José Tolentino Medonça: “O poema é que me mostra o que eu ando a dizer”

É padre na Capela do Rato, em lisboa, professor e vice-reitor na Universidade Católica, e foi nomeado por Bento XVi para consultor do Conselho Pontifício para a Cultura em 2011. A poesia, para si, confunde-se com tudo o que faz?

O Rimbaud dizia “Je suis un autre” [Eu sou um outro]. Há, em todas as vidas, uma dimensão de alteridade em relação a nós próprios. Não somos apenas uma coisa só. Somos um conjunto de componentes, de desejos, de memórias, de caminhos, de projetos. E é interessante sentir esse lado quase laboratorial da vida interior de cada pessoa. É também assim que me sinto, a habitar o ‘entre’: entre projetos, entre caminhos, entre memórias, entre visões. Não sinto uma falta de unidade. Sinto que aquilo que, aos olhos de outros, pode aparecer como uma dispersão, é a resposta ao apelo polifónico da própria vida. A vida não nos chama de uma maneira só, chama-nos com vozes diferentes que são no fundo a única voz. A escrita é uma espécie de ponte, funciona como uma espécie de resíduo, um lugar, por onde tudo passa e algumas coisas ficam.

BI
Nasceu na Madeira em 1965
Tem 4 irmãos
Viveu em Angola até aos 8 anos
Editou o seu primeiro livro de poesia Os Dias Contados em 1990
Foi laureado com o Prémio Cidade de Lisboa de Poesia em 1998
Recebeu o Prémio Literário da Fundação Inês de Castro em 2009
Dirige a revista Didaskalia, editada pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
Foi considerado um dos 100 portugueses mais influentes em 2012, pela Revista do Jornal Expresso (2012)
É diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura e vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa
É consultor do Pontifício Conselho para a Cultura, no Vaticano.

Em que momentos escreve?
Há momentos mais favoráveis do que outros.

Quais são eles?
As musas visitam-nos e, quando elas nos visitam, têm um caráter de imponderabilidade, de coisa que não se pode adiar. Aí, a escrita e a poesia acontecem de uma forma mais intensa. Nos outros momentos, ou seja, na maior parte do tempo, a poesia é uma atenção ao real, é um pequeno caderno que trago no bolso, onde vou anotando imagens, palavras, frases, todos os dias, a todas as horas.

É frequentemente descrito como uma das vozes “mais originais” ou uma das vozes “mais intensamente radicais” da poesia portuguesa contemporânea. Como reage a essa descrição?
O conceito de originalidade é-me muito caro. No sentido em que acho que cada um de nós é chamado a ser original. Mesmo convivendo e prolongando uma tradição, na escrita, na vida e na crença, a verdade é que temos de ser isso e, ao mesmo tempo, originais. O que me é pedido é que seja um mestre original, um poeta original, um cristão original.

A originalidade vem dessa liberdade da escrita que defende para si?
Vinícius [de Moraes] dizia que beleza é fundamental. Eu acho que liberdade é fundamental, como o é perceber que as perguntas são muito mais preciosas do que as respostas. E que, no fundo, um poeta é uma máquina de fazer perguntas ao mundo, à realidade, a si próprio. É aí que me parece que está o contributo que eu posso dar.

Revê-se nessa ideia de que é “uma das vozes mais intensamente radicais” da poesia portuguesa contemporânea?
O que eu não me revejo é num conformismo. É em ser mais um, em ser mais uma voz, nesta mecânica de homogeneização e de repetição, a que uma certa cultura e que um certo sistema dominante nos obrigam. Nisso não me revejo. Se sou outra coisa, outros o dirão.

Qual é a fonte dessa intensidade?
A intensidade vem de uma confiança que não é autoconfiança e, ao mesmo tempo, de um desprendimento muito grande, de uma liberdade muito grande.

Está relacionada com o sacerdócio?
Esta intensidade sem dúvida que se liga com a fé. Quando eu falo de confiança, estou também a dizer de outro modo o que é a fé, uma convicção fundamental de que há um sentido, de que há uma razão, de que há uma esperança, de que há um caminho, de que há um antes e um depois, e que alguém espera por nós do outro lado da corrente.

A sua poesia é expressão dessa fé?
Para mim, a poesia não é instrumental. Eu não levo um programa de ideias para expressar na poesia. A poesia é que me revela. O poema é que me mostra o que eu ando a dizer. E daí talvez uma intensidade. Porque o poema não se faz de ideias, não se faz só de palavras, faz-se de uma experiência e, nessa experiência, está o que somos.

