José Rodrigues dos Santos: “As palavras bonitas não me interessam”

São já 18 romances (em 15 anos). No mais recente, Sinal de Vida, José Rodrigues dos Santos leva um português ao espaço. Começou por aí a conversa que o autor teve com a Estante, passando depois pela sua ligação ao jornalismo e pelas “palavras bonitas” que quase iam matando a literatura.

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Sinal de Vida remete-nos para um mundo completamente diferente do dos seus livros anteriores. Porque decidiu explorar o espaço?

O tema em que quis tocar desta vez foi a questão da vida e do seu destino. Eu já tinha, de certo modo, aflorado o mesmo tema com A Fórmula de Deus e A Chave de Salomão, mas por via da física. Agora quis fazê-lo através da biologia, porque o grande problema científico que se coloca, com grandes ramificações filosóficas, é se a vida é um acidente ou se está inscrita nas leis da natureza.

Estas duas situações não são filosoficamente neutras: a primeira significa que a nossa existência é um acaso, que não há Deus e tudo é um acidente; a segunda significa que a nossa existência está prevista nas leis do universo, que é uma inevitabilidade, que a nossa existência tem algum sentido. Esse é o debate filosófico que está no centro deste romance.

Eu toquei na questão do espaço porque o problema, naturalmente, é se a vida é um exclusivo da Terra ou se está disseminada por todo o universo. Se for um acidente, é um exclusivo da Terra; se estiver inscrita nas leis da natureza, então está disseminada por todo o universo.

E qual é o nosso lugar no universo? Chegou a alguma conclusão depois de escrever este livro?

Não… As questões que se colocam aqui são puramente científicas, embora com estas ramificações filosóficas. O que se está a descobrir, e este livro assim o demonstra, é que, de facto, a vida não é acidental, está inscrita nas leis da natureza, da física, da química.

Portanto, onde as condições existirem ela vai, inevitavelmente, aparecer. Essa é uma ideia que começa a prevalecer entre os exobiólogos, os biólogos que estudam o fenómeno da vida fora da Terra.


Tive aconselhamento de um astronauta que esteve num space shuttle da NASA. Houve também um elemento da Agência Espacial Europeia que leu todo o manuscrito para fazer observações e correções.


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Apesar de o espaço ser o grande tema de Sinal de Vida, não descura outros tantos a que já nos habituou, como a política. É-lhe irresistível tocar em temáticas inquietantes?

Sim. Eu não era capaz de fazer um romance apenas pela história. Para mim, a história é um veículo para compreender algo que está para além dela. É assim que encaro a literatura.

Se lermos O Processo, de Kafka, aquilo não é apenas a história do K. que é perseguido pela justiça. Não. É um romance que, além da história daquele personagem, nos remete para um problema da justiça.

Portanto, há uma meta narrativa e isso interessa-me. Não me interessa fazer uma narrativa pela narrativa, interessa-me usar a narrativa para chegar a temas que estão muito para além dela.

Então o que o satisfaz mais: a parte da pesquisa ou a da escrita?

Gosto de todas as partes da elaboração de um romance. Gosto muito da investigação, gosto muito da conceção da história, gosto muito de escrever a história… A única coisa de que gosto menos é a revisão, porque é um bocado monótona, temos de ler o livro umas cinco ou seis vezes seguidas e torna-se cansativo. Mas tudo o resto gosto de fazer.

Como foi o processo de investigação para este livro?

Essencialmente li muitos biólogos, de biologia e exobiologia, li coisas de matemática e de física. Tudo como investigação para dominar o tema. Depois, naturalmente, a história em si é outra coisa.

Este é um romance em que o Tomás Noronha vai para o espaço, num space shuttle, e por isso tive aconselhamento de um astronauta que esteve num space shuttle da NASA, que me deu algumas informações. Houve também um elemento da Agência Espacial Europeia que leu todo o manuscrito para me fazer observações e correções.


O tipo de romance de que eu gosto é o romance com uma forte ligação à área não ficcional e é raro encontrar esse tipo de romances no mercado. É por isso que os faço.


