Editorial: José Jorge Letria

Livres como livros

José Jorge Letria*

Ler é sempre um acto de lucidez e descoberta, de conhecimento e partilha de saber que não deve depender de modas nem de voláteis ciclos de gosto. Um povo que lê mais é um povo que sabe mais e que, em conformidade com esse princípio, sabe escolher melhor os caminhos que bem se ajustam à sua visão do mundo e da vida. Ler mais é também saber ler o coração e o sonho dos outros, é acrescentar caminho ao nosso caminho de cada dia, é abrir janelas para espaços onde a luz já entrou e iluminou o que havia para iluminar.

Um livro é, como um dia escreveu o Padre António Vieira, “um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”. Mas, sendo tudo isso, o livro é, ao mesmo tempo, mais som, mais voz e mais claridade ao longo do percurso que fazemos. Kafka acreditava que podia, e devia ser, “o machado que quebra o mar gelado que há em nós”, mas o essencial terá dito Pablo Neruda, com a grande sabedoria dos poetas, quando escreveu: “Livro, quando te fecho, abro a vida.”

Por tudo isto é tão importante aquilo que vamos lendo desde que começamos a ler. Refazer a geografia mais longa ou breve desse processo de descoberta e de diálogo é traçar o perfil de uma pessoa e da sua forma de entender o essencial da vida. Os livros que li na infância e na juventude contribuíram para fazer o meu caminho como cidadão e como escritor.

 

Recordo sempre os dias em que li os contos de Hans Christian Andersen, O Principezinho de Saint-Exupéry ou O Diário de Anne Frank, obras que ajudaram a moldar a minha relação com a palavra e com a construção das palavras que partilho com os outros. Falar das nossas leituras de infância não é um mero capricho magazinesco para encher edições de domingo. É uma forma de dizermos quem somos, como começámos e qual o caminho que seguimos para dar seguimento à paixão da leitura e, tantas vezes também, da escrita.

Foi por ter lido o que li que depois li Sartre, Camus, Boris Vian, Franz Kafka ou Jorge Luis Borges, entre muitos outros. Umas leituras franqueiam o caminho a outras, são portas que se abrem para outras portas, para outros lugares, para outros universos dentro de nós. São, afinal, intensos projectores apontados com a sua doce claridade para tudo aquilo que ainda nos falta descobrir.

Também por isso são tão importantes as livrarias, os preços dos livros e os meios de difusão que nos permitem saber o que se publica, sem que tal dependa das pressões da moda provenientes de outros mercados. Escreve-se sempre contra o tempo, contra o esquecimento e contra a morte. Por esta razão, os livros, os que valem a pena, namoram a eternidade, mesmo que possa não parecer a fugaz ilusão de um instante. Ler mais é sempre o mínimo que se pode pedir porque a leitura é, acima de tudo, um acto de liberdade.


*José Jorge Letria escreve de acordo
com a antiga ortografia.

Gostou? Partilhe este artigo: