João Tordo: “Os bons livros são pequenos terramotos”

Fotografia: Vitorino Coragem 

João Tordo desvenda os primeiros detalhes sobre o seu novo romance e explica que nunca planeou nenhum dos livros que escreveu.

O Paraíso Segundo Lars D.

O mais recente livro de João Tordo é o segundo de uma trilogia – na medida em que recupera alguns personagens de O Luto de Elias Gro, mesmo não sendo uma continuação direta deste – que terminará em 2016, com a publicação de um terceiro título. É a história de um escritor sexagenário que encontra, uma manhã, uma desconhecida a dormir no seu carro e decide partir em viagem com ela, abandonando a mulher com quem está casado.

 

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Veja o vídeo da entrevista.


Que título daria a um livro sobre a sua vida?

É difícil dizer. Acho que nunca escreveria um livro sobre a minha vida. Talvez Uma Agulha no Palheiro?

Quais são as suas principais influências e de que forma se manifestam no seu trabalho?

Tantos escritores: Melville, Conrad, Dostoiévski, Bolaño, McEwan, Saramago, os escritores portugueses da minha geração, etc. Manifestam-se de muitas formas, embora, no fundo, eu tenha conquistado com os anos uma voz muito minha, muito própria, intransmissível e pouco permeável a mudanças exteriores.

O que é para si um bom livro?

Um livro que nos deixa atónitos, que nos abre o espaço de consciência. Que descobre o véu da ignorância. Ou que nos enraivece tanto por não o compreendermos. Seja como for, um livro que abane a nossa vida. Os bons livros são pequenos terramotos.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

Foi O Fio da Navalha, de Somerset Maugham. Nunca o tinha lido completo. Achei extraordinário, é um romance que fala de um radical posicionamento na existência, o do jovem Larry que procura incessantemente o absoluto, e as consequências que essa recusa em conformar-se produzem nele e nos que o rodeiam. O próprio Maugham, que é protagonista na história, parece perplexo com as decisões de Larry, com o seu sacrifício, indicando que o caminho da renúncia, do despojamento, é o caminho também da verdade.

Como é a sua rotina habitual de escrita?

Não tenho. Quando começo a escrever um livro escrevo-o todos os dias, de manhã à tarde, sem me deter por um único dia. Só paro quando termino o primeiro rascunho. Quando não escrevo, não escrevo; faço outras coisas. Preciso de períodos longe do trabalho do romance. São períodos mais difíceis, com maiores dúvidas, mas são necessários.

O primeiro rascunho faz-se à mão ou no computador?

Sempre no computador.


“Acho que nunca escreveria um livro sobre a minha vida.”


Costuma planear todos os detalhes do que escreve ou deixa-se levar pelo momento?

Nunca planeei nenhum livro. Nunca fiz uma estrutura, nem um esboço, nada. Começo onde começo e depois o livro constrói-se a si próprio. Não tenho qualquer interesse por obras pré-escritas, ou esquemas, ou estruturas narrativas. Quando escrevo não quero saber de nada disso. Quero (tentar) dizer a verdade sobre um determinado assunto.

Como lhe surgiu a ideia do seu novo livro?

Foi no seguimento do anterior, O Luto de Elias Gro. Este, O Paraíso Segundo Lars D., vai recuperar as personagens do anterior mas num contexto atual. Basicamente eu queria escrever sobre o fim de uma relação de muitos anos. Ambos os protagonistas, a mulher (que conta a história) e o homem (Lars) têm mais de 60 anos. Vivem o fim de um casamento, um fardo, em que a distância emocional se tornou o quotidiano. E, um dia, ele encontra uma rapariga a dormir dentro do seu carro e desaparece com ela. Desaparece do casamento e da sua própria vida. Curiosamente, é essa ausência que os torna, de novo, amorosamente próximos.

Já tem uma ideia para o seu próximo livro?

Sim, mas não quero falar nisso por enquanto.

Qual é a pior parte de ser escritor?

Nenhuma. São todas boas. Se há alguma coisa mais difícil talvez seja equilibrar a vida: escrita, viagens, apresentações, outros trabalhos, tudo sem a “rede” que um emprego fixo nos dá.

Que conselhos dá a eventuais aspirantes a escritor que o estejam a ler?

Que procurem dentro de si a verdadeira motivação para a escrita.

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