A poesia e a fé são, para si, indissociáveis? Uma alimenta a outra?
Alimentam muito. A fé alimenta-se muito daquela pobreza extrema, esse modo pobre que é a poesia. No fundo, o estar sempre a começar. Cada poema é um início. Como o estar sempre perante o branco, perante o silêncio, perante o não saber. E recomeçar. A fé alimenta-se muito disso, porque a fé não é o acumulado do ontem, mas é viver no aberto da esperança e do corpo, do nascer
e do morrer, do amor e da fragilidade. E no fundo a escrita treina-me para a sucessão de começos que a vida é nas suas várias dimensões.

Esse “viver no aberto” está relacionado com a imensidão do espaço que preencheu a sua infância em Angola [onde viveu entre os 12 meses e os oito anos]?
O professor João dos Santos diz que a infância é o grande segredo do homem e a Flannery O’Connor diz que quem sobrevive à sua infância sobrevive a tudo. (risos)

A sua infância e os lugares por onde passou definiram a sua vocação?
Criaram condições. De Angola, tenho memórias do espaço, um espaço a perder de vista, de todos os caminhos serem caminhos longos, de haver um silêncio da própria paisagem. Como se a paisagem nos pedisse um tempo mais vagaroso, mais paciente, mais demorado para a contemplação. E guardo dentro de mim a memória dessa imensidão. Lembro-me de, às vezes, ir de barco com o meu pai que era pescador. Tinha cinco, seis, sete anos, e lembro-me de olhar para o fundo do mar ou para a costa, e de estar completamente extasiado com a poesia do mundo. Essa contemplação espontânea acabou por me dar uma capacidade de perceber o grande que habita o mínimo, que habita o escasso. E nesse sentido, marcou-me muito.

Os livros também o conduziram à escrita?
Os livros chegaram mais tarde, na adolescência, quando entrei no seminário [na Madeira], e de repente estava a viver numa casa com uma biblioteca absolutamente extraordinária, com livros que cobriam as paredes, livros de géneros muito diferentes. No seminário, por exemplo, estava o embrião de um museu de história natural. Havia os livros de História, de Geologia e depois todos os livros de Filosofia. Era como habitar um mundo admirável. Os livros que li, que leio, têm dado sentido à minha vida.

Entrou no seminário com 11 anos na Madeira. Soube então muito cedo que queria seguir essa via?
Uma disponibilidade existia, embora não se possa pensar que uma criança possa ter já a sua vida decidida. Havia essa disponibilidade para fazer um caminho onde a dimensão espiritual fosse estruturante.

Tinha essa consciência aos 11 anos e disse-o aos seus pais?
Tinha e disse-lhes. Foi uma notícia muito má. Receberam com muita precaução e alguma oposição. Mas houve a verificação, depois no tempo, de uma certa coerência nesta minha disponibilidade. Não era apenas o capricho de um adolescente. Penso que se reconciliaram [com esta escolha] já eu estava na universidade a estudar Teologia aqui em Lisboa e perceberam que era um projeto coerente e que correspondia de fato à minha vontade de forma muito livre e amadurecida.

Os seus leitores podem ser seus amigos no Facebook ou noutra rede social?
Não estou no Facebook, porque não tenho tempo. Os amigos reais já se queixam tanto da minha falta de tempo. Seria só criar mais amigos insatisfeitos, e mais culpabilidade.

Como vê este conceito de amizade virtual?
Acho que pode ser importante. Eu não tenho nada uma visão demonizada das redes sociais. É um caminho. Para muita gente, é uma forma de vencer a solidão, de colocar as pessoas a comunicar, a escrever, a pensar, a partilhar. Tenho uma ideia muito positiva do impacto das redes sociais e do que elas têm significado para muita gente. Vejo isso nos meus contatos. Mais do que ampliar solidões, como às vezes necessariamente acontece, as redes sociais ajudam a criar arquipélagos, a aproximar as pessoas.

Mas também ampliam solidões?
Por vezes, sim. Porque é também um mundo de muita ilusão e fabricação, onde é mais o que as pessoas desejavam ser do que aquilo que são. E, no fundo, também um lugar de muito desencontro, de muita desconfiança.

Nalgumas ocasiões, citou a escritora Flannery O’Connor para evocar a experiência do mal, a ideia de que todo o ser humano é capaz do Mal, nalgum momento da sua vida ou do seu quotidiano. É a ouvir os crentes da capela do Rato, que isso se torna, para si, mais evidente?
Isso torna-se para mim evidente, antes de tudo, em mim. A evidência da fragilidade e do dilema e do mal, antes de tudo, na consciência que tenho de mim. Muitas vezes, posso dizer o que São Paulo diz na Carta aos Romanos – “Não faço o Bem que quero, mas o Mal que odeio”. E depois, de fato, também acompanhando a experiência de vida, a gente percebe como, havendo as condições para que o Bem se multiplique, muitas vezes ele encontra em nós obstáculos, incapacidades, intolerâncias. Isso faz parte do caminho do homem, do caminho do ser humano. O Mal marca a experiência da nossa humanidade. O Mal é o limite, é o poder fazer uma coisa, e não a fazer, escolher outro caminho. Eu estou convencido que o Mal maior em nós provém da omissão. Às vezes não temos a liberdade interior de avançar para o Bem.

Tolentino“Neste momento, estou a ouvir ‘com muita atenção o último disco de Beck (Morning Phase) e um conjunto de discos antológicos de cânticos de habitantes da montanha, alguns espanhóis. É uma coisa que me interessa fazer incursões por territórios musicais um pouco diferentes do meu, mas que me transportam, me fazem viajar.”

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Tolentino2Estou a ler o livro do Rafael Chirbes, que é um narrador castelhano e escreveu o Crematório. É um livro que me interessa porque reflete muito esta crise em que vivemos, nas suas várias dimensões. Além disso, leio sempre um conjunto de ensaios que têm mais a ver com Estudos Bíblicos, com a figura de Paulo. É outra das minhas grandes paixões. José Tolentino Mendonça lê sempre “coisas muito variadas” e ouve discos também muito diferentes. É um admirador de Patti Smith, de quem diz viver “com a mesma atenção a realidades muito diferentes”.

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Antologia Poética
A presença ou a ausência de Deus numa antologia da poesia do século xx Adília Lipes, Daniel Faria, Armando de Silva Carvalho, Miguel Torga ou Ruy Cinatti são apenas alguns dos nomes presentes na antologia da poesia portuguesa do século xx que José Tolentino Mendonça coordena com o escritor Pedro Mexia. A antologia começa em 1901 com Vitorino Nemésio e reúne poetas para quem “a questão de Deus é persistente” seja por pertença à Igreja ou por afastamento relativamente a ela. Em todos eles, “a obra não se consegue explicar sem a questão de Deus”, explica José Tolentino Mendonça do livro que deverá sair antes do verão, numa edição da Assírio & Alvim. “Uns poetas aderiram e outros mantêm um distanciamento muito grande em relação à Igreja, não são católicos, mas viveram ou vivem continuamente a refletir essa experiência também”, continua. Entre eles, têm em comum a questão de Deus como “uma questão para decifrar, para interpretar o universo poético” pessoal. Será esse o critério. Cada autor poderá ter vários poemas. E todas (ou quase todas) as gerações da poesia portuguesa do século xx estarão representadas: a Presença, os Cadernos de Poesia, a Poesia 61. A ideia partiu de Pedro Mexia que convidou Tolentino Mendonça
“não para criar um livro de religião ou de teologia”, diz este último, mas para fazer “um grande livro de poesia”.

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ZELOTA, Reza Aslan
Tolentino3Reza Aslan é um historiador irano-americano. Neste livro apresenta a doutrina do “revolucionário” Jesus, inversa daquela que apregoa a Igreja Católica.

“Por um lado é mais um livro sobre Jesus. E Jesus está na montra. Já não está no vitral, está na montra. Estar na montra quer dizer chegar a ele por acessos absolutamente imprevistos. Até como este, de um autor de outra tradição religiosa que sente também o fascínio pela personalidade de
Jesus e que, à sua maneira, tenta chegar a ele, tenta chegar ao seu mistério, ao seu segredo.
No fundo, o que a personagem Jesus tem de atraente é a compreensão de que é inesgotável. Sobre ele, diz-se muito e ainda há muito a dizer, avançamos por hipóteses. A hipótese de Reza Aslan não é uma hipótese original, no sentido de defender que Jesus é zelota. Os zelotas eram um movimento político, de resistência ao mundo romano, que era o poder invasor. Segundo o autor [Reza Aslan] Jesus teria uma ligação a esse movimento. Considero que este livro é mais interessante por aquilo que aponta fora dele do que propriamente pela novidade daquilo que traz. Ajuda-nos a pensar, ajudam-nos a enquadrar Jesus historicamente. Estes livros ajudam-nos a perceber que Jesus estava ligado a uma cultura, naquele tempo concreto, com as problemáticas daquele tempo. E Jesus não vivia numa cápsula, vivia em interação com os grupos, recolhia ideias de uns, passou por outros.
Em relação aos grupos desse tempo, a mim pessoalmente, interessa-me muito mais pensar a ligação de Jesus ao grupo dos Hicénios e ao grupo dos Fariseus do que ao grupo dos Zelotas, o que não quer dizer que não seja bom haver mais um livro sobre Jesus na montra.”

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