João Tordo: “Aquilo que eu faço tem um lugar muito particular em Portugal”

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Publicado em 2008, o terceiro livro de João Tordo, As Três Vidas, valeu-lhe o Prémio Literário José Saramago no ano seguinte e catapultou-o para a fama enquanto romancista.

Dez anos depois, a Estante quis saber o que o autor ainda tem para dizer sobre este livro onde um homem com um passado misterioso se esconde numa quinta alentejana.

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Quase dez anos depois de ter conquistado o Prémio Literário José Saramago, o que ainda significa para si a distinção?

Várias coisas. É um “cartão-de-visita” onde quer que eu vá – e quando digo isto, digo mesmo em todos os lugares, em Portugal e no estrangeiro, onde vou falar dos meus livros.

E o que significou na altura?

Significou uma espécie de validação de um caminho que estava a fazer com serenidade, sendo que As Três Vidas é o meu primeiro romance de “fôlego” – centenas de páginas de uma história familiar, um mini-épico que perpassa a década de 1980 mas se estende para trás e para a frente no tempo, abarcando as guerras europeias e o presente.

Significou conhecer José Saramago nessa ocasião e reencontrá-lo outras vezes, para grande alegria minha, antes da sua morte. E significou um “alavancar” da minha carreira que, a partir daí, mudou completamente, porque passei a ter mais leitores e muito mais visibilidade.

Creio que aquilo que faço tem um lugar muito particular em Portugal – uma literatura essencialmente narrativa, assente numa linguagem trabalhada – que, por vezes, “foge” ao cânone português.

O que mudou em João Tordo enquanto escritor desde então? De que forma acha que a sua escrita evoluiu?

Evoluiu muitíssimo, mas os temas também. A trilogia recente [Trilogia dos Lugares sem Nome] já tem pouco a ver com o que fazia anteriormente. Fui trabalhando a linguagem e aprimorando as histórias, aquilo que me apetecia contar.

Sou um escritor de personagens fortes, de histórias que nascem da força dessas personagens. Acho que, recentemente, comecei a dar valor à forma, e fui delicadamente trabalhando nela.

Mas o próximo livro, por exemplo, é um “regresso” a um lugar narrativo muito parecido com As Três Vidas – uma história longa, quase um épico, contado a vários tempos, com duas ou três vozes diferentes. Acho que sou um escritor do “e”, em vez do “ou”. Não me interessam compartimentos, dizer “faço isto ou aquilo”: gosto de fazer isto e aquilo, perceber que tenho versatilidade suficiente para narrar de diferentes maneiras e escrever livros que são muito diferentes entre si.

As Três Vidas foi o livro que lhe conferiu um estatuto superior no mundo das letras em Portugal? O que lhe passa hoje pela cabeça quando pensa no livro?

Acho que mostrou desde cedo que seria um livro marcante. Lembro-me que, assim que saiu, esgotou logo. E já ia na terceira ou quarta edição quando soube que tinha recebido o Prémio José Saramago.

É um livro diferente do que se fazia em Portugal nessa altura, uma narrativa que se aproxima, na forma e na maneira de contar, e que vai buscar inspiração, aos clássicos com que eu aprendi a escrever (salvo as devidas distâncias, claro!): Moby Dick, Crime e Castigo, 1984, Cem Anos de Solidão… Só que tem um toque contemporâneo e, ainda para mais, é uma história de amor, culpa e redenção. Foi uma experiência tão marcante para mim escrevê-lo que ainda hoje procuro repetir essa experiência de exaltação com uma obra.


Por: Tiago Matos
Fotografia: Rodrigo Cabrita/4SEE

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