Kalaf Epalanga: “Ser escritor não fazia parte dos planos”

Quando pensamos em Kalaf, pensamos em Buraka Som Sistema. Erradamente: este é um homem bem mais das palavras do que da música – e cujo futuro, garante, passa pelos livros mais do que pelos discos.

Entrevista por Pedro Rolo Duarte
Fotografias de David Clifford/4SEE

A última viagem

“Foi curta. Ia dizer Rio de Janeiro, mas na verdade começámos no Texas, no West Texas Guitar Festival, saltámos para o Rio, e impressionou-me a estagnação do Rio de Janeiro. Disse aos cariocas meus amigos que eles precisam de Lisboa. O Rio continua a ter os génios, de Caetano a Chico, mas sinto que Lisboa consegue juntar outros povos que falam português e que o Brasil precisa de ter mais presentes os artistas de Angola, Cabo Verde, Moçambique.”

A próxima viagem

“Vai ter de ser Angola nos 40 anos da independência. Foi feito um fabuloso documentário, realizado pelo Mário Bastos, que estreia justamente a 11 de novembro e que junta todos os angolanos que se envolveram na Guerra Civil. É uma geração nova a olhar de fora um conflito que mexeu com todo um país.”

Veja o vídeo desta entrevista

estante-video-entrevista-a-kalaf

Num livro, Kalaf Epalanga. Noutro, Kalaf Angelo. Músico ou escritor? Aos 37 anos, Kalaf – simplifiquemos, e assim ficamos – é tão conhecido como cara e alma dos Buraka Som Sistema como autor de Estórias de Amor para Meninos de Cor, livro de crónicas que entrou no Plano Nacional de Leitura como Livro Recomendado para a Formação de Adultos. São crónicas editadas no jornal Público, como sucede em O Angolano Que Comprou Lisboa (Por Metade do Preço), o livro que publicou em 2014 e cujo título deixa obviamente escapar um sorriso irónico, sendo o autor angolano de Benguela, safra de 1978.

Porém, a figura que se senta à minha frente, impecavelmente vestida entre o preto e o branco, e que não abandona em momento algum uma postura e uma pose tranquila, diplomática, assertiva mas quase zen, não parece um homem de sete instrumentos, de que a escrita é o começo e o final. Nem sequer o provocador que o título do segundo livro antecipa. Diria que é um homem comum – como quase todos os homens geniais são, para tristeza e desilusão dos outros.

Quando lhe perguntam que profissão tem, o que responde?
Durante muito tempo eu dizia que era apenas músico. Mas parecia redutor – porque embora eu sinta que faça muito mais do que música, não dizia mais nada. Depois acrescentei a condição de cronista. Gosto da tradição dos cronistas brasileiros como Nelson Rodrigues ou Drummond de Andrade. É claro que não me comparo a esses senhores, mas inspiram-me.

Interessante: diz-se cronista, não usa a palavra escritor…
A seu tempo, a seu tempo… Na verdade, durante muito tempo nem me sentia músico, mas apenas uma pessoa que escrevia canções. Na escrita, hoje já me sinto um cronista mais completo, e a seu tempo hei de caminhar para a profissão de escritor. Para já, cronista e músico está bem.

Isso quer dizer que tem um plano para a sua vida?

Absolutamente. Aliás, acho que finalmente estou no sítio onde queria estar quando comecei a trabalhar com música. Quando cheguei a Lisboa, em 1995, a minha ideia era escrever para músicos, escrever canções. Não me via como cantor, não tinha talento para isso, só queria mesmo fazer canções. Nesse processo de aproximação à música, através da escrita, eu descobri que o que queria mesmo era contar histórias, e embora a música fosse bastante sedutora – fácil, ali à saída da adolescência, com os amigos, fazer canções é divertido –, senti que os livros eram o lugar onde eu queria estar. E hoje estou bastante confortável com os livros.

Também vi uma outra forma de o caraterizar: poeta-cantor…

Aahhh… Isso foi o Victor Balenciano, do Público, que me deu tempo de antena antes de qualquer outro jornalista. Ele é muito atento ao fenómeno urbano, é generoso, e viu-me trabalhar “spoken word” e recitar Fernando Pessoa horas a fio, e fundir isso com jazz, e desmontar tudo chamando-lhe concerto… Ele tinha outra designação que mais me diverte: agitador-cultural!

Voltemos um pouco atrás. tanto quanto sei, o Kalaf veio para lisboa mandado pela família para tirar um curso e voltar para angola, certo?

