Ken Follett: “Cada grande história tem uma grande batalha dentro dela”

Acorda e lê o que escreveu no dia anterior. Às vezes reescreve a história. Outras nem lhe toca. O processo, garante, é um dos segredos do sucesso de Ken Follett – autor de livros como a trilogia O Século, O Estilete Assassino e Os Pilares da Terra – e a razão pela qual já vendeu mais de 150 milhões de livros em todo o mundo.

 

 

 

James Bond.
“Adoro Live and Let Die, o segundo livro da saga James Bond. Li-o quando tinha uns 12 anos pela primeira vez, e li-o várias vezes desde essa altura e continua… brilhante.

É escritor profissional há mais de 40 anos. Sempre quis escrever?
O meu primeiro trabalho foi como jornalista num diário, por isso posso considerar que de alguma maneira sempre trabalhei como escritor. Fui jornalista durante cinco anos, trabalhei para uma editora e depois tornei-me escritor a tempo inteiro. Nessa altura percebi que não era dos jornais que gostava mas dos livros.

Vendeu 150 milhões de livros em todo o mundo. Alguma vez pensou que um dia teria este sucesso?
Sempre quis ser um grande sucesso. Queria escrever histórias que agradassem à maioria das pessoas. Sempre quis. Mas devo dizer que nunca imaginei isto, isto é muito mais do que algum dia imaginei. Cento e cinquenta milhões de livros é incrível. É difícil de acreditar, até para mim. Quantos quartos essa quantidade de livros preencheria? Não dá para visualizar.

O que faz de um escritor um bom escritor?
A literatura é uma questão de empatia, compromisso. O milagre da literatura é sabermos que, quando lemos uma história, ela não é verdadeira mas isso não nos impede de visualizar as coisas à frente dos nossos olhos, não impede que fiquemos nervosos, que o coração bata mais depressa, que nos sentemos mais direitos na cadeira a ler. Estas reações emocionais são aquelas que teríamos na vida real se soubéssemos que alguém está muito triste, em perigo ou apaixonado. Mas nesse momento a reação é uma resposta a uma história que sabemos que não é real. Num livro, duas pessoas estão a lutar e nós conseguimos vê-la através do livro. É um milagre, não é? Temos estas reações emocionais. Acho que é disso que se trata a literatura, é disso que as pessoas gostam, é isso que os escritores de best-sellers escrevem, esse tipo de história.

Esse é o segredo do sucesso dos seus livros?
Costumo falar com outros autores e percebo que penso mais no leitor do que a maioria dos escritores com quem falo. Os outros não falam comigo sobre o que não gostam, o que os faz virar a página, nas coisas em que acreditam e não acreditam. Eu penso nisso constantemente. A maioria dos escritores pensa primeiro na linguagem, nas suas ideias, mas muitos nem sequer alguma vez pensaram nos leitores.

Como sabe o que os leitores querem?
Porque sei o que quero de uma novela. Sempre que escrevo penso no livro que gostaria de ler. Eu leio muito, por prazer, por puro prazer. Quando leio livros de outras pessoas, penso muitas vezes na maneira como fazem as coisas: no bons que são ou no mal que fizeram e, imediatamente, penso no que faria no seu lugar. Reflito muito sobre a maneira como faço as coisas. Sobre literatura, sobre histórias e a maneira como se contam boas histórias e a melhor maneira de as contar. E tenho pensado nisto nos últimos 40 anos.


 O Primeiro Best-Seller


Ken Follett lançou o primeiro livro em 1976. Dois anos e sete livros publicados depois, publicava o primeiro best-seller, O Buraco da Agulha, que ganhou o Edgar Award em 1978.

No Limiar da Eternidade


no-limiar-da-eternidade-de-ken-folletDepois de A Queda dos Gigantes e O Inverno do Mundo, Ken Follett apresenta a última parte da trilogia O Século. A história começa em 1961, em plena Guerra Fria e no ano da construção do Muro de Berlim, e narra a vida de cinco famílias de diferentes nacionalidades que já vão na terceira geração.

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O que define uma boa história?
Qualquer história que nos faça mudar de página e não querer parar de lê-la é uma boa história. Quando isso não acontece, sinto-me desiludido. Quando lemos e realmente gostamos do que estamos a ler, preferimos o mundo do livro ao mundo real e queremos ficar lá dentro, não queremos sair. Num mundo imaginário, quando queremos saber o que vem a seguir, essa é uma boa história.

A História dentro da história. Os seus últimos três livros são sobre História. A História e a literatura conseguem viver uma sem a outra?
Não sei. Uma novela é um drama na vida pessoal de alguém: apaixona-se, está em perigo, tenta fugir de um país para outro. Trata-se de contar aos leitores os desafios pessoais das personagens. Mas é mais credível se estiver relacionado com um evento histórico de algum tipo que as pessoas já conhecem. É desta maneira que a História funciona para mim. Faz com que a novela seja mais credível e mais importante. No caso dos meus últimos livros, alguns dos leitores viveram estes episódios. Cada grande história tem uma grande batalha dentro dela. Os meus leitores não querem muito guerra mas uma batalha é importante. E se as vidas pessoais dos personagens estão, de alguma maneira, ligadas aos acontecimentos, a algo real, melhor.

Como surgiu a ideia para a trilogia O Século, que conta a história de três famílias – atravessando três gerações – em três períodos distintos da História?
Não queria escrever outra novela medieval e pensei no período mais entusiasmante e dramático da história da Humanidade. E a resposta foi esta. Quando tive a ideia, pensei imediatamente em três livros que pudessem ser palco das três guerras que aconteceram em períodos diferentes da História e que seriam histórias separadas. A trilogia O Século surgiu tão naturalmente que, se tivesse alguma vez tentado fazer tudo num livro, provavelmente não teria sido bem sucedido. Foi mais fácil fazê-lo em três partes e faz mais sentido de três pontos de vista. E daí parti para as três gerações. Essa ideia fez-me muito sentido, achei que era muito boa.

Escreve todos os dias?
Normalmente escrevo de segunda a sexta. Aos fins de semana leio muito, vou ao cinema, visito a minha família. A Barbara e eu temos uma grande família, muitos netos, e vemo-nos muito. Mas no último período de escrita dos livros trabalho sete dias por semana até sentir que está pronto.

ken-follet-entrevista-na-revista-estante-em-berlim-2Quando sente que um livro está pronto?
No momento em que sinto que já não há nada que possa melhorar. Todos os dias leio o que escrevi no dia anterior e mudo aquilo de que não gosto lendo “ontens”. Às vezes reescrevo tudo, outras faço pequenas alterações. Mas mudo sempre alguma coisa. Depois, quando termino o primeiro rascunho, mostro-o a várias pessoas. Reescrever é muito importante. Eu não faço poucas alterações quando releio o rascunho completo, reformulo muitas coisas. Depois, volto a mostrá-lo às pessoas. Os editores sugerem mudanças, mudamos coisas e avançamos. É nesse momento, quando não consigo pensar em mais nada, que termino o livro, que o sinto pronto.

E depois? Descansa entre livros?
Estou sempre a escrever alguma coisa. Agora mesmo estou a escrever uma história passada no século XVI durante o reinado da rainha Isabel I e do rei Filipe II de Espanha, o homem mais poderoso do mundo nessa época. A história anda em volta das duas personagens e da maneira como se tentam matar uma à outra. É essa a batalha, uma batalha naval neste caso.

Hoje em dia gosta mais de escrever ou de ler?
Pergunta difícil. Escrever envolve-me mais, é muito difícil escrever um bestseller, algo que toque o coração das pessoas. Mas se me concentrar, consigo fazê-lo. Nunca pensei em deixar de escrever. Primeiro, porque gosto muito disto. E segundo, porque sou muito bom nisto. Não há nada em que seja tão bom como a escrever. Sou muito disciplinado com a escrita, acordo de manhã e é isso que penso em fazer, é isso que gosto de fazer. Se fosse fácil, creio que não seria tão disciplinado. Mas porque é difícil, porque não sei, foco-me no que tenho que fazer a seguir. Ler é só um prazer.

O que diria a um aspirante a escritor?
Quando me dizem que querem escrever pergunto sempre: “Lês muito?” Se me dizem que não, não os encorajo. É melhor esquecerem. É como o violino: se começamos a tocar violino aos 20 nunca vamos ser bons. Temos que começar a tocar violino aos 4. Acontece o mesmo com a escrita: há que começar a ler muito quando somos pequenos para sabermos como fazer diálogos, construir personagens. Isso aprende-se a ler. Quando se tem 20 anos, se leram três livros e se decide ser escritor… isso não vai acontecer.

Entrevista por Mariana Araújo Barbosa, em Frankfurt
Fotografias por Olivier Favre

ANATOMIA DE UM BEST-SELLER


LÊ MUITO.

Ken Follett começou a ler aos 4 anos e diz que esse facto determinou a maneira como criou hábitos de leitura e de escrita. O escritor garante que esse é o segredo da criação de boas histórias e personagens.

CRIA EMPATIA.

Uma boa história determina-se pelo contexto e pelas personagens que agem nesse contexto. Criar empatia, contar a história diretamente ao coração, é um segredo.

OUVE OS LEITORES.

Ken Follett diz que um dos segredos de ter vendido mais de 150 milhões de livros tem a ver com a maneira como ouve os leitores e vai de encontro ao que querem ler. E isso só é possível pondo-se no lugar deles.

NÃO ESQUEÇAS A HISTÓRIA.

Ter história dentro da história é outro dos fatores que cria empatia e cola o leitor ao livro. Criar um ambiente que o leitor identifique ecomoqualse identifique é uma dica de ouro na arte de bem escrever… e de bem vender.

FAZ O QUE GOSTAS.

Pode parecer um cliché mas a escrita é um trabalho de paixão. Se não gostares de escrever e de ler não vale a pena, garante o escritor.

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