Julián Fuks: “Prefiro uma literatura mais da inquietude”

Julián Fuks faz uma viagem às razões que o levaram a escrever o seu novo livro e fala de uma certa obsessão pela origem que está presente em grande parte da sua obra.

A Resistência

O livro de Julián Fuks aborda a história de um casal de psicanalistas que, na sequência do golpe militar na Argentina em 1976, decide deixar a resistência para trás e procurar exílio no Brasil. Nascido em São Paulo, Brasil, em 1981, Fuks é filho de argentinos. Este é o seu quarto romance.

 


Que título daria a um livro sobre a sua vida? Se é que não tem já…

Bom, eu acho que venho dando ao longo dos tempos muitos títulos aos livros sobre a minha vida. Acho que em alguma medida, inevitavelmente, todo o escritor escreve algo sobre a própria vida e vai encontrando os títulos ao longo do caminho. Não saberia dizer um agora.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

Eu sempre procurei não ter influências rígidas, fixas e constantes. Vou buscando novos caminhos a cada vez que acho que pude dar uma resposta e encerrar algo que eu vinha tentando. Então às vezes as influências vão-se transformando ao longo do tempo. Já me deixei muito tomar por Borges, isso foi para mim forte, inclusive eu transformei ele em personagem de um dos meus livros, História de Literatura e Cegueira, sobre alguns escritores cegos. Borges, João Cabral e Joyce, cada um deles acabava-me influenciando de alguma maneira. E depois disso preferi deixar para trás esses autores e procurar outros. Para A Resistência, em vez de buscar grandes cânones, eu li muito autores que vinham fazendo a mesma tentativa, muitos autores jovens, filhos da geração que viveu a ditadura, que tentam de alguma forma dar uma resposta a essa vivência secundária de uma nova geração. E aí, uma série de autores jovens acabaram influenciando o meu trabalho, eu acho.

O que é para si um bom livro?

Um bom livro pode ser muitas coisas. Eu gosto muito de livros que justamente não se prendem a uma fórmula pronta, definida, de uma narrativa, não repetem modelos pré-fabricados, que buscam a sua própria linguagem, a sua própria forma em função da matéria que querem tratar. Então gosto de autores que têm essa espécie de inquietude, que estão sempre em busca de uma nova maneira, e não daqueles que permitem numa livraria um tipo de associação: “Você gostou deste livro? Então compre este. Gostou desse autor? Continue acompanhando estas histórias a partir dos outros livros.” Eu prefiro uma literatura mais da inquietude.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

O último livro que eu li foi do Mia Couto. Por razões profissionais, às vezes o escritor acaba não tendo a possibilidade de escolher livremente o livro que tiraria da estante numa livraria. Acaba lendo porque as circunstância exigem, mas eu achei interessantíssimo. Era O Último Voo do Flamingo, que tem uma… é uma literatura muito diferente da minha, e mesmo daquilo que eu enxergaria para a literatura. Talvez diferente de tudo o que eu venho falando aqui, mas que ao mesmo tempo tem um valor que mistura o mítico e o histórico que me agradou muito e uma linguagem poética que dá um prazer e um certo encanto da leitura, tudo apontando para o facto de que não importa o que a gente pensa, as ideias que a gente tem sobre a literatura. A literatura sempre pode surpreender e agradar de uma outra maneira.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Eu escrevo com muita dificuldade, muito lentamente, então eu procuro a cada dia separar alguma horas para a escrita quando eu estou altamente em algum projeto. Sou tradutor, geralmente eu traduzo, faço outras coisas. Um dia típico seria um dia de tradução, umas quatro horas de tradução e depois disso passar à escrita. Geralmente me dedico umas duas ou três horas à escrita e consigo colher com isso um ou dois parágrafos, num dia bom. É tudo sempre muito trabalhado, as palavras minuciosamente escolhidas de uma maneira um tanto obsessiva por falar verdade, com uma preocupação com o ritmo e a musicalidade que acabam me travando muito.

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

No computador, sempre.

Costuma planear todos os detalhes do que escreve ou deixa-se levar pelo momento?

Em todos os meus livros anteriores eu tinha um planeamento mais claro, conseguia enxergar o que o livro seria antes de começar a escrever, e aí escrevia. [A Resistência] teve um funcionamento um pouco diferente porque eu me vi escrevendo, primeiro querendo contar algo da história do meu irmão, pensando que aquilo seria um conto, e de repente vi que para contar a história dele eu tinha de contar a história dos pais e a história crescia, porque a história política do país entrava em questão também. Depois de um tempo, já tendo escrito um pouco, eu fui estruturar aquele livro e achar uma arquitetura própria.


“Eu prefiro uma literatura mais da inquietude.”


Como lhe surgiu a ideia de A Resistência

Bom, algo que eu inclusive narro ali é um pedido do meu irmão, um momento de muita intensidade, de reconhecimento da questão da adoção. Ele pediu para mim que eu escrevesse um dia sobre a adoção. “Sobre isso você deve escrever”, ele falou. Eu guardei essa ideia em mim, naquele momento aquilo estava sendo vivido muito intensamente como vida, não como literatura. Me pareceu uma ideia quase exótica, mas ficou em mim e alguns anos depois eu vi que tinha vontade de fazer isso e acabei me dedicando.

Existe uma certa obsessão pela origem, neste livro…

Acho que se pode dizer que sim. A questão é que, enquanto há uma série de livros sobre busca da origem recentemente, inclusive nesse contexto, nos contextos dos êxodos relativos às ditaduras latino-americanas, acho que se criou todo um campo de pensamento sobre isso, sobre pertencimentos a outros países. Onde pertenço afinal? Ao lugar onde nasci ou ao lugar suposto de uma origem? À terra dos meus pais ou à minha terra? Enfim, na indagação se um exílio é herdado ou se um exílio se transmite de geração para geração ou se é algo que só sofre aquele que efetivamente foi expulso do seu país. Só que nesse livro essas questões são um pouco mais tortuosas, porque é uma busca de uma origem do outro. Em parte interessa, mas pensar a origem do irmão e ir atrás e buscar uma história que é alheia, que é uma história dele e não uma história do eu, e não buscar uma origem própria, por assim dizer. Há um certo desvio nessa busca, o que marca também o facto de ser uma busca um tanto travada e móvel sem de facto vontade de ir até o fundo numa investigação. Porque ir até ao fundo nessa investigação seria em alguma medida invadir o lugar do outro. Então é só fazer em alguma medida essa busca pelo outro, mas respeitando também o desejo de não saber e de não buscar essa origem.

Onde nasce esta necessidade de confronto de questionar o passado e a origem?

Acho que, para mim, vem justamente dessa indagação sobre partir do deslocamento. É uma família de sucessivos deslocamentos. Meus pais são argentinos mas meus avós não eram argentinos. Se calhar minha mãe é argentina propriamente dita. Ela nasceu no Peru, se mudou aos três anos de idade para a Argentina, tem nacionalidade argentina. Dos meus quatro avós, uma era peruana, um era argentino e dois eram romenos, ou seja, a que lugar eu pertenço não está claro. Tem a partida da Roménia, que se deu em função do holocausto, uma fuga de uma família judaica e uma certa diáspora pelo mundo. Mas mesmo antes disso pode-se traçar uma história da família que sai da Alemanha para ir para a Roménia. Então, acho que essa investigação não tem fim. De onde eu venho não é uma pergunta que encontre uma resposta fácil, pelo contrário, ela nunca vai trazer uma resposta definitiva, assertiva, precisa. Vai sempre abrir novas questões de novas indagações, e o que me interessava era sobretudo isso: partir dessas perguntas para encontrar outras perguntas.

Sente que encontrou uma resposta a fazer este livro? Os seus livros têm muito de autobiográfico. Essa procura é constante em todos os livros de forma diferente?

No livro anterior, no Procura do Romance, acho que era mais literalmente uma busca de uma identidade e de um pertencimento, porque era este mesmo narrador Sebastián, ele era o personagem, o protagonista daquele livro, e também fazia uma viagem a Buenos Aires e procurava vasculhar nos resquícios da própria infância o que lhe lembrava aquele lugar, em que medida ele se reconhecia naquele lugar, se reconhecia nos outros ao redor na cidade como uma cidade própria. E eu, quando escrevi aquele livro, pensei que estava resolvendo a minha relação com o país. Achava que precisava dessa busca direta por um espaço que se convertia numa busca literária para poder passar a outra coisa em seguida e que logo eu escreveria livros mais brasileiros, mais sobre a cidade em que eu vivo efetivamente e onde eu vivia a maior parte da minha vida. Só que de repente vi que comecei a escrever de novo um livro sobre a Argentina e situei de novo o meu narrador em Buenos Aires e as questões dessa origem, dessa história, não estavam de facto respondidas ou superadas. Então agora me pergunto se este foi o livro que encerrou essa busca e eu posso passar a outras coisas ou se de tempos em tempos vou ter de voltar a isso e isso vai me tomar de novo.

Curiosamente, o irmão adoptado chega a uma altura em que não volta com a família para Buenos Aires. É, de alguma forma, tentar fechar do seu lado?

É. Acho que é. Um irmão deixar de ir com a família para a Argentina é já um princípio da recusa que ele vai mostrar em relação a muitas coisas. Da recusa a um convívio familiar, a um estar junto, mas também a recusa a vasculhar a sua própria origem e identidade e, em suma, a recusa de conceber a própria questão da adoção. Uma negação da adoção que se dá e que talvez, nesse caso especifico, se reflita num distanciamento em relação à Argentina.

Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Não muito clara, ainda. Ainda há essa ideia vaga, algumas noções do que eu gostaria de fazer, mas sem uma clareza de qual projeto exatamente me quero prender.

Qual é a pior parte de ser escritor?

Não é uma pergunta tão comum, é curioso, é uma pergunta bem incomum. Acho que eu nunca respondi na minha vida qual é a pior parte de ser escritor. Acho que é a solidão que o ofício exige. Eu escrevo muito melhor na solidão, as ideias vêm para mim quando eu estou sozinho, quando eu estou com a possibilidade de refletir um pouco mais, de pensar um pouco mais, de calar um pouco o ruído do mundo. O próprio ato da escrita também exige uma reclusão, exige uma concentração, acho que justamente isola o escritor do resto. O que é uma pena, porque é preciso estar em contacto com o mundo para poder compreender algo da matéria do mundo e escrever. Mas de facto esse conflito entre a necessidade de participar e a necessidade de se retrair e escrever me parece a pior parte.


“Gostaria muito de uma literatura que tivesse o jogo metaficcional e a riqueza autocrítica que existe na literatura argentina com a preocupação social e política que costuma prevalecer na literatura brasileira.”


Em 2012, foi eleito pela revista Granta um dos 20 melhores escritores brasileiros. Isso coloca-lhe mais pressão ou uma maior responsabilidade?

Acho que não. Não diria que tenha tido esse efeito. Isso gerou no Brasil uma forte polémica, porque foi uma decisão tomada com certo rigor, um certo cuidado, mas que abria para uma série de questionamentos se esses são de facto os 20 melhores escritores brasileiros, o que a princípio é um questionamento muito válido. Por outro lado, é também meio arbitrário o que definiria os 20 melhores. A própria noção de “melhor” não é tão compatível com a noção de literatura. Literatura não passa necessariamente por isso, melhores e piores, etc. Mas o que me pareceu interessante ali é que se criou uma discussão sobre a literatura contemporânea feita por jovens. Esse assunto ganhou um pouco mais de destaque e a gente pôde também criticar alguns mecanismos da canonização, alguns mecanismos da escolha de autores, que tipo de literatura acaba sendo privilegiada nesses concursos, nessas disputas, e que privilégios se preservam década após década. De facto, era por exemplo uma seleção muito masculina, muito urbana, de grandes centros urbanos, talvez muito de classe média, enfim, muito branca, muito heteronormativa. Tinha um monte de questões que se revelaram ali presentes na seleção que me pareceram trazer um debate importante sobre a literatura brasileira e a literatura de maneira geral. Pessoalmente fez pouca diferença. De facto havia uma crítica ao grupo escolhido, há talvez um contágio de crítica a cada um dos autores escolhidos, mas isso nunca se tornou pesado nem problemático.

Como avalia a literatura brasileira atual? Eu recordo-me que, por acaso, nós também tivemos uma polémica muito recente com um jornal que quis fazer um artigo com escritores a escolherem os melhores livros do ano e na realidade só responderam homens. É um fenómeno a nível mundial? Como vê isso?

Bom, essa questão da desigualdade na forma como a gente enxerga os diversos fazeres literários acho que é universal, mundial e histórica, principalmente. Se você faz um balanço da história da literatura em geral, a gente vai destacar sempre homens, quando a gente sabe que houve uma série de mulheres fazendo literatura de muita qualidade nos séculos XVIII, XIX, XX, etc. As mulheres sempre tiveram um papel muito ativo, que foi ensombrecido e silenciado. Eu acho que é interessante o lugar em que a gente se coloca agora de problematizar isso tudo, acho importante esse elemento. Perceber que tudo isso ainda se repete. A gente continua fazendo seleções que se baseiam nessa disparidade do nosso olhar, mas pelo menos é capaz de questionar uma coisa que durante muito tempo se avaliou como natural. Por outro lado, a situação da literatura brasileira hoje é talvez uma situação de incapacidade de canonização. Depois de alguns autores muito bons, excelentes, que ganharam uma certa unanimidade nacional, sobretudo nas décadas de 50, 60 e 70. Tinha ali Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, todos escrevendo ao mesmo tempo, uma fase muito boa da literatura brasileira. Teve um momento de retomada de um outro lugar e reinício da literatura para encontrar algo que poderia ser uma identidade da literatura brasileira. Tem sido feito com certa dificuldade, sem conseguir chegar a unanimidade, sem conseguir chegar a grandes nomes. Se for pensar desde a década de 80, é difícil você definir quem é “o” autor brasileiro, talvez diferente de Portugal nesse aspeto. Em tempos recentes Portugal tem grandes nomes, tem Saramago, tem Lobo Antunes, tem alguns que se fazem cânones da literatura contemporânea. O Brasil ainda está num processo de disputa por esse lugar.

É um país muito diverso. Não é?

É. Também é. Talvez seja interessante isso. Ainda que o Brasil tenha muita dificuldade de abraçar essa diversidade, de conseguir dar espaço para essas diversidades, faz sentido que no Brasil não haja unanimidades. É um país gigantesco e com tendências das mais várias para o tipo de produção que se vai escrever ou ler. Então, de facto, faz sentido que a gente não alcance essas unidades.

Como diferencia a literatura brasileira da argentina?

A literatura brasileira sempre esteve muito marcada por uma certa preocupação social. Desde Machado de Assis, está sempre ligado a uma literatura sobre o outro, uma literatura de procurar, de retratar as injustiças que estão presentes na sociedade, uma literatura que se aproxima da sociologia. Mesmo os principais críticos literários brasileiros fazem uma crítica que trafega com a sociologia, António Cândido, Roberto Schwarz, ele se aproxima desse diálogo. Sociologia literatura. A Argentina faz outra coisa, faz um tipo de literatura mais ligada à teoria literária, mais ligada às preocupações formais, a tentativa por exemplo da literatura autorreflexiva, que fala muito sobre si mesma, que fala sobre os escritores, que fala sobre a própria constituição do ato da escrita, que faz jogos metaficcionais. Esse tipo de tendência tem sido mais frequente na Argentina. Gostaria muito de uma literatura que conseguisse conciliar as duas coisas, que tivesse o jogo metaficcional e a riqueza autocrítica que existe na literatura argentina com a preocupação social e política que costuma prevalecer na literatura brasileira.

Quando escreve, também procura utilizar as duas? Ou não é coisa em que pense muito?

Na verdade não. Quando eu escrevo, tem outras questões que são mais importantes do que uma tentativa consciente de conciliar uma coisa e outra. Mas se eu for pensar, talvez haja uma tentativa disso em A Resistência, porque eu sempre escrevo com uma preocupação com a forma do narrar, e neste livro me preocupei muito mais com uma relevância política e social que a história pudesse ter e que essa forma de narrar também pudesse alcançar.

Sendo brasileiro e filho de pais argentinos, por que seleção é que torce?

Eu torço pela brasileira, mas diferentemente de todos os outros brasileiros, no instante em que o Brasil perde eu torço pela Argentina, enquanto os brasileiros torcem ferrenhamente contra qualquer tentativa argentina.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

Aconselharia que se preocupasse em escrever uma coisa verdadeira e uma coisa necessária. Que não se pusesse a escrever simplesmente por escrever. Que pensasse bem o que tem a dizer, porque quer dizer aquelas coisas e passasse essa ideia apaixonadamente. Sinto isso. Acho que às vezes, nessa literatura comercial, a gente perde um pouco o sentido da necessidade de um texto, a necessidade de um fazer literário. E acho que cada um tem muita possibilidade de encontrar aquilo que precisa dizer. Não aquilo que alguém quer ouvir, mas aquilo que é necessário falar.

Havia essa necessidade mais altruísta ou egoísta, nesse sentido?

Não sei. A noção seria de que se você encontrar algo efetivamente necessário de dizer para você e para o mundo, esse dizer vai encontrar a sua função no mundo também. Alguém vai acolher aquilo que você disse. Se isso que você diz é autentico, vai haver quem encontre sentido nisso.


Por: Catarina Sousa
Fotografia: Bruno Colaço/4SEE

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