Certíssimo. Um curso de Gestão. Todo o angolano pensa sempre em ter uma profissão prática e com saída profissional, e sem dúvida que escritor não fazia parte desses planos.

Mas chegou a tirar o curso?

Não, nem sequer me inscrevi…

revista-estante-kalaf-buraka-som-sistema

Aterrou na portela e mudou de ideias?

Mais ou menos. Conheci pessoas e percebi que era outro o meu caminho! Embora em Angola haja toda a multiculturalidade – portugueses, russos, cubanos, brasileiros –, foi em Portugal que eu me confrontei com os outros povos que falam português, ou pelo menos fiquei atento ao que eles faziam. A minha geração, a geração do rap, já existia, mas não era eficaz. Eu sentia que eles podiam ser mais concisos e melhores no discurso. A minha vontade primeira foi dar contributo literário para essa comunidade. Obviamente, ninguém aceitou…

Porquê?

Porque os rappers não gostam que escrevam para eles, gostam eles de escrever as suas coisas, mesmo que sejam más… E eu pensei: OK, não querem o meu contributo mas eu posso fazer na mesma. Comecei a frequentar o Hot Club, e no jazz, conjugado com a eletrónica, senti que tinha espaço, que podia fazer discos, que mesmo sem talento algum para a música podia gravar os meus textos sobre uma base musical sólida. Gosto de desafios.  A ideia de um não-cantor gravar um disco sempre foi atraente.

Não se assume como cantor?

Não sou cantor, não sei cantar, desafino. Só o jazz me podia aceitar, só o jazz tem essa abertura musical. Aliás, só a música é suficientemente generosa para abraçar até as pessoas que não têm talento…

Não se pode dizer que não tem talento quem constrói um fenómeno como os Buraka Som Sistema…
O caso dos Buraka Som Sistema partiu muito de uma passagem por Londres.

Tive a certeza de que podia fazer diferente e ter sucesso quando, em Londres, vi o que faziam os caribenhos, jamaicanos, nigerianos, misturando a eletrónica com as suas origens. Ninguém tinha experimentado ou pensado empacotar o que se podia ouvir na linha de Sintra, ou no Mussulo, de forma a poder ser consumido no Lux… Eu circulava nesses dois territórios, e na minha cabeça era possí- vel… Só precisava de encontrar as pessoas certas para promover esse encontro, essa transição. Tive sorte: acertei à primeira!

Voltemos aos livros. o seu segundo livro chama-se O Angolano Que Comprou Lisboa (Por Metade do Preço). o título é uma provocação, mas corresponde a uma realidade com a qual (pelo menos…) os lisboetas se confrontam diariamente…

Acima de tudo, eu não consigo resistir a uma boa gargalhada. E gosto de observar. Tento somar, não subtrair, e acho sinceramente que entre portugueses e angolanos temos mais parecenças do que diferenças… De alguma forma, o título do livro unifica-nos, pelo menos na medida em que a arte tem também essa função: reduzir-nos à nossa condição, somos humanos, erramos, rimos, aprendemos…

Mas parece haver agora um novo complexo do angolano que conquista portugal…

Quando me falam disso, eu digo sempre o mesmo: estamos a falar de uma minoria. O que acho mais interessante é a sedução cultural que Angola exerce sobre Portugal: a novela A Única Mulher passa 80% da música pop angolana atual. Isso é que é extraordinário, e é o reflexo da relação dos dois países. Não tem nada a ver com aquele 1% de angolanos que tem poder económico para investir em Portugal. Eu faço parte dessa grande maioria, sou reflexo dessa mudança de paradigma.

Mas o título do livro é uma provocação clara…

Estava a irritar-me levar por tabela por causa desse 1% que compra tudo o que pode. E depois ouvia meio mundo dizer que Portugal está falido, toda a gente a emigrar, depressão. OK, sim, algumas pessoas estão a sair daqui, mas Portugal existe… A escolha do título do livro podia ter sido “golden visa”, porque de qualquer forma não reflete a realidade. Diz respeito a uma minoria, e foi isso que quis sublinhar.

Nasceu depois do colonialismo, num país entretanto independente. Mas em guerra. Ficam marcas? Que marcas?

Cresci nos anos 80, em Angola, em guerra civil. Claro que ficam marcas! Só agora Angola está a conseguir libertar-se dessas marcas, é uma democracia jovem, com os problemas normais de quem começa a viver. O mundo anda depressa, ninguém espera por Angola, todos nós temos de nos adaptar. Eu acho que os angolanos têm essa pressa, essa urgência em comprar tudo, em ter tudo, porque ainda têm medo que as coisas se esgotem, que se acabe este sonho. Passaram muito tempo em muitas guerras. O angolano tem dificuldade em pensar a longo prazo, e essa é talvez a caraterística mais grave para a nossa evolução.


