórias de pessoas reais 

Um dos principais talentos de Gabriel García Márquez é a honestidade com que transpõe para a ficção a por vezes cruel realidade da Colômbia do seu tempo. Isto apesar de não se abster de incluir personagens bizarros ou situações inusitadas nas suas narrativas. O escritor opta com frequência por atribuir a pobres e desprivilegiados o foco dos enredos, acompanhando-os nas rotinas e descobertas diárias.

A ilustrar precisamente isto, um bom ponto de partida para a sua obra é Ninguém Escreve ao Coronel, uma curta novela sobre um velho coronel que vive com a mulher no limiar da pobreza, depositando num galo todas as esperanças de uma vida melhor. García Márquez chegou a considerá-lo o seu melhor livro e o desfecho é verdadeiramente memorável.

Outra novela que pode servir de introdução ao autor é Crónica de uma Morte Anunciada, baseada na história verídica de um homem assassinado como forma de vingar a honra de uma mulher que rejeitou. García Márquez adota aqui uma originalidade curiosa, na medida em que o crime é anunciado logo nas primeiras palavras e o mistério reside antes na causa que levou à morte.

Histórias de amor 

Um tema que o autor colombiano nunca se cansou de explorar foi o amor – embora o associe muitas vezes ao conceito de solidão. É o caso de O Amor nos Tempos de Cólera, à primeira vista um romance “simples” sobre a paixão aparentemente eterna – mas na maior parte do tempo irrealizada – entre Florentino Ariza e Firmina Daza. Inspirando-se na relação dos próprios pais, García Márquez deixa, no entanto, implícito que o amor é muitas vezes um exercício de solidão. A frase que inicia o romance serve-lhe de melhor sinopse possível: “Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas recordava-lhe sempre o destino dos amores contrariados”.

Outro livro sobre amor com uma primeira frase marcante é Memória das Minhas Putas Tristes, a última novela de García Márquez que, curiosamente, é uma ótima opção de leitura para quem se pretende iniciar no autor: “No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”. O tema pode parecer chocante, mas o autor trata de forma surpreendentemente enternecedora a história de um jornalista que descobre pela primeira vez o amor já no fim da vida e com uma prostituta menor de idade.

Histórias incontornáveis 

Não obstante os vários livros que escreveu, Gabriel García Márquez é para muitos sinónimo de Cem Anos de Solidão. A obra que deu a ganhar ao autor o Prémio Nobel de Literatura é, por isso, uma opção lógica para quem deseja ler pela primeira vez um livro do colombiano. A narrativa acompanha uma única família ao longo de sete gerações e dá-nos a conhecer em profundidade Macondo, uma das cidades fictícias mais célebres da literatura, inspirada na própria cidade natal de García Márquez. É também um exemplo perfeito de realismo mágico, na medida em que as relações de causa-efeito moldam os acontecimentos, mantendo sempre o enredo vivo. E, mesmo que nunca tenha lido García Márquez, já deverá pelo menos ter ouvido falar da magnífica frase que introduz a história: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo”.


Por: Tiago Matos

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