João Pinto Coelho: “Se não aprendermos com a História, não estamos cá a fazer nada”

Vencedor do Prémio Leya 2017. Estudioso da Segunda Guerra Mundial. Arquiteto e professor de Artes Visuais. Habitante de Trás-os-Montes. João Pinto Coelho falou sobre todas as suas facetas em conversa com a Estante. Este é o resultado.

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Primeiras Palavras
“A montra negra da Livraria Thibault era a moldura mais respeitada da Rue de Nevers, um beco desconsolado que se escondia entre as costas de dois quarteirões do Quartier de la Monnaie e que, séculos antes, servira de escoadouro às imundices das irmãs da Penitência de Jesus Cristo. A loja situava-se sob o arco que abria para o Quai de Conti e, para entrar, era necessário bater na vitrina. Isto se ele desse pelo sinal, o que não era garantido. Naquele domingo, o livreiro cego dirigiu-se ao recesso mais escuro da livraria e sentou-se à escrivaninha.”

O Holocausto é um tema que investiga há muitos anos e que serve de base aos seus dois romances. De onde vem o interesse por este período da História?

Tenho alguma dificuldade em identificar exatamente o momento ou aquilo que me fez interessar por este tema. Pode ter sido um filme, uma série, mas será sempre uma recordação muito distante. Aquilo de que me lembro mais concretamente é da leitura de um livro nos meus tempos de faculdade – já lá vão cerca de 30 anos – que falava do Holocausto do ponto de vista dos perpetradores. Foi a partir daí que comecei a querer saber mais sobre o tema.

Os Loucos da Rua Mazur reabre uma ferida ao relatar como os judeus de uma cidade polaca foram massacrados pelos cristãos da própria comunidade. Todas as crueldades que descreve no livro são reais?

Não. Trata-se de um livro de ficção. O que acontece é que é baseado num acontecimento real, que ocorreu em julho de 1941 numa cidade do nordeste da Polónia. Não está escrito com exatidão, porque é apenas baseado num facto histórico. Sabemos é que nesse dia, 10 de julho de 1941, um conjunto de cristão polacos massacrou várias centenas de judeus que tinham sido seus vizinhos durante anos.

Numa obra desta natureza, onde se coloca o limite entre o que é real e o que é ficcionado?

É sempre muito complicado. Aliás, uma das coisas que fiz, precisamente para não me comprometer com uma realidade histórica que ainda está a ser objeto de investigação, foi nem sequer nomear a cidade. Jedwabne, que é o nome da cidade onde isto aconteceu, não aparece no livro.

Sabemos que, muito provavelmente, aqueles acontecimentos do livro têm a ver com os acontecimentos de Jedwabne, mas quis tratar isto de uma forma mais universal, porque aquilo que aconteceu em Jedwabne aconteceu em muitos outros lugares. Aliás, está escrito no livro que aconteceu em mil lugares. E, como dizia o padre Tolentino Mendonça na apresentação do livro, “há mil ruas Mazur”.

Portanto, a ficção permite-nos uma certa liberdade, mas sem nunca contar aquilo que não era suscetível de ter acontecido. É uma preocupação que o romancista que lida com estas questões deve ter.

De onde veio a ideia para este romance? Porquê agora?

A ideia veio até mim quando ainda estava a escrever o primeiro romance, Perguntem a Sarah Gross, que nos fala de outra cidade e de como ela se transforma em Auschwitz. Ao fazer a investigação para esse livro, que foi uma investigação que me levou muitos anos, descobri a história de Jedwabne e achei que era importante contá-la.

Porque repare: o massacre que descrevo em Os Loucos da Rua Mazur não se enquadra no Holocausto. O Holocausto foi perpetrado pela Alemanha nazi e isto não, isto aconteceu à sombra, paralelamente.

Foi exatamente por esse motivo que quis falar disto: para dizer que enquanto decorria o Holocausto – e a Polónia foi a arena privilegiada – houve acontecimentos paralelos que culminavam em tragédias, e com outros atores que não os alemães.


Tenho noção da sensibilidade que é necessária para escrever sobre o Holocausto. Há sempre um cuidado muito especial com a linguagem, uma tentativa de não qualificar o sofrimento.


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Por que motivo decidiu ter como protagonista um judeu cego? Que vantagens trouxe a perspetiva de um cego à forma de contar a história?