Um sonho

“Editar os meus romances. Estão a ser aperfeiçoados. Um passa-se em Lisboa.”


revista-estante-livro-rio-de-janeiro-carnaval-no-fogo

O que anda a Ler

“Acabei agora de ler Rio de Janeiro – Carnaval no Fogo, do jornalista, escritor e cronista Ruy Castro.” Não é um livro sobre o Carnaval do Rio, atravessa os 500 anos da história da cidade – “da primeira índia tupinambá que namorou um pirata francês até aos réveillons de hoje em Copacabana”, como se descreve no resumo da obra. Kalaf acha que Catarina Portas seria a autora ideal para escrever o paralelo lisboeta desta crónica da cidade. Além deste, anda a ler a obra de James Baldwin (1924-1987), o escritor negro que ficou conhecido pela sua obra dedicada ao racismo – ou, melhor, aos efeitos do racismo sobre os negros americanos. Os seus ensaios são a parte visível de uma obra que Kalaf reconhece como notável.

 revista-estante-disco-bonga

O que anda a Ouvir

Música angolana: Rui Mingas, Bonga, anos 60 e 70. Diz: “Quanto mais música fazemos, menos música ouvimos. Ouço música dos meus colegas” (o Branco, colega dos Buraka, está a fazer um disco, e Kalaf vai ouvindo o que está a ser desenhado).

A isso chama-se trauma…

Tenho tentado refletir sobre isso e acho que há um misto de trauma e de memória. Quando olhamos para a relação com a arte, notamos que o artista angolano tem tendência para se autocensurar, o que pode parecer estranho… Não há sombras atrás de nós, mas é quase automático o cuidado nas palavras, como dizemos, o que dizemos.

O Kalaf tem o seu primeiro livro, Estórias de Amor para Meninos de Cor, no plano nacional de leitura. O que sentiu com essa classificação?

Todos os dias me belisco para acreditar que isso é verdade! Vir para Lisboa, escolher abandonar o plano que me foi traçado e conseguir chegar ao ponto de provar que é possível contar as histórias que quero contar e tocar as pessoas que quero tocar, é algo que todos os dias me comove.

O jornal Público foi decisivo nesse processo?

Foi absolutamente decisivo. O jornal e um editor, o Zeferino Coelho, a quem devo tudo. Generosidade, paciência… Eu demoro a escrever, demoro a decidir. No caso do primeiro livro, foi o Zeferino que mo arrancou literalmente das mãos…

E este segundo?

Este, bom, já sabia o título do segundo desde o começo, as histórias, a importância de Lisboa na minha obra. Devo quase tudo a Lisboa.

Berlim, uma cidade de que fala em todas as entrevistas, não?

Mexe pouco. Em Berlim interessa-me o silêncio. Eu vou para Berlim para escrever. Aqui é quase impossível, a música está muito presente, há muitos concertos, é o ponto de entrada para o meu mundo. Em Berlim não há isso, consigo estar mais perto do silêncio das palavras e dos livros. Tenho casa lá. É o lugar que escolhi para escrever.

Qual é a sua cidade, afinal?

Já não consigo ver-me num país só. Lisboa, não deixo Lisboa. Mas profissionalmente há Angola, há São Paulo. Apaixonei-me pelo Brasil através de São Paulo e é uma das minhas cidades.

Não sei se é nela que vai nascer o próximo livro, mas já se pode falar sobre ele?

Chama-se O Golpe. Não sei se é o próximo a sair, sei que é o próximo que vou acabar, e é o primeiro que é um romance. Uma história política, conta a história de um golpe de estado, mas não quero adiantar mais… Mas tenho mais três em linha de produção, que estão muito divertidos. Vamos ver qual sai primeiro…

revista-estante-kalaf-autor

Uma curiosidade
“Rest of the World: marca de roupa, minha e do Branco, é a nossa visão da música e da cultura urbana transformada em roupa. Sentimos necessidade de ter outra tela para a nossa expressão cultural e a roupa era mais uma forma de expressão.”

O jogo favorito
Kalaf joga xadrez. Hoje em dia, joga quase sempre com o irmão: “Não é só a ideia de ganhar, é o processo do jogo, a estratégia,
o caminho. E aprender a ser paciente.”

Gostou? Partilhe este artigo: