Jorge Bucay: “Nos meus livros, espero que encontrem formas de pensar”

jorge-bucay-revista-estante-fnac

Em conversa com a Estante, o psiquiatra argentino Jorge Bucay apresenta o processo de escrita que o levou a vender mais de 10 milhões de livros em todo o mundo. E o que acha das comparações com o brasileiro Paulo Coelho.

O Caminho da Autodependência
Chega às livrarias portuguesas, em março, um novo livro de Jorge Bucay, autor de obras como As Três Perguntas, O Mito da Deusa Fortuna e 20 Passos para a Felicidade. Em O Caminho da Autodependência, o psiquiatra argentino aborda a dependência como uma forma de egoísmo que conduz ao isolamento e apela ao desenvolvimento da crucial autodependência.

Tem sido apelidado, por parte de alguns críticos, como o Paulo Coelho da Argentina. Como encara esta comparação?

Creio que essa comparação é mais do que generosa para comigo. Paulo Coelho publicou um livro que foi um dos cinco mais vendidos de sempre. Refiro-me a O Alquimista. Por isso, ser comparado a um homem como ele é um elogio. Mas creio que é uma comparação tão válida ou tão inválida como dizer que o Paulo Coelho é o Bucay do Brasil.

Há algum tempo, estivemos os dois na Feira do Livro de Buenos Aires e fomos entrevistados em separado. Na sua entrevista, ele disse: “Não sou um terapeuta, sou um escritor. Limito-me a escrever e não me diz respeito aquilo que as pessoas fazem para se iniciarem nos meus contos.” No mesmo instante, estava eu a dizer: “Não sou um escritor, sou um terapeuta. Aqueles que desfrutam de mim como produtor de contos estão a exagerar as minhas virtudes.”

Os seus livros são principalmente sobre relacionamentos e amor. Pensa que as pessoas os procuram para escaparem à realidade ou para encontrarem inspiração para enfrentarem os seus próprios problemas?

Quem escreve nunca sabe o que leva as pessoas a chegar aos seus livros. Por vezes é uma recomendação, outras vezes é um acaso, uma oferta, quem sabe? Mais importante do que o que as pessoas procuram nos meus livros é o que encontram. Espero que encontrem algumas “formas de pensar”.  Os meus livros não são livros de autoajuda, por isso não têm demasiadas respostas. Mas estão cheios de perguntas que têm de ser feitas, de modo a que se encontrem as soluções. Parece-me que isto ajuda os leitores a enfrentarem os seus problemas. Será bom para eles, como foi bom para mim enfrentar estas perguntas que hoje compartilho.

O que o motivou a estudar estes assuntos? Foi uma necessidade de entender a sua própria natureza ou antes uma ampla curiosidade por outras pessoas?

Estou seguro de que se trata de uma combinação das duas coisas. Penso que tudo começou com uma intenção de partilhar algumas coisas que me ajudaram a entender os outros. No entanto, à medida que escrevemos, vamos percebendo que não escrevemos apenas sobre nós próprios. Quem escreve funciona, na verdade, como um curandeiro, um auxílio, uma forma de aclarar os seus próprios caminhos e as suas próprias respostas.

Embora tenha possivelmente começado a escrever com a intenção de levar algum consolo ou ajuda a outros, acredito que, em última instância, acabei por ser eu o mais ajudado com aquilo que escrevi. E aquele que mais beneficiou com as coisas que disse nos mais de vinte livros que publiquei ao longo de mais de trinta anos.

Como refere, publicou mais de vinte livros e vendeu milhões de cópias em todo o mundo. De que forma influencia isto o seu trabalho como terapeuta?

Sem dúvida que ser lido, ser conhecido ou ter uma certa influência sobre algumas pessoas que nos leem ou seguem gera uma grande responsabilidade em cada um de nós. Por exemplo, saber que muitos adolescentes leem os meus livros redobrou o meu cuidado sobre cada palavra que utilizo, cada ideia que proponho, cada pormenor que me ocorre.