Isso tem a ver com uma ideia que já tinha há muito tempo, que também começou a surgir enquanto escrevia o Perguntem a Sarah Gross: descrever o horror e as emoções da perspetiva de alguém que não vê. Foi um desafio literário poder mostrar esse tipo de representações através da linguagem de um cego, olhar para as coisas como um cego, que não olha, que não vê, mas que sente recorrendo a outros sentidos. Achei interessante e quis transportá-lo para este romance.

Inspirou-se em pessoas reais para criar as personagens deste livro?

Sim. Há uma única personagem, a Shionka, a rapariga da floresta, que é inspirada numa pessoa que existe mesmo. Claro que não tem as mesmas características, não é filha de uma bruxa, não vive na floresta, mas é a única pessoa que posso dizer que inspirou uma personagem do livro.

Os Loucos da Rua Mazur vai saltando no tempo e no espaço. Visitou todas as regiões – Paris, nordeste da Polónia, entre outras – que refere no livro?

Não, desta vez não visitei. A parte de Paris, sim, conheço. A parte da Polónia conheço, mas não concretamente aquele lugar. Deixa de ser importante a partir do momento em que nem sequer o nomeio. Surge como um lugar abstrato, de certa forma. Sabemos que é numa determinada região da Polónia, mas não se refere especificamente à cidade de Jedwabne, podia ser um lugar qualquer.

Que tipo de investigação fez?

A investigação que comecei a fazer sobre esta tragédia começou muito antes de pensar em escrever o livro. Fui lendo uma série de livros, sobretudo Vizinhos, publicado em 2000 pelo historiador Jan T. Gross, que nos fala precisamente sobre este massacre. Causou imensa polémica na altura, na Polónia, e ainda hoje causa. Depois li toda a literatura que veio a seguir a esse livro, que surgiu como uma resposta, uma contestação, por vezes, ou uma complementaridade àquilo que descreve Jan Gross.

Encara os seus livros apenas e só como uma obra literária ou como um veículo para reforçar verdades que parecem ter sido esquecidas?

A minha ideia é escrever um livro. A perspetiva é estritamente literária. Tenho é a noção da responsabilidade e da sensibilidade que é necessária para escrever sobre estes temas. São temas que nos dizem respeito a todos nós, mas que mexem com a sensibilidade de muitas pessoas. Mesmo pessoas que já cá não estão, que são as vítimas.

Em termos de representação do sofrimento, de Auschwitz ou do massacre de Jedwabne, há sempre um cuidado muito especial com a linguagem, uma tentativa de não qualificar o sofrimento, de não adjetivar muito, de contar com muito rigor aquilo que aconteceu ou aquilo que era suscetível de ter acontecido. É uma responsabilidade que temos, que quem escreve sobre estes temas tem, até por respeito à memória das vítimas e ao seu sofrimento.


Ganhar o Prémio Leya foi um impacto muito grande.


Palavras do júri do Prémio Leya
Os Loucos da Rua Mazur é um romance bem estruturado, bem escrito, que capta a atenção do leitor, quer pelo tema quer pela construção em tempos paralelos, um no passado imediatamente anterior à 2.ª Guerra Mundial e no início desta, e o outro no mundo actual. Não cede ao facilitismo do romance histórico, embora a História seja parte da ação e nos apresente uma visão inédita da tragédia resultante das invasões russa e nazi da Polónia.”

Diria que foi um livro mais difícil de escrever do que Perguntem a Sarah Gross?

Bastante mais difícil, se bem que tenha demorado muitíssimo menos tempo a escrevê-lo. Demorei 11 meses, portanto é muito pouco comparado com os quatro anos que me levou Perguntem a Sarah Gross. Mas lá está: este também já estava, de certa forma, a ser idealizado enquanto escrevia o primeiro.

Foi muito mais difícil porque me expus mais. Mesmo em termos de linguagem. Falei de algumas coisas de que não falei no primeiro, portanto este até vive muito das entrelinhas de Perguntem a Sarah Gross.

Foi com este livro que ganhou recentemente o Prémio Leya. Foi inesperado? Como reagiu à notícia?

Quando nos submetemos à apreciação de um júri de um prémio literário, temos sempre a perspetiva de poder ter bons resultados, portanto a surpresa não terá sido total. Mas claro que causa sempre um impacto quando ouvimos a voz do Manuel Alegre do outro lado da linha…

Foi ele que lhe ligou?

