José Eduardo Agualusa: “O que não tem de ser escrito não merece ser escrito”

José Eduardo Agualusa - Pedro Loureiro

O premiado escritor angolano José Eduardo Agualusa revela à Estante detalhes do seu novo romance, A Sociedade dos Sonhadores Involuntários.  E fala sobre a paixão por África, Portugal e Brasil.

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A Sociedade dos Sonhadores Involuntários
O novo romance de José Eduardo Agualusa é apresentado como uma “fábula política”, reunindo personagens tão distintos como um jornalista angolano, uma artista plástica moçambicana, um neurocientista brasileiro e um antigo guerrilheiro. A unir todas estas figuras estão os sonhos, em simultâneo escapatória e ferramenta de transformação num país dominado por um regime totalitário.

Seis anos e 300 páginas depois, será lançado o romance A Sociedade dos Sonhadores Involuntários. O que nos pode contar sobre esta sua mais recente obra?

Quem leu alguns dos meus livros anteriores, e gostou, possivelmente gostará também deste livro, pois pertence à mesma família: trata-se de uma sátira política, que parte da realidade angolana, mas vai um pouco além.

Como surgiu a ideia para esta obra?

A partir de uma série de conversas com um neurocientista brasileiro, Sidarta Ribeiro, que vem trabalhando sobre sonhos. Também me inspirei em eventos reais, concretamente na prisão do Luaty Beirão e restantes companheiros.

O cenário é África. O que significa África para si?

O cenário é sobretudo Angola, com algumas passagens pelo Brasil, África do Sul e Moçambique. Sou um africano cidadão do mundo. África é o meu lugar de origem, a partir do qual olho o resto do mundo.

Angola é a sua terra, mas nunca escondeu um carinho especial por Portugal e Brasil. O que o cativa nestes países, que acabe por ser transportado para a sua escrita?

São países com os quais partilho universos culturais – vai muito para além da língua.

Romances, contos, livros infantis… Tem alguma preferência enquanto autor?

Não. São desafios diferentes. Nem se pode dizer que um género seja mais fácil do que o outro. Gosto de todos.

Foi um dos seis finalistas do Man Booker International Prize em 2016. Tem alguma ambição em termos de prémios literários?

Prémios são elogios, são sempre um incentivo para quem escreve.


“Escrevo para saber o que vai acontecer. Sigo os personagens. Nunca faço planos.”


Que título daria a um livro sobre a sua vida?

O Sonhador Involuntário.

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

Todos os escritores são, em primeiro lugar, grandes leitores. Há os livros que lemos. E há os livros que relemos. Esses, os que nos acompanham a vida inteira, certamente nos influenciam. No meu caso, autores como Eça [de Queirós], [Jorge Luis] Borges, [Gabriel] García Márquez, [John Maxwell] Coetzee, Tomás Eloy Martínez, Bruce Chatwin, [Léopold Sédar] Senghor, Sophia [de Mello Breyner Andresen], Ferreira Gullar, Mia Couto, Ruy Duarte de Carvalho, etc.

O que é para si um bom livro?

Bons livros são os que nos empurram para a escrita. Os que nos dão vontade de escrever.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

Lágrimas na Chuva, da Rosa Montero. Conheço bem o universo da Rosa e reconheço-me nele, mas ainda não tinha lido esse romance. Agora estou a ler o novo romance da Patrícia Reis, A Construção do Vazio.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Não tenho rotinas. Escrevo todos os dias, quando posso e onde for possível. 

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

Sempre no computador, a menos que esteja em viagem e não consiga utilizar o laptop. Então posso escrever num bloco, num guardanapo de papel, no telefone ou num iPad.

Costuma planear todos os detalhes do que escreve ou deixa-se levar pelo momento?

Escrevo para saber o que vai acontecer. Sigo os personagens. Nunca faço planos.

Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Estou a organizar listas com ideias.

Qual é a pior parte de ser escritor?

Responder a entrevistas.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

O que não tem de ser escrito não merece ser escrito.


Por: Carolina Morais
Fotografia: Pedro Loureiro

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