Alter Ego de Joana Vasconcelos


joana-vasconcelos-alter-ego-revista-estanteUma autoentrevista
. Perguntas que o próprio autor gostava que lhe tivessem feito das quais nunca ninguém se lembrou.

O que tem mais valor: o conceito da obra ou a própria materialização dessa ideia, traduzida no objeto realizado?
Existe um conjunto de fatores que faz com que a obra aconteça: o conceito que se pretende trabalhar, a seleção dos materiais para a sua realização, o título, o fazer da peça, etc. Contudo, não existem hierarquias entre estes pontos. Nenhum destes fatores é mais importante do que o outro pois a obra apenas resulta da reunião e convergência final de todos. Obra e conceito têm de ser unos.

Tendo em conta que a sua formação também passou pela joalharia, qual a relação entre esta disciplina e a escultura? O que há de joalharia na sua escultura?

As estruturas mental e de projeto que marcam o processo de criação da minha escultura são iguais às que se aplicam — e ao que  aprendi — na joalharia. Tudo parte de um desenho. A manualidade exercida e sentido de minúcia empregues na realização das minhas obras são equivalentes às exigidas pela produção de joias. O processo de produção da joalharia é também muito semelhante e, se algo falha, há que tentar tudo de novo até chegar ao resultado pretendido. A exigência e a minúcia reinam e são fundamentais nas duas áreas.

Porque é que se encontra na sua obra uma diversidade enorme de peças e de modos de pensar?
Cada peça é uma entidade diferente e única. Existe um lado de alter-ego na minha forma de ser como artista porque, como artista, tenho a liberdade de vestir várias peles. As obras e séries assumem-se como criações de possíveis heterónimos, cada um com a sua
própria e individual forma de olhar e de pensar. A arte oferece-nos a liberdade de pensar e criar sem constrangimentos, ver para além do horizonte e alargar o nosso entendimento em relação ao que somos e ao meio que nos envolve. E é naturalmente esse potencial e diversidade ilimitados que procuro explorar no meu trabalho.

Qual o fio condutor da sua obra? Por que fase está agora a passar?
A diversidade referida na questão anterior também se prende com o facto de a minha obra não se encerrar num determinado movimento, género ou mesmo numa fase, como a “fase azul” ou a “fase rosa” de Picasso. Existe, talvez, um movimento pendular e
até, de certa forma, intemporal. Na conceção de novas peças encontro-me por vezes a regressar a obras bastante anteriores, e existem obras do início da minha carreira que, se não tivessem sido pensadas e realizadas nessa altura, muito provavelmente iria realizá-las no futuro porque a sua atualidade mantém-se — como é, por exemplo, o caso de A Noiva (2001-2005).

Joana Vasconcelos foi a primeira e única mulher a expor no Palácio de Versalhes, em Paris. A exposição — que decorreu entre  junho e setembro de 2012 — está na lista das mais visitadas de sempre em Paris: cerca de 1,6 milhões de pessoas puderem conhecer a obra da artista portuguesa.

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