Ler pela primeira vez: Banda Desenhada

Saiba o que faz da banda desenhada um género tão apetecível para tantas pessoas e aventure-se num mundo em que existem livros para todos os gostos.

Não compreende o apelo da banda desenhada? Acha que os livros aos quadradinhos se destinam apenas a crianças? Duvida seriamente que narrativas com super-heróis mascarados possam ser tão ou mais complexas que obras literárias “tradicionais”? Este artigo é para si.

Os primeiros heróis 

Pode parecer-lhe surpreendente, mas a banda desenhada é um mundo com espaço para os mais distintos gostos. No entanto, por ser um género suportado por ilustrações e que inclui uma quantidade limitada de texto, é muitas vezes associado a um público infantil. A ideia não está inteiramente errada. A banda desenhada pode, de facto, servir de introdução à leitura e na fase formativa não encontrará melhores livros do que os de Turma da Mônica, Walt Disney – em particular as histórias de Carl Barks ou A Saga do Tio Patinhas de Don Rosa –, Astérix, Mafalda ou Calvin & Hobbes, tanto na vertente do entretenimento como na de transmissão de valores. Com o passar dos anos, outros heróis vão surgindo: Tintin, Lucky Luke, Corto Maltese. Ou até, quem sabe, o português Jim Del Monaco. Mas o apelo da banda desenhada não termina nesta fase.

Os super-heróis 

Quando se pensa em banda desenhada, pensa-se automaticamente em nomes como Super-Homem, Batman, Homem-Aranha, Hulk ou Wolverine. Milhares de super-heróis mascarados, encapados ou pelo menos musculados envolvem-se em incessantes disputas que dão azo às mais rocambolescas aventuras. Com tantas sagas, é fácil perdermos o fio à meada. Mas, se pondera arriscar a entrada no universo dos super-heróis, saiba que há histórias que não necessitam de grande contextualização. E que são para gente grande.

Um dos escritores de maior destaque neste género chama-se Frank Miller. O americano é responsável por obras como Sin City – A Grande Matança e 300, mas também é conhecido por acrescentar novas e complexas dimensões a super-heróis previamente “estabelecidos”, como Demolidor e Batman. Deste último destacam-se Batman: Ano Um, uma excelente introdução ao vigilante de Gotham City (até porque descreve os primeiros anos da vida de Bruce Wayne e o que o levou a querer ser Batman), e Batman: O Cavaleiro das Trevas, um olhar quase distópico sobre a cidade, uma década depois de o homem-morcego se ter retirado.

Outro livro de Batman que vale a pena ler e lhe poderá servir de entrada no universo dos super-heróis é Batman: The Killing Joke, de Alan Moore, um thriller alucinante – com um desfecho inesquecível – focado no confronto de ideias com Joker. Moore é também o autor de Watchmen, que oferece uma nova perspetiva sobre os super-heróis, tendo lugar numa realidade em que estes estão proibidos por lei.

Os provocadores 

Mas Alan Moore é um nome a reter também por outras razões, nomeadamente as narrativas provocatórias que desvendam os males da sociedade e convidam o leitor a adotar novas formas de pensar. É o caso de V for Vendetta, uma distopia centrada num anarquista que esconde o rosto por trás de uma máscara de Guy Fawkes enquanto planeia uma revolução popular contra o regime totalitário do seu país. Também From Hell dá a conhecer uma conspiração real a partir de uma interessante teoria sobre a verdadeira identidade (e objetivo) de Jack, o Estripador.

Outra proposta imperdível para quem gosta de ser desafiado a pensar e a tomar partido é o célebre manga Death Note, de Tsugumi Ohba. O enredo acompanha Light Yagami, um jovem estudante que descobre um caderno muito especial, que lhe permite decidir a morte de todas as pessoas cujo nome lá escreve. A surpreendente utilização que ele dá a este instrumento – e os consequentes duelos mentais com o bizarro L – é capaz de prender a atenção de qualquer leitor.

Mas se não é um grande apreciador de fantasia, talvez a melhor opção seja Ghost World, de Daniel Clowes. É a história de duas raparigas adolescentes, muito críticas nas suas perceções do mundo e das pessoas que as rodeiam, que se preparam para entrar no “mundo adulto”. Uma narrativa contemplativa que levanta várias questões sobre a incerteza do futuro.

Os introspetivos 

Existem ainda autores para os quais a banda desenhada é o formato ideal para uma autobiografia. Referência incontornável do género e a única novela gráfica a ser distinguida com o Prémio Pulitzer, Maus transforma os judeus em ratos, os alemães em gatos, os americanos em cães e os polacos em porcos numa emocionante memória do Holocausto que é também a história do pai do autor (Art Spiegelman) e da difícil relação entre ambos.

Persépolis, da iraniana Marjane Satrapi, é outro livro que transcende géneros e que conquistou tanto a crítica como o público com a descomplexada memória da infância e juventude da autora durante e após a revolução islâmica no seu país.

Existem mais exemplos semelhantes: Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar de Alison Bechdel; Blankets de Craig Thompson; Rugas de Paco Roca; e O Amor Infinito Que Te Tenho do português Paulo Monteiro. Boas opções para se encontrar na banda desenhada.


Por: Tiago Matos

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