Na Opinião de José Leite

Aos 5 anos sonhava trabalhar perto de livros, graças ao senhor Medeiros, dono da pequena livraria em Amarante. Aos 41 anos – e na Fnac há seis – é diretor de desenvolvimento de novos formatos e parcerias. E continua a olhar para os livros com o mesmo fascínio da altura em que lia Matilde Rosa Araújo e Ilse Losa, estrategicamente colocados numa estante à sua altura.

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“Nunca, como hoje, se escreveu e se editou tanto.”

Gostava de passar para trás do balcão da livraria do senhor Medeiros.
Na altura escolhia os livros que eram para a sua idade e lia-os sem parar. “Mais do que gostar de livros, é preciso também ser capaz de transmitir aos outros o quanto os livros nos dão, o que podem fazer por nós, pela sociedade, pela cultura do nosso país e do nosso mundo.” Para José Leite é fácil passear pelas livrarias sem se cansar de livros: basta encará-los como portas que “estão ali para serem abertas, para nos transportarem ou nos trazerem algo que alguém construiu e que, num elevado ato de generosidade (a criação), materializou e tornou físico”, sublinha.

Acerca do panorama atual, José Leite acredita: “Nunca, como hoje se escreveu e se editou tanto.” Por
isso, há temáticas que tiveram um crescimento exponencial de escritores. Daí que José Leite defenda: “É inevitável e imprescindível assumirmos uma atitude de permanente vigilância e atenção ao que os leitores
nos dizem nas livrarias mas também o que se transmitem nos blogues, nos fóruns, nas redes sociais. Isto é, assumir uma atitude de vigilância 360º.”

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OS MAIAS


O que começou por ser uma obri- gação tornou-se, à página 10, uma quase veneração! A linguagem com que está escrito e a fina ironia com que o autor define as personagens e apresenta as situações quotidianas da época fizeram-me descobrir o romance realista e naturalista. Não faltavam o fatalismo, a análise social, as peripécias e a catástrofe próprias de um bom enredo passional. E, claro, o “fruto proibido” do amor incestuoso de Carlos da Maia e Maria Eduarda. Os Maias representaram uma nova forma de fazer uma crítica à situação decadente do país e à alta burguesia lisboeta oitocentista, nunca esquecendo o humor.

Autor: Eça de Queirós
Editora: Tinta da China

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O VELHO QUE LIA ROMANCES DE AMOR


Com este livro descobri a literatura latino-americana da forma mais enxuta e cristalina. A história, que se desenrola a partir dos livros que o dentista Rubicundo trazia da “civilização” para a aldeia índia da Amazónia, é enriquecida com uma mensagem que, na altura em que o li (adolescência), me abriu horizontes para a consciência da Natureza e da relação que a Humanidade teima em quebrar e destruir. Foi também com esta obra que descobri Luís Sepúlveda, autor que nunca mais perdi e do qual li todos os livros.

Autor: Luís Sepúlveda
Editora: Porto Editora

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O PROCESSO


O livro conta a história de um homem que se vê envolvido num absurdo processo judicial sem que lhe seja dado qualquer tipo de explicação. Um magistral romance sobre a angústia, a impotência e a frustração do indivíduo numa sociedade opressora e burocratizada do início do século XX. Graças a esta obra descobri outros autores, alguns deles contemporâneos como Alfred Döblin e Thomas Mann, e outro nem tanto, como Roberto Bolaño, sobretudo pela perspetiva, algumas vezes insana e cruel, de ver e encarar a vida.

Autor: Franz Kafka
Editora: Leya

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