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Numa entrevista disse: “Escrevo livros que gostaria de ler e que não encontro no mercado.”

Sim, porque o tipo de romance de que eu gosto é o romance com uma forte ligação à área não ficcional e é raro encontrar esse tipo de romances no mercado. É por isso que os faço.

Mas é compatível escrever para si e para os leitores ao mesmo tempo?

Bom… Eu sou jornalista de formação. Os jornalistas trabalham para os leitores, para os espectadores ou para os ouvintes. E eu faço isso naturalmente. Quando pego num tema, pego num tema porque ele me interessa, e depois ponho-me a pensar: “Como é que vou pegar neste tema de uma maneira que também vá interessar as pessoas?”

Às vezes são temas que, à primeira vista, poderão parecer pouco interessantes. Por exemplo, fiz o Fúria Divina sobre o Islão radical, que é um tema absolutamente desinteressante para os portugueses – não há cá muitos muçulmanos, não há atentados, portanto à partida não há interesse no tema. Mas procurei abordá-lo de uma forma que captasse a atenção das pessoas.

Geralmente, como conjuga o tempo que passa a escrever com o tempo que passa na RTP ou a dar aulas? Como é a sua rotina de escrita?

Não é uma rotina fácil, porque tenho muita coisa para gerir. Mas escrevo essencialmente de manhã. Só escrevo no inverno. O resto do ano é feito em promoções dos livros, revisões ou pesquisa.

Neste momento, por exemplo, ainda estou a pesquisar, ainda não comecei a escrever o romance deste inverno. Isso deverei fazer lá para dezembro ou janeiro. Portanto, não estou o ano todo a escrever, estou três meses a escrever. E quando o faço, faço-o essencialmente de manhã ou até ao início da tarde. Quando estou de folga, faço o dia todo até às 20h00.

Quando está focado na escrita a história apodera-se de alguma forma da sua vida? Ou sabe compartimentar tudo muito bem?

Sei compartimentar. A única coisa que para mim é fundamental é poder manter a concentração e não estar constantemente a ser interrompido. Mas sou capaz de trabalhar em qualquer sítio. Por exemplo, com Sinal de Vida, escrevi dois capítulos no avião quando ia para Macau.


A esmagadora maioria das vezes que sou interpelado na rua é por causa dos romances, não por causa da televisão.


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Sente que existem portugueses que olham para si apenas como jornalista e outros como escritor?

Não, não sinto. Na verdade, acho que cada pessoa cria a sua imagem própria. Não sei, verdadeiramente, como é que as pessoas me veem, mas é um facto que a esmagadora maioria das vezes que sou interpelado na rua é por causa dos romances, e não por causa da televisão.

Disse várias vezes que escrever, para si, é prazer e não trabalho. Diria que a vida de romancista o preenche mais do que a de jornalista?

São vidas diferentes. O romancista tem coisas muito interessantes, como o facto de não depender de ninguém. Já o meu trabalho em televisão depende de muita gente: do coordenador, dos repórteres, do cameraman, do realizador, do homem do som, do da montagem… É um trabalho em cadeia, é um trabalho de equipa.

No caso do romance, sou só eu e o computador. Só quando o texto já está acabado é que entra a editora, porque até aí dependo de mim próprio. O que é uma coisa muito boa. Para compensar, é uma vida muito solitária, estamos o dia fechados em casa, e a vida de jornalista permite-me sair de casa e estar em contacto com outras pessoas e com o mundo. São trabalhos que se complementam.

Este ano lançou dois livros e no ano passado também. Escreve sempre a um ritmo frenético?

Sim, quando acabo um livro começo logo outro. Essa é a minha vida. Há escritores que lançam um livro e depois ficam anos sem fazer nada. Eu não era capaz de fazer isso, porque tenho de ocupar o tempo a fazer e a criar coisas, tenho uma necessidade natural de criar. E criar um romance, mais do que trabalho, é um ato criativo. É isso que me preenche.


Quando acabo um livro começo logo outro. Essa é a minha vida.


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Já lhe aconteceu olhar para um dos seus livros e pensar que, se fosse hoje, teria feito algo diferente?

Já aconteceu, porque, à medida que vou publicando romances, vou apurando a técnica. Sobretudo nos romances de início há algumas coisas que teria feito hoje de maneira diferente. Mas, por outro lado, o romance também reflete a sua época e a minha fase enquanto escritor. O facto de estar escrito daquela maneira, embora do ponto de vista técnico pudesse ter sido feito de maneira diferente, é interessante porque tem alguma originalidade.

Mas refere-se a algum romance específico?

Não. Os romances de início, eventualmente, poderiam ter sido escritos de maneira diferente, porque a escrita romanesca vai alterando. É preciso ver que eu sou jornalista de profissão. Por exemplo, A Ilha das Trevas é um romance no qual eu estava inicialmente muito agarrado ao discurso não ficcional, e houve algum exercício para me ir libertando disso.

Considera-se hoje um melhor escritor do que quando escreveu O Codex 632, o primeiro livro de Tomás Noronha, há 12 anos? De que formas evoluiu?

Evoluí sobretudo na compreensão – especialmente nos romances do Tomás Noronha – da mecânica do thriller e da necessidade de ter a história como motor da narrativa. Depois há coisas ali que são permanentes – e vê-se isso desde o primeiro livro –, como o esforço de escrever de uma forma visual. Isto é, eu dizer uma coisa e nessa altura as pessoas já não estão a ver as palavras, mas sim a imagem.

Em A Filha do Capitão começo a descrever o soldado português na trincheira com um sobretudo de lã e depois ponho os alemães a dizerem “Méééé”, a brincarem com ele porque parecia um cordeiro. Portanto, a certa altura, o leitor já está a imaginar o soldado com a lã à sua volta e está a ver o alemão do outro lado a brincar com ele. É escrever por imagens. E isso é algo que se encontra em todos os meus livros.


Tenho uma necessidade natural de criar. E criar um romance, mais do que trabalho, é um ato criativo. É isso que me preenche.


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Isso de escrever de forma visual facilitaria a adaptação dos seus romances ao cinema. Gostaria que isso acontecesse?

Sim, mas não tenho nada a ver com isso. O negócio do cinema ultrapassa-me. Eu escrevo por imagens porque gosto de escrever assim. Lá está, são os livros que gosto de ler.

Se o livro está escrito de maneira a dizer “vejam como sou virtuoso a escrever, como ponho aqui palavras bonitas”, nessa altura não estou a ver o que o texto me está a dizer, estou entretido com a forma. E isso a mim não me interessa. Acho que muita da literatura – e é legítimo fazer isso – se centra nisso, nas palavras bonitas, e nada disso me interessa. Não estou a dizer que é errado, estou a dizer que não me interessa a mim.

O que me interessa é construir imagens e permitir, através da visualização da história, a compreensão. Nós compreendemos um tema – e aqui vamos até ao nosso neurocientista António Damásio – não apenas racionalmente, mas emocionalmente. Porque estamos lá. Estamos ao lado do soldado português. Em O Reino do Meio estamos ao lado de Salazar, a vê-lo conversar com o Humberto Delgado. E estamos com Salazar no momento em que rebenta a bomba do atentado de 1937. Está a ver?

Portanto, tornamo-nos nós próprios testemunhos da história, o que nos permite uma compreensão emocional do tema. Isso consegue-se recriando a época e é esse o esforço que eu faço.

Mas sabe se já existem planos para os seus livros chegarem ao cinema?

Existem, sim. Os direitos de alguns livros foram comprados, há produtoras a trabalhar neles, agora se aquilo vai dar em alguma coisa não sei, nem é do meu trabalho. O meu trabalho é escrever os livros, não posso responder pelos outros.


Quem consome livros tem de ter um determinado nível de educação. E a maior parte das pessoas não lê. Isto acontece em qualquer país, não apenas em Portugal.


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Os seus livros vendem, em média, quantos milhares de exemplares em Portugal?

Muitos livros venderam 200 mil, mas normalmente andam nos 140 mil, por aí.

É um número que ambiciona ultrapassar?

Não, as tiragens só são relevantes como índice de satisfação dos leitores. Os leitores são muito exigentes. Não são um consumidor qualquer. Quem consome livros tem de ter um determinado nível de educação. E a maior parte das pessoas não lê. Isto acontece em qualquer país, não apenas em Portugal.

Os leitores são uma minoria, mas quem gosta de ler são pessoas exigentes, com um olhar crítico sobre as coisas. Portanto, quando tenho um público que é exigente e que adere aos meus livros, naturalmente é algo que encaro com satisfação. Mentiria se dissesse outra coisa.

Ganhar prémios literários faz parte das suas ambições?

Se ganhar prémios literários – e já ganhei alguns – fico contente, mas o maior prémio que tenho é a confiança do leitor. Não há prémio maior, porque nós não trabalhamos – eu pelo menos não trabalho – para quem dá prémios literários. Eu trabalho para os leitores. É a eles que eu me dirijo. E esse é o verdadeiro prémio para mim.


A Isabel Allende disse-me que o nouveau roman, que é a literatura centrada na linguagem, ia matando a literatura.


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Falou há pouco que os leitores são uma minoria. Acha que em Portugal ainda estamos muito agarrados à literatura do passado e que os autores contemporâneos não são suficientemente valorizados?

Não sei… Acho que temos grandes autores clássicos, a começar pelo Eça de Queirós, claro, mas acho que Miguel Sousa Tavares deu uma resposta a isso quando publicou o Equador. Na altura perguntaram-lhe sobre o êxito do Equador e ele deu uma resposta que eu faço minha. Foi algo mais ou menos assim: “Diz-se que em Portugal as pessoas não leem. Não. As pessoas leem se os livros forem interessantes.” Eu diria a mesma coisa. Se escrevermos livros interessantes, as pessoas vão ler.

Escrever livros centrados na linguagem é um exercício academicamente interessante, mas não é interessante para os leitores. A Isabel Allende disse-me que o nouveau roman, que é a literatura centrada na linguagem, ia matando a literatura. Porque as pessoas não entendem o que estão a ler. Leem várias vezes a mesma página e depois sentem-se burras. E ninguém gosta de se sentir insultado, mesmo implicitamente. Então começou a haver uma rejeição.

A tradição de contar histórias é a tradição mais enraizada da literatura e isso é uma coisa que o mundo anglo-saxónico nunca abandonou. Na Europa continental houve uma grande evolução do nouveau roman, mas a Inglaterra e a América permaneceram sempre, com raras exceções – como James Joyce ou Virginia Woolf, que fizeram romances mais de ensaio –, com a tradição de contar histórias. [Ernest] Hemingway contava histórias, Philip Roth conta histórias, Ian McEwan conta histórias. Não deixam de ser grandes escritores por isso e têm muitos leitores, porque as pessoas não se reveem numa literatura centrada na linguagem.

Quais são as suas principais influências literárias?

Diria que o autor que mais me influenciou foi Somerset Maugham, justamente pela capacidade que ele tem de escrever claro, simples e interessante. É capaz de tocar os temas mais profundos de uma maneira sempre muito clara. E acho que essa é a marca da boa escrita.


Se escrevermos livros interessantes, as pessoas vão ler.


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Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

Foi a biografia do Hergé, comprei-a no Canadá e li-a em francês. Mas esse foi por prazer. Literalmente, o último livro que li foi hoje, só que foi em pesquisa para o meu trabalho. Li The Selected Works of Kim Il Sung. Ontem, por exemplo, também em trabalho, li três livros: um sobre Lenine, um sobre Estaline e outro sobre Enver Hoxha.

Há pouco, disse que já está a trabalhar no seu próximo livro. Já nos pode contar alguma coisa?

Ainda não. Quando chegar a altura falamos sobre isso.

Para terminar, que título daria a um livro sobre a sua vida?

Não sei… Nunca me ocorreu nem tenho distanciamento suficiente para poder fazer uma coisa dessas. Portanto… Livro em Branco.


Por: Carolina Morais
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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