Sim, ele normalmente liga. Sei porque já falei com outros vencedores do prémio e é ele que dá a notícia, porque é o presidente do júri. Foi um impacto muito grande. Por muito que gostemos daquilo que escrevemos – e se não, não o enviaríamos a um prémio, pelo menos não me lembro de uma condição mais crucial do que essa – e que esperemos que o júri também goste, não conhecemos os outros romances. Foram mais de 400, portanto é sempre uma expetativa que fica no ar. E o impacto é certamente grande.

Diria que é o maior marco da sua carreira?

É evidente que um prémio com o prestígio que tem o Prémio Leya tem sempre os seus efeitos. É muito importante, para já pelo reconhecimento por parte de um grupo de pessoas pelas quais tenho a maior consideração, mas também pela visibilidade que dá ao romance. Isso é importante não só para quem quer escrever livros, mas para quem os quer publicar.


Custa-me a aceitar a reação avassaladora da imprensa polaca, que me acusou de atacar o país e de atacar os polacos, ainda o livro não tinha saído para as livrarias.


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Numa entrevista recente à Visão sobre Os Loucos da Rua Mazur, fez algumas declarações que o embaixador da República da Polónia considerou “infundadas” e baseadas em “generalizações injustas”. Acha preocupante a passividade e indiferença com que ainda hoje são encaradas as atrocidades que descreve no livro?

Eu compreendo perfeitamente a posição do Sr. Embaixador. Foi uma posição sensata e esperada, porque naturalmente quer defender o bom nome do seu país. Já me custa é a aceitar a reação avassaladora – uma coisa completamente desproporcionada – da imprensa polaca, que me acusou de atacar o país e de atacar os polacos ainda o livro não tinha saído para as livrarias.

Mas sei que parte dessa imprensa que mais protestou está ligada à extrema-direita nacionalista. O nacionalismo alimenta-se deste tipo de polémicas e, se refletirmos bem, não é de todo surpreendente. O facto é que conseguimos aperceber-nos dos ventos perigosos que sopram na Europa – não só na Polónia, não só na Europa de Leste, mas por toda a Europa. São preocupantes e isso é incontestável.

Afirmei que sentia desconforto se fosse judeu na Polónia e reitero o que disse, até porque a Associação das Comunidades Judaicas da Polónia endereçou uma carta em agosto de 2017 ao presidente do partido Lei e Justiça, que está neste momento no poder, precisamente a alertar para o reconhecimento do discurso antissemita e para a insegurança que se sente neste momento. Portanto, é incontestável que há sinais preocupantes e que causam desconforto. Não falo em perigo imediato, falo em desconforto. E isso mantenho.

Mas com a ascensão da extrema-direita na Polónia e, como disse, noutros sítios da Europa, haverá risco de voltar a acontecer algo semelhante ao Holocausto?

Não me sinto capacitado de dizer que pode acontecer uma coisa com a mesma dimensão do Holocausto. Muito dificilmente acontecerá com as mesmas características, mas lá está: se há coisa que a História nos ensina é que se repete. Portanto, toda a vigilância neste momento é pouca e se não aprendermos com aquilo que aconteceu, então não estamos cá a fazer nada e a História deixa de valer seja o que for. Temos de estar muito vigilantes para que as coisas não nos surpreendam.


Um livro que me ajuda quando não quero escrever é Cem Anos de Solidão. Abro uma página ao calhas, leio duas ou três páginas, e isso é uma vitamina. Consigo começar a escrever quase imediatamente.


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Já começou a trabalhar no próximo livro? Também será sobre a Segunda Guerra Mundial?

Não, ainda não. Nem tenho perspetivas neste momento, nem sequer consigo dizer se vai ser sobre esse tema ou não.

 Ainda há muito por contar sobre esse período da História?

Não tenho dúvidas de que há muito por contar, sobretudo do ponto de vista dos perpetradores, não só do das vítimas.

Quais são as suas principais influências literárias?

São tantas… Eu leio tanto de tanta coisa que, quando estou a escrever, não consigo identificar-me com este ou com aquele autor. Agora, há alguns autores de referência que me acompanharam muito e que provavelmente terão alguma influência na minha forma de escrever.