Numa sociedade onde as referências são no mínimo raras ou fugazes, acho que aqueles que têm uma certa influência sobre alguns milhares de pessoas devem ser muito responsáveis com as coisas que dizem. Assim, trato de ser fiel para com aquilo que acredito, fiel para com aquilo que penso, honesto para com as minhas ideias, mas acho sobretudo que escrevo com  cuidado para que qualquer pessoa me possa compreender. Inclusive aquelas que compreenderiam ideias mais complexas.


Mais importante do que o que as pessoas procuram nos meus livros é o que encontram.


Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Se me perguntarem que epitáfio colocaria sobre o meu túmulo, escolheria certamente o que tenho previsto: “Jaz aqui alguém que fez tudo o que podia para ser feliz, e conseguiu”.

Quais são as suas principais influências e de que formas se manifestam no seu trabalho?

Uma família maravilhosa, composta – misteriosamente, nos tempos em que vivemos – por um homem e uma mulher que se amavam de forma muito consciente, que se desejavam muito, que gostavam muito dos seus filhos e que ensinaram os seus filhos a gostarem muito uns dos outros. Ter nascido numa família tão cheia de amor e tão generosa na autoestima, ter crescido e estudado, ter-me tornado quem sou junto a estes dois seres humanos – que vinham de famílias bastante invulgares e pouco funcionais – foi determinante, tanto para o meu irmão como para mim.

Depois estarão as influências de todos os meus professores: o Sr. Almejun, meu professor do 3.º ano na escola primária; o Sr. Fernández, meu professor do 6.º ano; a Srta. Mariano, responsável pelas primeiras coisas que escrevi na minha vida. Quando tinha 10 anos, escrevi-lhe um poema a pedir que se casasse comigo, algo que rejeitou, felizmente para ela.

Sigo com todos os meus professores de Psicologia: Dra. Saslavski, Dr. Cernich, Dra. Schnake, Firtz Perls, o grande mestre Osho. Todas as pessoas que li, que encontrei ao longo da vida e que me ensinaram tudo o que sei.

Termino com todos os meus leitores, todos os meus alunos, todos os meus pacientes e, claro, os meus filhos, através dos quais a cada dia aprendo mais.

O que é um bom livro, na sua opinião?

Existem várias definições que se podem ler e não faz falta criar uma nova. Alguns dizem que um bom livro é aquele que se pode ler mesmo que já se saiba como começa, prossegue e termina. E que temos vontade de reler depois de terminarmos. Outros dizem, e estou de acordo, que um bom livro é aquele que te deixa uma ideia, ou pelo menos uma ideia sobre a qual pensar. Outros ainda dizem que um bom livro é aquele que se transforma num bom amigo, que te acompanha durante pelo menos alguma parte da tua vida. Seja como for, estou convencido de que um bom livro é, em última análise, aquele que não te chega ler e que, por alguma razão misteriosa, te dá gosto guardar na tua biblioteca.

Qual foi o último livro que leu?

Um livro maravilhoso: um romance policial, que é o que gosto de ler quando não estou a trabalhar e me quero embrenhar numa leitura. Chama-se Um Assassino Entre os Filósofos, de Philip Kerr. A única coisa que posso dizer é que me parece o melhor romance policial que alguma vez li.


Se me perguntarem que epitáfio colocaria sobre o meu túmulo, escolheria certamente: ‘Jaz aqui alguém que fez tudo o que podia para ser feliz, e conseguiu.’


Como é a sua rotina habitual de escrita?

Infelizmente para quem ler esta entrevista, não poderei dizer qual é a minha rotina, porque não tenho nenhuma. Lamentavelmente, não sou um escritor. Por isso, não tenho essas coisas que os escritores têm: horas, fontes, lugares, maneiras de se inspirarem. Só escrevo quando tenho algo a dizer. E nunca me sento a escrever a menos que já tenha decidido o que tenho a dizer.

Por isso, a rotina é quando tenho tempo, quando tenho algo a dizer, quando tenho algo pensado. Nessa altura, depois de pensar muito, investigar e ler sobre o assunto, provavelmente sento-me e ponho-me a escrever. Mas pode ser em qualquer lugar, em qualquer circunstância, a qualquer hora. Por vezes há lugares que se prestam mais a isto: os aeroportos, por exemplo, são bons lugares para mim. Escrevo muito quando lá estou.

