Ler pela primeira vez: Astérix

Os irredutíveis gauleses estão há mais de meio século a divertir o mundo e contam este mês com um novo volume nas livrarias. Já conhece Astérix e companhia?

Eis o que precisa de saber: estamos no ano 50 a. C. e toda a Gália se encontra ocupada pelos romanos à exceção de uma pequena aldeia que teima em resistir aos invasores. É aqui que vivem Astérix, Obélix e dezenas de outros bravos – e hilariantes – gauleses. É também aqui que o druida Panoramix produz uma poção mágica capaz de tornar momentaneamente invencíveis todos aqueles que a bebem. É, aliás, este o segredo da resistência da aldeia.

Astérix nasceu das mentes de René Goscinny e Albert Uderzo. Quando o primeiro morreu, em 1977, Uderzo tomou a solo as rédeas do projeto. Retirou-se depois, em 2009, e a banda desenhada passou para a dupla Jean-Yves Ferri e Didier Conrad. Contam-se, até ao momento, 36 volumes de aventuras do pequeno gaulês, a mais recente das quais publicada este mês: Astérix – O Papiro de César. Saiba por onde começar se nunca teve oportunidade de as ler.

O primeiro 

Os livros de Astérix podem ser lidos individualmente sem grande necessidade de contexto, mas talvez prefira começar pelo princípio. Em Astérix, o Gaulês, originalmente publicado em 1961, são apresentados Astérix, Obélix – embora este surja ainda como um mero esboço do que virá a ser – e Panoramix, que acaba por estar no centro da ação ao ser raptado pelos romanos a fim de lhe ser extorquida a receita da poção mágica. A primeira aventura inclui alguns detalhes narrativos que fogem à norma posteriormente estabelecida – por exemplo, o desafinado bardo Assurancetourix termina a história sentado à mesa no banquete, algo que lhe é proibido a partir daí –, mas revela já o corrosivo e refinado humor de Goscinny e Uderzo. O livro foi, de resto, considerado um dos melhores do século numa sondagem publicada no Le Monde em 1999.

Os mais emblemáticos 

Muitas foram as aventuras protagonizadas pelo bizarro grupo de gauleses em mais de 50 anos. Algumas foram adaptadas ao cinema, outras a videojogos, e a série encontra-se atualmente traduzida para mais de 100 línguas, incluindo mirandês. Várias narrativas exploram de forma cómica eventos factuais históricos. É o caso de Astérix e Cleópatra (1965), na qual os gauleses são apanhados no meio de uma acesa disputa entre Júlio César e Cleópatra. Pelo meio percebe-se que Obélix é o verdadeiro culpado por a Grande Esfinge de Gizé não ter nariz. Apesar de não o ter feito de propósito.

Em Astérix Legionário (1967), é a Legião Estrangeira Francesa que é satirizada. Tudo começa quando Obélix se apaixona por Falbala, uma bela jovem que, no entanto, já tem namorado. A fim de a consolar quando este é incorporado à força na Legião Romana, Obélix (e Astérix) alistam-se também eles no exército romano, dando azo a uma das mais divertidas aventuras da dupla.

Outra história inesquecível é a de Astérix nos Jogos Olímpicos (1968). Astérix e Obélix, treinados por Panoramix, rumam a Atenas para participar nos Jogos Olímpicos mas são recebidos com a notícia de que a poção mágica é considerada doping e, como tal, proibida na competição. Astérix decide, não obstante, manter-se em prova sem qualquer auxílio químico. Um clássico que serve também de comentário à cultura do doping no desporto.

O mais recente 

Embora as histórias de Astérix se situem numa época longínqua, os livros não se coíbem de satirizar a realidade dos nossos dias. Obélix e Companhia (1976) é uma paródia ao capitalismo e Astérix – O Grande Fosso (1980) é uma condenação ao Muro de Berlim. A tendência mantém-se até hoje, com Astérix – O Papiro de César, o mais recente volume da série, a centrar-se no papel fulcral da informação, passando pela propaganda e pelas tentativas de a controlar de modo a influenciar a opinião pública. Bem a propósito, um dos personagens da aventura será um jornalista inspirado em Julian Assange. Outros terão sido, de acordo com o novo argumentista Jean-Yves Ferri, inspirados em elementos do governo de Nicolas Sarkozy. Curiosidades que servem de apelo extra para se iniciar no tão distante (mas ao mesmo tempo tão próximo) mundo de Astérix.


Por: Tiago Matos

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