Editorial: José Eduardo Agualusa

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José Eduardo Agualusa

Em 1975, quando Angola, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé proclamaram a independência de Portugal, as literaturas desses países ainda eram quase apenas uma promessa – mas eram uma excelente promessa. Cabo Verde já tinha algumas vozes reconhecidas, autorizadas, como Manuel Lopes, Baltazar Lopes da Silva ou Gabriel Mariano. Luandino Vieira ainda não publicara todos os livros que escrevera durante os anos em que esteve preso, no Tarrafal, em Cabo Verde, mas já recebera o Prémio Camilo Castelo Branco, por um conjunto de contos, Luuanda, estando esse prémio no centro de uma enorme polémica, a qual culminou com a extinção da Sociedade Portuguesa de Autores, a entidade patrocinadora do mesmo. Ruy Duarte de Carvalho publicara meses antes Chão de Oferta. David Mestre dera a conhecer duas coletâneas de poesia, que, embora breves, já anunciavam uma voz singular e inquietante. Moçambique parecia ainda em melhor situação, ao menos na poesia: tinha Rui Knopfli, José Craveirinha, Noémia de Sousa, entre vários outros.

Quarenta anos depois é possível dizer que essa promessa não se cumpriu – ou, ao menos, não se cumpriu plenamente. Os ficcionistas e poetas que se adivinhavam grandes, como os angolanos e moçambicanos atrás referidos, tornaram-se realmente grandes. Contudo, para além deles, não sugiram muitos mais. Em Moçambique apareceu o contista e depois romancista Mia Couto, numa corrida isolada, muito isolada, de qualquer outro.

Em Angola, aí sim, revelaram-se e afirmaram-se vários nomes, como Pepetela, Manuel Rui, Ana Paula Tavares, Sousa Jamba, Manuel dos Santos Lima ou, mais recentemente, Ondjaki. Ainda assim, tendo em consideração que Angola é hoje, depois do Brasil e de Portugal, o país do mundo com maior número de pessoas que têm na língua portuguesa o seu idioma materno, seria de esperar mais e melhor. As razões deste relativo falhanço podem ser atribuídas por um lado aos anos de ditadura e de pensamento único, no pós-independência, e, por outro, ao escasso investimento dos governos dos novos países africanos na educação e na cultura. Foram poucas as bibliotecas públicas que se construíram desde as independências. Em nenhum país africano de língua portuguesa existe uma boa rede de bibliotecas públicas. As boas livrarias, no conjunto dos cinco países, contam-se pelos dedos de uma mão. Não existe em nenhum desses países uma única editora independente com um catálogo interessante.

A boa notícia tem a ver com a diversidade de propostas que nos chegam desses países e com o seu imenso potencial literário. São territórios vibrantes, com uma grande riqueza étnica e cultural, uma história agitada, uma fértil e viva tradição oral. Acrescente-se a isto o namoro entre a língua portu- guesa e os idiomas africanos, e a relação de grande informalidade que os africanos mantêm com o português, reiventando-o e acrescentando-o. O futuro virá. Está apenas um pouco atrasado.

 


Fotografia: Pedro Loureiro

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