Alter Ego de João Tordo

Joao_TordoUma autoentrevista. Perguntas que o próprio autor gostava que lhe tivessem feito das quais nunca ninguém se lembrou.

Este novo romance tem um título diferente. É mesmo diferente? 
É o meu romance mais apaixonado – ou, pelo menos, aquele que mais me apaixonou – uma vez que lida de frente com o tema do amor. ou do desamor. Quem conhecer a minha obra encontrará nele referências e personagens que poderão ser familiares de livros anteriores; mas também encontrará coisas novas: uma voz feminina, a de Teresa, a personagem em torno da qual todo o romance gira, e os segredos e as obsessões que dominaram a sua vida; e Saldaña Paris, o poeta mexicano, que é um dos protagonistas da obra. Daí o título ser menos direto do que os títulos dos meus anteriores romances. É uma obra mais complexa e talvez mais recompensadora.

Mas tu escreves fição, ou escreves histórias verdadeiras? estás a enganar o leitor de propósito?
A literatura que faço tem muito de autobiografia. É inspirada por lugares onde estive, situações que vivi e pessoas que fui ncontrando. É a única maneira que temos de fixar o passado, de responder às perguntas que nos fazemos todos os dias. Por vezes desesperamos com a ausência de respostas, pelo fato de a vida, quando não é transformada em beleza, ser tão silenciosa com as nossas angústias. A história deste novo livro é ficcionada, mas também verdadeira. Saldaña Paris existe. teresa é o espelho de uma mulher que ainda vive. E procurou responder a perguntas que me fiz durante os últimos dois anos. uma delas foi:o que acontece ao amor quando desaparece, permanecendo? o que fazemos perante a presença aterrorizadora da solidão? O que sucede quando enfrentamos a crueldade de caras?

Que mania é essa de resgatares personagens dos livros anteriores?
Os meus livros são todos independentes uns dos outros. Mas as minhas personagens continuam a habitar comigo muito depois de as ter colocado no papel. Muitas vezes, são inspiradas por pessoas que, na verdade, existem ou existiram, como as personagens de Biografia Involuntária dos amantes. assim, recupero-as sempre que a situação o pede ou elas o exigem. as personagens têm vida própria, disso já não duvido; como um romance também o tem, ao pedir-nos coisas diferentes e inesperadas de dia para dia, enquanto o escrevemos, levando-nos por caminhos que não pensáramos percorrer.

É verdade que tens heróis literários e que insistes obsessivamente em ser como eles?
Claro, como todos os escritores. Quando leio Melville, quero ser Melville. Quando leio Bolaño, quero ser Bolaño. Quando leio Javier Marías, quero ser Javier Marías. O mais incrível é que, por mais que queira ser todos estes, acabo por ser apenas eu. É a magia da literatura: construímos a nossa identidade através dos outros. ninguém escreve sozinho.

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