Por exemplo, costumo dizer que um livro que me ajuda quando não quero escrever – porque escrever um romance exige disciplina e, por vezes, a última coisa que queremos é sentar-nos à secretária e escrever – é Cem Anos de Solidão. Abro uma página ao calhas, onde for, leio duas ou três páginas e isso é uma vitamina. Consigo começar a escrever quase imediatamente. Se isso é influência, eu diria que García Márquez me influencia muito e me ajuda muito no processo de escrita.

Lê páginas aleatórias, mas já leu esse romance do início ao fim?

Curiosamente, já li esse romance todo e muitas vezes, mas nunca o li em sequência. Fico de tal maneira fascinado com a estética da linguagem, com a forma como se resolvem as frases, com a capacidade extraordinariamente inventiva do autor, que não preciso de sequência, não preciso de me preocupar em saber toda aquela árvore genealógica. Basta-me ler parágrafos soltos.

Livros à parte, que filmes ou séries televisivas sobre o Holocausto lhe parecem ser mais fiéis ao que realmente se passou?

Claramente Shoah, de Claude Lanzmann. É um documentário verdadeiramente essencial, que vejo e revejo, um pouco como o Cem Anos de Solidão. É um filme que dura nove horas e a forma de representação do Holocausto é extraordinária.

Tem percorrido escolas de norte a sul do país para falar de acontecimentos menos conhecidos da Segunda Guerra Mundial. Nota que os jovens portugueses estão abertos a aprender? Têm o interesse que se espera por um tema deste peso?

Sim, claramente. Agora, se me perguntar se os livros de História lhe dão a importância que merece, acho que não. O Holocausto devia ser tratado nas escolas de outra maneira. Aproveito sempre que vou estar com alunos para lhes dar uma perspetiva mais ampla, mais abrangente do que se passou naquele período.


A minha linguagem sempre foi a do desenho. Agora estou a experimentar a da escrita e vejo que a criatividade vem toda do mesmo lugar.


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É formado em Arquitetura e professor de Artes Visuais. De que forma isso complementa a sua atividade enquanto escritor?

É sobretudo a prova de que a criatividade vem toda do mesmo lugar, mas expressa-se em linguagens diferentes. A minha linguagem nunca foi, até agora, a linguagem da escrita, sempre foi a do desenho. Agora estou a experimentar a da escrita e vejo que vem tudo do mesmo lugar. Acho que é a conclusão mais interessante que posso retirar.

Mas gostaria de viver apenas da escrita?

Nesta altura sim, gostaria. É difícil, porque o mercado português é muito limitado, mas era uma ambição, sim. Acredito que a possa concretizar. 

A paixão pela escrita apareceu de repente?

Apareceu de repente, sim, porque a primeira frase de ficção escrevi-a com 40 e poucos anos – não contando com as redações da escola primária. Comecei a escrever muito tarde. Nem escrevia contos, nem poemas, nada. Foi uma experiência que nem sei de onde surgiu.

Com esta breve experiência, já descobriu qual é a pior parte de ser escritor? Será a necessidade de ter disciplina, que referiu há pouco?

Sim, é mesmo a disciplina. Se quisermos levar isto a sério temos de fazer coisas que não queremos fazer, escrever quando não queremos escrever. Por vezes arrancar um novo capítulo dói, mas a partir do momento em que as coisas começam a correr torna-se mais fácil.

Tem uma rotina de escrita ou lugares onde costuma escrever?

Tenho. As pessoas acham um bocadinho estranho, mas escrevo os meus livros entre as 3 e as 7 da manhã, que é a única altura que tenho disponível. Escrevo em Trás-os-Montes, a olhar para as montanhas, a ver o amanhecer, e é aí que gosto de escrever porque tenho uma paz e um silêncio… E o tempo em Trás-os-Montes é diferente do tempo de Lisboa.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?

Estou a ler o Anna Karenina pela primeira vez – infelizmente não tenho o tempo que gostaria para ler todos os clássicos – e está a dar-me um prazer imenso.

O que é para si um bom livro?

É um livro que fica comigo para sempre. Hoje olho para trás e penso em alguns livros, mesmo livros que li na infância ou na adolescência, que ficam para sempre. E se ficam para sempre, a razão tem de ser boa.

Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Um Viajante Sem Oriente.


Por: Carolina Morais
Fotografia: Bruno Colaço/4SEE

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