Lê na íntegra a história vencedora do Miniconto Fantástico FNAC

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A FNAC lançou o desafio a todos os fãs de literatura fantástica: escrevam um conto inserido no género, com um máximo de 800 palavras, e enviem-no para avaliação de um júri selecionado pela revista BANG!. A. M. Catarino respondeu ao repto e criou a história vencedora que podes ler na íntegra abaixo. Mas mantém-te atento: está a decorrer uma nova edição do passatempo. Vais participar?

O CAÇADOR DE APOCALIPSES

Por: A. M. Catarino

Por certo não duvidarão da minha palavra, se vos afiançar que o reencontrei naquele titânico edifício de vidro e metal que deteve o epíteto de maior centro comercial da Europa durante parcos 6 meses. Descobri-o inadvertidamente num pequeno átrio, no quiosque de venda de cartões de crédito duma famosa instituição financeira. “Cartão de crédito na hora”, apregoava o insinuante letreiro luminoso. Observei-o, prudentemente encoberto pela distância. Era como ver-me ao espelho – o reverso do que sou: o melhor de mim, mas virado do avesso.

Um apocalipse continuava a assentar-lhe divinamente sobre os ombros… Bem vestido, modos agradáveis e o cabelo loiro cuidadosamente penteado para trás, malgrado as duas madeixas rebeldes logo acima da testa, memória de saliências que nenhum gel poderia desfazer. Havia uma lâmpada defeituosa no teto. Quando a luz piscava e a sombra mutilava a luz do corredor, a silhueta denunciá-lo-ia sem problemas a um observador mais atento. Isto se os visitantes não passassem absortos pelas montras e pelo retângulo luminoso do telemóvel.

Despedia-se naquele momento dum jovem casal, que avançou para dentro duma loja de telemóveis, obviamente para inaugurar o cadastro do novo cartão de crédito. Deslumbrado consigo próprio, lançou o olhar em redor, esgar vagamente cruel, à cata de nova presa.

Estremeceu quando deu comigo a observá-lo. Não creio que tenha ficado particularmente feliz por me ver (aquele chicotear da cauda não enganaria ninguém), mas de imediato embuçou toda a inconveniência do rendez vous num generoso sorriso.

– Há quanto tempo!

– Séculos, não?

– Talvez apenas décadas.

– Estou a ver que agora o ramo é outro…

– Foi muito difícil encerrar portas, mas temos de nos adaptar aos novos tempos.

Aproximei-me do balcão, curioso com a papelada em cima do balcão. Deu um salto e empilhou precipitadamente os documentos num molhe que guardou na gaveta. Ainda vi a assinatura dos clientes mais recentes, garatujada a sangue ainda fresco no fundo da página. O sangue continua a destilar as vãs esperanças da desamparada multidão.

– Vejo que as coisas não mudaram assim tanto desde o nosso último encontro…

– Lamento ter abandonado a sua firma, mas já não me sentia realizado. A minha intenção nunca foi roubar clientela, mas, na verdade, não obriguei ninguém a vir comigo.

– Sempre fui a favor da liberalização dos mercados! A opção final é sempre do consumidor! Não pressentindo hostilidade nas minhas palavras, pareceu sossegar.

– Então e que contrapartidas te traz esta atividade? – questionei.

– Uma percentagem de 6% sobre todos os juros.

– Só isso? E a alma eterna dos clientes? – espantei-me.

– Os clientes esbanjaram a alma muito antes de deixar de acreditar em nós.

– Lá isso é verdade… Mas gostas do que fazes?

– Dizem que eu estou nos pormenores, mas, na realidade, sempre preferi as encruzilhadas… Na Idade Média havia o costume de erigir cruzes no cruzamento de três ou quatro caminhos, para afastar as bruxas que ao soar da meia noite me invocavam. Felizmente esse hábito foi-se perdendo e não chegou às grandes superfícies da atualidade…

– Com efeito. – Olhei em volta, divertido. – Porém, se reparares bem, este local visto de cima é uma cruz.

Levantou os olhos, confuso. Uma rapariga bonita aproximou-se, claramente mais interessada no vendedor do que no produto… O patife não perdera pitada daquele charme obscenamente sedutor! Alguma vez terei tido algum vendedor mais eficiente? Despedi-me. Envergonhado pela possibilidade de que pudesse estar à espreita, nem sequer tentei interessar os transeuntes pela edição de luxo da Bíblia que vendo atualmente.

O meu negócio também não vai bem. Vi-me forçado a dispensar todos os colaboradores e arregaçar as mangas para o tentar salvar. Além de perder as maiúsculas nas referências à minha pessoa, hoje em dia já não consigo estar em toda a parte. Vou estando onde posso. Foi por isso um choque ver aquele pequeno holocausto na televisão do café de aldeia onde parara para almoçar.

O centro comercial ardera completamente em 6 horas, eclipsando-se da face da terra. O vidro liquidificara-se num fervilhante oceano e o ferro fundira-se num tenebroso coral, legando à paisagem uma cratera que mais lembrava um altar de oferendas dos bons velhos tempos. Afirmavam os peritos que o incêndio teria deflagrado naquela fatídica encruzilhada, atribuindo a fagulha fatal a um curto circuito na lâmpada intermitente. Não andam de todo afastados da verdade… Velhos hábitos custam a perder, suponho.

Espanta-me apenas que, após milénios à frente dos destinos do inferno, se tenha cansado tão depressa da promissora atividade da angariação de cartões. Talvez não me devesse admirar: hoje em dia as coisas duram cada vez menos tempo… A própria eternidade vai encolhendo, como uma delicada peça de roupa, quando lavada a temperaturas demasiado altas.

Não sei se alguma vez o tornei a encontrar. Por muito que mingue, a eternidade nunca deixará de me pregar partidas à memória. De qualquer forma, já não se fazem apocalipses como antigamente.

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