Escreve o primeiro rascunho à mão ou no computador?

No início, viajava pelo mundo com a minha agenda e o meu lápis – com o qual gosto muito mais de escrever do que com a caneta. Nos tempos que correm, e para não levar tantas coisas, o computador ou o tablet substituíram o lápis e o papel. Na maioria das vezes, escrevo no computador.

Costuma planear todos os detalhes da história de antemão? Ou deixa-se levar pelo momento?

Quando trabalho, não necessito de qualquer inspiração. Não nos esqueçamos de que não escrevo ficção, escrevo sobre psicologia, e não é necessário inventar a depressão ou a felicidade antes de me pôr a escrever.

Por vezes, quando escrevo um conto, trabalho muito para lhe dar uma ideia completa antes de o escrever. Não tenho qualquer possibilidade de me movimentar pelas páginas em branco. O que às vezes acontece é que, ao escrever uma história nova, algum dos personagens me diz como prosseguir, sem que dê conta. Eu não acreditava que isto era verdade, mas quando escrevi o meu primeiro romance, El Candidato, foi o que aconteceu. Houve um momento em que não encontrava a saída de uma situação dramática e um dos personagens, a Irene, disse-me como prosseguir.

Como lhe surgiu a ideia para o seu último livro?

O meu último livro escrito a solo é um conto longo (ou uma novela curta) que se chama “Um Cuento Triste No Tan Triste”. Cheguei a ele depois de viver três anos em Durango, no México, uma cidade repleta de famílias onde havia sempre um elemento morto, produto da guerra brutal com o narcotráfico. Muita gente a sofrer, mulheres que perderam os maridos, crianças que perderam os pais, pais que perderam os filhos. Ao viver isto, achei que tinha de escrever uma história para eles, falando da cura e da dor gerada por uma perda. E lembrei-me de um antigo trabalho que fiz numa oficina de criatividade, sobre um menino que tinha uma árvore e morreu. Baseado nesta imagem, escrevi esta pequena novela – ou conto.


Só escrevo quando tenho algo a dizer. E nunca me sento a escrever a menos que já tenha decidido o que tenho a dizer.


Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Estou a trabalhar sobre os contos clássicos, os mais clássicos de todos. Voltei a ler “O Capuchinho Vermelho”, “Pinóquio”, “Branca de Neve”, “Cinderela”. Acho que ainda há sumo para extrair destes limões velhos e esquecidos. E acho que um novo e refrescante olhar sobre o conteúdo destes contos pode fazer com que não sejam esquecidos. Gostaria de colaborar para que assim seja.

Qual é a pior parte de se ser escritor?

Tem duas coisas terríveis. A primeira é que nunca saberás se o que escreves vai agradar a quem ler. Nunca poderás antecipar-te e saber se o que escreves é bom, se será recebido com amor e agrado, se será útil, se o estás a fazer bem. Após a incerteza, pões o texto a caminhar, como com um filho. Só esse momento te vai dizer se fizeste ou não um bom trabalho. Mas até lá nunca o sabes. E a segunda pior parte de ser escritor são, é claro, as entrevistas! [risos]

Que conselhos daria a um aspirante a escritor?

Não creio que seja exemplo de nada e não penso estar em condições de oferecer conselhos a ninguém, muito menos para se tornarem escritores. O que sei é o que, numa ocasião, me disse um cozinheiro: a melhor maneira de aprender a cozinhar é cozinhando. Desperdiçando muita comida, condenando os teus amigos a engolir alguns pedaços intragáveis que preparas, e encomendando uma pizza de última hora quando o que cozinhaste saiu mal.

Acho que escrever se aprende escrevendo. E escrever significa, como todos os grandes autores disseram ao longo dos tempos, corrigir, tirar, descartar muito e voltar a escrever. Mas também significa saber que não existem bons escritores se, atrás deles, não existirem bons leitores. Assim, o meu único conselho é: lê muito, escreve muito e, seguramente, se tiveres algo a dizer, serás um escritor.


Fotografia: Alejandra López

Gostou? Partilhe este artigo: