Julio Cortázar

Júlio Cortázar

Um dos autores mais inovadores do seu tempo rompe com os modelos clássicos que dominavam a literatura da época.

 

 

Descobrir Cortázar

Jorge Luis Borges editou-lhe o primeiro conto e nunca mais deixou de o admirar. Julio Cortázar, referência da literatura latino-americana do século xx, faria 100 anos a 26 de agosto.

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Os dois encontraram-se na redação da revista Los Anales de Buenos Aires, na movimentada Diagonal Norte, em Buenos Aires, corria o ano de 1946. Julio Cortázar levava na mão um manuscrito. Jorge Luis Borges, diretor da revista, recebeu daquele “rapaz muito alto” o envelope e prometeu-lhe que leria o texto — Casa Tomada, chamava-se. Passou uma semana. Cortázar voltou para saber a opinião do escritor, mas Borges recusou-se a dar-lha. “Em vez disso, vou dizer-lhe duas coisas: uma é que o conto está na gráfica e dentro de dias teremos as provas; a outra, é que encarreguei a minha irmã Norah de fazer as ilustrações”, disse-lhe. O episódio é recordado por Borges no livro Sete Conversas com Fernando Sorrentino (Azouge, 2009). Cortázar agradeceu-lhe num encontro em Paris, anos mais tarde, a prova de confiança. “Senti-me orgulhoso de ter sido o primeiro a publicar um texto de Julio Cortázar”, comentou. O escritor argentino tornou- se famoso pelos contos que se seguiram, editados na compilação Bestiário (Dom
Quixote, 1986), mas também por romances como O Jogo do Mundo — Rayuela (Cavalo de Ferro, 2008), já nos anos 60. E ainda hoje é, no ano em que se comemoram 100 anos sobre o seu nascimento, a 26 de agosto de 1914, uma das referências da revolução literária latino-americana da segunda metade do século xx. Menos traduzido que Gabriel García Márquez ou Jorge Luis Borges,
Julio Cortázar é um dos autores de língua espanhola mais referenciados, confirma Danny Blackwell, investigador britânico que está a ultimar uma tese de doutoramento sobre o autor. “Rayuela, uma das suas obras mais importantes, teve um impacto notável logo nos anos 60, especialmente entre os jovens que estavam, como Cortázar, à procura de modelos alternativos que os ajudassem a encontrar novos caminhos numa sociedade marcada pela corrupção”, garante. Um dos seus  contos, Blow-Up, chegou em 1968 às telas de cinema pela mão de Michelangelo Antonioni. Cortázar nasceu na embaixada argentina em Bruxelas, viveu desde os quatro anos na Argentina e aos 37 emigrou para Paris. Foi professor de Literatura, tradutor e ativista social e político. Casa Tomada foi considerado no anos 70 uma alegoria crítica do regime de Péron e os prémios e receitas de Livro de Manuel, de 1973, reverteram a favor dos presos políticos na Argentina. É considerado um autor tão complexo quanto fascinante e bem–humorado, mestre na utilização da intertextualidade, da ironia e do fantástico. “Paradoxalmente, o facto de o seu público ser limitado torna-o mais cativante: os fãs sentem-se orgulhosos por chegarem ao autor e participarem nos jogos intelectuais que propõe”, comenta Blackwell. O investigador aconselha uma incursão pelos textos curtos antes do “mergulho” em obras como Perseguidor ou Rayuela,
mas garante que o leitor não se irá arrepender. Além do mais, Cortázar é um autor “capaz de fazer o leitor rir em voz alta”.

 Helena Viegas

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